Por Machado de Assis (1866)
Parecia-me fácil declarar à menina os meus sentimentos; entretanto, tomava-me de um tal acanhamento e receio em presença dela, que não podia articular uma palavra positiva que fosse.
Nada mais disse.
Deitei os olhos para o bastidor e vi que ela bordava um lenço.
Ficamos silenciosos alguns minutos. Depois, como fosse aquele silêncio embaraçoso, perguntei:
— Quem é aquele Azevedinho?
E firmando o olhar nela procurei descobrir a impressão que esta pergunta lhe produzira. O que descobri foi que as faces se lhe tornavam vermelhas; levantou os olhos e respondeu-me:
— É um rapaz...
— Isso eu sei.
— É um rapaz lá do conhecimento de minha tia.
— Não entendeu a minha pergunta. Eu perguntava que opinião forma dele? — Nenhuma: é um rapaz.
De risonho tomei-me sério. Que explicação tiraria daquela vermelhidão e daquelas respostas evasivas?
Ângela continuou a bordar.
— Por que me faz essas perguntas? disse ela.
— Ah! por nada... por nada...
Havia em mim um pouco de despeito. Quis mostrar-lho francamente. — Ora por que há de tomar esse ar sério?
— Sério? Não vê que estou rindo?
Devia ser muito amargo o riso que eu afetava, porque ela, reparando em mim, deixou de bordar, e pondo-me a mão no braço, disse:
— Oh! perdão! eu não disse por mal... estou brincando...
O tom destas palavras desarmou-me.
— Nem eu me zanguei, respondi.
Ângela continuou a falar, bordando:
— O Azevedinho ia lá por casa de minha tia, onde conheceu meu pai e meu tio. É um bom moço, conversa muito comigo, é muito meigo e alegre.
— Que lhe costuma ele dizer?
— Falsidades... Diz que sou bonita.
— Grande falsidade!
— Ah! também! exclamou ela sorrindo com uma graça e uma singeleza inimitáveis. — Mas que lhe diz mais?
— Mais nada.
— Nada?
— Nada!
Ângela parecia dizer a custo esta palavra; estava mentindo. Com que fim? por que razão? Que fraco examinador era eu que não podia atinar com o motivo de todas aquelas reticências e evasivas?
Estas reflexões passaram-me pela cabeça em poucos minutos. Era preciso desviar-me do assunto do rapaz. Mas sobre que poderia ser? Eu não tinha a ciência de entreter horas sobre coisas indiferentes, em conversa com uma pessoa que me não era indiferente. Tomei um ar de amigo, e mais velho, e disse a Ângela com um tom paternal: — Nunca amou, D. Ângela?
— Que pergunta! disse ela estremecendo.
— É uma pergunta como qualquer outra. Faça de conta que sou confessor. É simples curiosidade.
— Como quer que lhe responda?
— Dizendo a verdade...
— A verdade... é difícil.
— Então, é afirmativa. Amou. Ama ainda talvez. Se é correspondida, é feliz. Oh! nunca permita Deus que lhe suceda amar sem ser amada... ou pior, amar a quem ama a outro... a outra, quero dizer.
— Deve ser grande infelicidade essa...
— Oh! não imagina. É o maior dos suplícios. Consome-se o coração e o espírito, e envelhece-se dentro em pouco. E o que se segue depois? Vem a desconfiança de todos; nunca mais o coração repousa tranqüilo na fé do coração alheio.
— Oh! é triste!
— Deus a preserve disso. Vejo que nasceu para dar e receber a suprema felicidade. Deus a faça feliz... e ao seu amor.
E levantei-me.
— Onde vai? perguntou-me ela.
— Vou passear... Devo preparar-me para voltar à cidade. Não posso ficar aqui sempre. — Não vá...
E fez-me sentar de novo.
— Está assim mal conosco? Que mal fizemos nós?
— Oh! nenhum! preciso de tratar dos meus negócios.
— Não quero que vá.
Dizendo estas palavras, Ângela baixou os olhos e pôs-se a riscar maquinalmente com a agulha no lenço.
— Não quer? disse eu.
— É ousadia dizer que não quero; mas cuido que é o meio de fazê-lo ficar. — Só por isso?
A moça não respondeu. Senti que me animava um raio de esperança. Olhei para Ângela, peguei-lhe na mão; ela não recuou. Ia dizer que a amava, mas a palavra não me podia sair dos lábios, aonde chegava ardente e trêmula.
Mas, como era preciso dizer alguma coisa, lancei os olhos para o bordado; vi que estava quase completa uma inicial. Era um F. — Estremeci, F. era a minha inicial. — Para quem é este lenço?
Ângela com a outra mão cobriu rapidamente o bordado, dizendo:
— Não seja curioso!
— É para mim, D. Ângela?
— E se fosse, era crime?
— Oh! não!
Senti passos. Era o doutor que entrava.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Felicidade pelo casamento. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1866.