Por Machado de Assis (1900)
Quem se não importa com saber se os urbanos ou seus adversários perderam ou não, e se o grito da Independência foi ou não soltado à margem do Ipiranga, é a companhia lírica.
A companhia lírica despreocupa-se de problemas históricos ou bélicos; ela só pensa nos problemas pecuniários, aliás resolvidos desde que se anunciou. Pode dizer que chegou, viu e... embolsou os cobres.
Efetivamente, o delírio de Buenos Aires chegou até cá, e o erro fatal de não termos quarentena para os navios procedentes de portos infeccionados deu em resultado acharmo-nos todos delirantes.
Que insânia, cidadãos! como dizia o poeta da Farsália.
Cadeiras a 40 bicos! Camarotes a 200 paus! Ainda se fosse para ver o Micado do Japão, que nunca aparece, compreende-se; mas para ouvir no dia 1.° alguns cantores, aliás bons, que a gente pode ouvir no dia 12 pelo preço de casa...
Eu disse o Micado, como coisa rara, e podia dizer também os olhos da Sra. Elena Samz, que são mais raros ainda. Confesso que são os maiores que os meus têm visto. Ou os olhos da contralto, ou os bispos da Africana. Não são bispos aqueles sujeitos, não são; não passam de meia dúzia de mendigos, assalariados para espeitorar algumas notas, a tantos réis cada um. Ou são bispos disfarçados. Se não são bispos disfarçados, são caixeiros do Pobre Jaques, que andam mostrando as alfaias do patrão. Bispos, nunca.
Na hora em que escrevo, tenho à minha espera as luvas para ir aos Huguenotes. Acho que a coisa há de sair boa; entretanto veremos.
V
Admirei-me algumas linhas atrás, da prodigalidade do público em relação à companhia Ferrari. Pois não havia de que, visto que, apesar dela, aí está a do Sr. Torresi, cujas assinaturas estão tomadas todas.
Dentro de poucos dias não haverá meio de dar os bons dias, pagar uma letra ou pedir uma fatia de presunto, sem ser por música.
A vida fluminense vai ser uma partitura. a imprensa uma orquestra, a maçonaria um coro de punhais.
Amanhã almoçaremos em lá menor; calçaremos as botas em três por quatro, e as ruas a três por dois. O Sr. Torresi promete dar tudo o que o Sr. Ferrari nos der, e mais o Salvador Rosa. Também promete moças bonitas, cujos retratos já estão na casa do Sr. Castelões, em frente às suas rivais.
Pela imprensa disputa-se a questão de saber qual é o primeiro teatro da capital, se o de S. Pedro, se o Dom Pedro II.
De um e outro lado afirma-se com a mesma convicção que o teatro do adversário é inferior.
Está-me isto a parecer a mania dos primeiros atores; o 1.° ator Fulano, o 1.° ator Sicrano, o 1.° ator Paulo, o 1.° ator Sancho, o 1.° ator Martinho.
O que sairá daqui não sei; mas se a coisa não prova entusiasmo lírico, não sei que mais querem os empresários.
VI
Talvez sejam tão exigentes como os moradores da Rua das Laranjeiras, que estão a bradar que a mandem calçar, como se não bastasse morar em rua de nome tão poético é certo que, em dias de chuva, a rua fica pouco menos lamacenta que qualquer sítio do Paraguai. Também é verdade que duas pessoas, necessitadas de comunicar uma coisa à outra, com urgência podem vir desde o Cosme Velho até o Largo do Machado, cada uma de sua banda, sem achar lugar em que atravessem a rua.
Finalmente, não se contesta que sair do bond, em qualquer outra parte da dita rua, é empresa só comparável à passagem do mar Vermelho, que ali é escuro.
Tudo isso é verdade. Mas em compensação, que bonito nome! Laranjeiras! Faz lembrar Nápoles; tem uns ares de idílio: a sombra de Teócrito deve por força vagar naquelas imediações.
Não se pode ter tudo,—nome bonito e calçamento; dois proveitos não cabem num saco. Contentem-se os moradores com o que têm, e não peçam mais, que é ambição.
VII
Suponha o público que é um sol, e olhe em volta de si: verá o Globo a rodeá-lo, mais forte do que era até há pouco e prometendo longa vida.
Eu gosto de todos os globos, desde aqueles (lácteos) que tremiam quando Vênus entrou no céu (viu Lusíadas), até o da Rua dos Ourives, que é um Globo como se quer.
Falando no sentido natural, direi que o Globo honra a nossa imprensa e merece ser coadjuvado por todos os que amam essa alavanca do progresso, a mais potente de todas.
Hoje a imprensa fluminense é brilhante. Contamos órgãos importantes, neutros ou políticos, ativos, animados e perseverantes. Entre eles ocupa lugar distinto o Globo, a cujo talentoso redator e diretor, Sr. Quintino Bocaiúva, envio meus emboras, não menos que ao seu folhetinista Oscar d'Alva, cujo verdadeiro nome anda muita gente ansiosa para saber qual seja.
[5]
[1 outubro]
I
NÃO REINARAM SÓ as vozes líricas nesta quinzena última; fez-lhes concorrência o boi.
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, s.d.