Por Machado de Assis (1866)
— Ah! também! exclamou ela sorrindo com uma graça e uma singeleza inimitáveis. — Mas que lhe diz mais?
— Mais nada.
— Nada?
— Nada!
Ângela parecia dizer a custo esta palavra; estava mentindo. Com que fim? por que razão? Que fraco examinador era eu que não podia atinar com o motivo de todas aquelas reticências e evasivas?
Estas reflexões passaram-me pela cabeça em poucos minutos. Era preciso desviar-me do assunto do rapaz. Mas sobre que poderia ser? Eu não tinha a ciência de entreter horas sobre coisas indiferentes, em conversa com uma pessoa que me não era indiferente. Tomei um ar de amigo, e mais velho, e disse a Ângela com um tom paternal: — Nunca amou, D. Ângela?
— Que pergunta! disse ela estremecendo.
— É uma pergunta como qualquer outra. Faça de conta que sou confessor. É simples curiosidade.
— Como quer que lhe responda?
— Dizendo a verdade...
— A verdade... é difícil.
— Então, é afirmativa. Amou. Ama ainda talvez. Se é correspondida, é feliz. Oh! nunca permita Deus que lhe suceda amar sem ser amada... ou pior, amar a quem ama a outro... a outra, quero dizer.
— Deve ser grande infelicidade essa...
— Oh! não imagina. É o maior dos suplícios. Consome-se o coração e o espírito, e envelhece-se dentro em pouco. E o que se segue depois? Vem a desconfiança de todos; nunca mais o coração repousa tranqüilo na fé do coração alheio.
— Oh! é triste!
— Deus a preserve disso. Vejo que nasceu para dar e receber a suprema felicidade. Deus a faça feliz... e ao seu amor.
E levantei-me.
— Onde vai? perguntou-me ela.
— Vou passear... Devo preparar-me para voltar à cidade. Não posso ficar aqui sempre. — Não vá...
E fez-me sentar de novo.
— Está assim mal conosco? Que mal fizemos nós?
— Oh! nenhum! preciso de tratar dos meus negócios.
— Não quero que vá.
Dizendo estas palavras, Ângela baixou os olhos e pôs-se a riscar maquinalmente com a agulha no lenço.
— Não quer? disse eu.
— É ousadia dizer que não quero; mas cuido que é o meio de fazê-lo ficar. — Só por isso?
A moça não respondeu. Senti que me animava um raio de esperança. Olhei para Ângela, peguei-lhe na mão; ela não recuou. Ia dizer que a amava, mas a palavra não me podia sair dos lábios, aonde chegava ardente e trêmula.
Mas, como era preciso dizer alguma coisa, lancei os olhos para o bordado; vi que estava quase completa uma inicial. Era um F. — Estremeci, F. era a minha inicial. — Para quem é este lenço?
Ângela com a outra mão cobriu rapidamente o bordado, dizendo:
— Não seja curioso!
— É para mim, D. Ângela?
— E se fosse, era crime?
— Oh! não!
Senti passos. Era o doutor que entrava.
Recuei a distância respeitosa e dirigi algumas palavras a Ângela sobre a excelência do bordado.
O doutor dirigiu-se a mim.
— Ora, bem podia esperá-lo, disse ele. Cuidei que estivesse encerrado, e não quis incomodá-lo.
— Estive aqui assistindo a este trabalho de D. Ângela.
— Ah! bordados!
Travou-se uma conversa geral até que veio a hora do jantar. Jantamos, conversamos ainda, e recolhemo-nos às dez horas da noite.
À mesa do chá declarei eu ao doutor que iria à cidade, senão para ficar, ao menos para dar andamento aos meus negócios. O meu caboclo tinha-me trazido uma carta de minha mãe, vinda pelo último vapor, e na qual me pedia que concluísse os negócios e voltasse à província.
O doutor disse-me que fosse, mas que me não deixasse encantar pela cidade. Disse-lhe que em nenhuma parte encontrava o encanto que tinha ali em casa dele. Valeu-me a resposta um olhar significativo de Ângela e esta resposta do tio Bento: — Ora, ainda bem!
V
Entrando para o meu quarto levava o espírito ocupado de reflexões contrárias, umas suaves, outras aflitivas.
Ao mesmo tempo que me parecia poder assenhorear-me do coração de Ângela, dizia-me, não sei que demônio invisível, que ela não podia ser minha porque já era de outro. Esta dúvida era pior que a certeza.
Se eu estivesse certo de que Ângela amava Azevedinho, sentiria, de certo; mas o amor, apenas começado, devia ceder ao orgulho; e a idéia de que não devia lutar com um homem que eu julgava moralmente inferior a mim, acabaria por triunfar em meu espírito. Deste modo uma paixão má, um defeito moral, traria a antiga fé ao meu coração. Mas a incerteza, não; desde que eu entrevia uma probabilidade, uma esperança, acendia se a paixão cada vez mais; e eu acabava por dispor-me a entrar nessa luta tenaz entre o homem e a fatalidade dos sentimentos.
Mas poderia Ângela adivinhá-lo? Aquela moça, filha de um homem sisudo, educada aos cuidados dele, mostrando ela própria certa elevação de sentimentos, e, até certo ponto, uma discrição de espírito, poderia amar a um rapazola vulgar, sem alma nem coração, frívolo como os divertimentos em que ele se comprazia?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Felicidade pelo casamento. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1866.