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#Contos#Literatura Brasileira

Fernando e Fernanda

Por Machado de Assis (1866)

Sabe que amo a D. Teresa, aquela interessante moça abandonada no amor que votava ao F... Conhece ainda a história do meu primeiro amor. Somos dois corações igualados pelo infortúnio; o amor pode completar a nossa fraternidade. 

E deveras nos amamos, nada se pode opor à minha felicidade; o que eu desejo é que me ajude neste negócio, assistindo o meu acanhamento com o seu conselho e a sua mediação. 

Tenho ânsia de ser feliz é a melhor ocasião; entrever, por uma porta aberta, as glórias do paraíso, sem fazer um esforço para gozar da luz eterna, fora loucura. Não quero para o futuro um remorso e uma dor. 

Conto que as minhas aspirações sejam satisfeitas e que eu tenha mais um motivo de ser lhe eternamente grato. — Fernando. 

Daí a dois dias, graças à intervenção do referido parente, que aliás fora desnecessária, Teresa estava prometida a Fernando. 

O último lance desta simples narrativa passou-se em casa de Soares. Soares, mais e mais desconfiado, lutava com Fernanda para conhecer as disposições do seu coração e as determinações de sua vontade. Andava escuro o céu daquele casamento, realizado sob tão maus auspícios. Desde muito que a tranqüilidade desaparecera dali, deixando o desgosto, o tédio, a desconfiança. 

— Se eu soubera, dizia Soares, que no fim de tão pouco tempo a senhora me faria beber fel e vinagre, não teria prosseguido em uma paixão que foi o meu castigo. Fernanda, muda e distraída, mirava-se de quando em quando em um psyché, corrigindo o penteado ou simplesmente admirando a esquivança desarrazoada de Fernando. Soares insistia no mesmo tom meio sentimental. 

Afinal, Fernanda respondia desabridamente, exprobrando-lhe o insulto que fazia à sinceridade dos seus protestos. 

— Mas esses protestos, disse Soares, é que eu não ouço; é exatamente o que eu peço; jure que eu estou em erro e fico contente. Há uma hora que lho digo. — Pois sim... 

— O quê? 

— Está em erro. 

— Fernanda, juras-me isso? 

— Juro, sim... 

Entrou um escravo com uma carta para Fernanda; Soares deitou um olhar para o sobrescrito e reconheceu a letra de Fernando. Contudo, depois do juramento de Fernanda não quis ser o primeiro a ler a carta, esperou que ela começasse. 

Mas Fernanda, estremecendo à vista da letra e do mimo do papel, guardou a carta, mandando embora o escravo. 

— De quem é essa carta? 

— É de mamãe. 

Soares estremeceu. 

— Por que não a lês? 

— Já sei o que é. 

— Oh! é demais! 

E levantando-se de sua cadeira dirigiu-se para Fernanda.

— Vamos ler essa carta. 

— Depois... 

— Não; há de ser já! 

Fernanda resistiu, Soares insistiu. Depois de algum tempo viu Fernanda que lhe era impossível guardar a carta. E por que a guardaria? Fernanda cuidava ainda que, melhor avisado, Fernando voltasse a aceitar o coração ofertado e recusado. A vaidade produzia este erro. 

Aberta a carta, eis o que Soares leu: 

Mana. Sábado dezessete caso-me eu com D. Teresa G... É um casamento de amor. Peço-lhe que dê parte disto a meu cunhado, e que ambos venham ornar a pequena festa desta união. Seu irmão. — Fernando. 

A decepção de Fernanda foi grande. Mas pôde dissimulá-la algum tempo; Soares vendo o conteúdo da carta e acreditando que sua mulher apenas quisera entretê-lo com um engano, pagou-lhe em beijos e carícias a felicidade que semelhante descoberta lhe deu. É inútil dizer que Fernanda não foi assistir ao casamento de Fernando e Teresa. Pretextou moléstia e lá não pôs os pés. Nem por isso a festa foi menos brilhante. Madalena estava feliz e contente vendo o contentamento e a felicidade de seu filho. Daí para cá, vai para três anos, o casamento de Fernando e Teresa é um paraíso, em que ambos, novo Adão e nova Eva, gozam da paz do espírito, sem intervenção da serpente nem conhecimento do fruto do mal. 

Não menos feliz é o casal Soares, ao qual voltaram, depois de algum tempo, os dias saudosos da pieguice e da puerilidade. 

Se algum leitor achar esta história muito nua de interesse, reflita nestas palavras que Fernando repete aos amigos que costumam visitá-lo: 

— Consegui uma das coisas mais raras no mundo: a perfeita conformidade das intenções e dos sentimentos entre duas criaturas, tão longe educadas e tanto tempo separadas e desconhecidas uma para outra. É que aprenderam na escola do infortúnio. Vê-se, ao menos nisto, uma máxima em ação. 


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