Por Machado de Assis (1876)
Iam calados a princípio; ao cabo de alguns minutos, Pedro rompeu o silêncio; louvou a alma, os sentimentos e as maneiras do padre, a felicidade que se respirava naquela casa, a boa educação de Lulu, finalmente, tratou do seu futuro e da carreira que se lhe ia abrir. Alexandre ouviu-o calado, mas não distraído; concordou em tudo com ele, e quando veio o ponto da carreira eclesiástica, perguntou:
— Aceita essa profissão por seu gosto?
Pedro hesitou um minuto.
— Aceito, disse enfim.
— Pergunto se por seu gosto, tornou Alexandre.
— Por meu gosto.
— É vocação?
— Que outra coisa seria? observou Pedro.
— Tem razão. Sente um pendor irresistível para a vida da Igreja, uma voz interior que lhe fala, que o atrai violentamente...
— Como o amor.
— Oh! deve ser mais forte do que o amor! emendou Alexandre.
— Deve ser tão forte. O coração humano, quando alguma força o solicita, qualquer que ela seja, creio que recebe igual impressão. O amor é como a vocação religiosa; como qualquer outra vocação, exerce no homem o mesmo poder...
— Não, não creio, interrompeu Alexandre. A vocação religiosa, por isso mesmo que chama o homem a uma missão mais elevada, deve exercer influência maior. O amor divino não pode comparar-se ao amor humano. Soube de algum sacrifício igual ao dos mártires da fé?
Pedro refutou, como pôde, a opinião do companheiro; e este redargüiu com argumentos novos, falando ambos com igual calor e interesse. A conversa parou, quando ambos chegaram à porta da casa de dona Emiliana; Pedro entrou e o outro seguiu caminho. D. Emiliana não pôde atinar com a razão por que o filho naquela noite parecia tão preocupado. A verdade é que Pedro tomou o chá distraidamente; não leu nem conversou, retirou-se cedo para o quarto, e só muito tarde conseguiu dormir.
— Vou hoje decidir o teu negócio, disse-lhe D. Emiliana no dia seguinte. — Ah!
— Teu tio vem cá hoje, continuou ela. Entender-me-ei com ele...
— Sim, o amor divino...
— O amor divino? repetiu D. Emiliana espantada.
— E o amor humano, continuou Pedro.
— Que é?
— A vocação religiosa é superior a qualquer outra.
— Compreendo; tens razão.
Pedro só ouvira estas últimas palavras da mãe; e olhou para ela com ar de quem saía de um estado de sonambulismo. Procurou lembrar-se do que acabava de dizer; e só muito confusamente repetiu mentalmente as palavras vocação religiosa, amor divino e amor humano. Viu que a conversa da noite anterior lhe ficara gravada na memória. Entretanto, respondeu à mãe que efetivamente o estado eclesiástico era o melhor e mais puro de todos os estados.
Suas irmãs aplaudiram de coração a idéia de fazer-se padre o rapaz; e o irmão mais moço aproveitou o caso para manifestar o desejo de ser sacristão, desejo que fez rir a toda a família.
Restava a opinião do tio, que se não fez esperar e foi de todo o ponto conforme com o gosto dos demais parentes. Estava padre o moço; só lhe restavam os estudos regulares e a sagração final.
A notícia foi recebida pelo padre Sá com verdadeira satisfação, tanto mais sincera quanto que recebeu a resposta de dona Emiliana em momentos dolorosos para ele. Sua sobrinha jazia na cama; fora acometida de uma intensa febre de caráter grave. O velho padre deu um apertado abraço no moço.
— Oh! eu bem sabia que não havia nenhuma dúvida! exclamou ele.
Pedro soube que a moça estava enferma, e empalideceu quando o padre lhe deu esta triste notícia.
— Doença de perigo? perguntou o futuro seminarista.
— Grave, respondeu o padre.
— Mas ainda ontem...
— Ontem estava de perfeita saúde. Era impossível contar com semelhante acontecimento. Entretanto, que há mais natural? Seja feita a vontade de Deus. Estou que ele há de ouvir as minhas orações.
O padre Sá, dizendo isto, sentiu uma lágrima borbulhar-lhe nos oLhos, enxugou-a disfarçadamente. Contudo, Pedro viu-lhe o gesto e abraçou-o.
— Descanse, não há de ser nada, disse ele.
— Deus te ouça, filho!
VI
A tia Mônica, de quem se falou em um dos capítulos anteriores, era uma preta velha, que havia criado a sobrinha do padre e a amava como se fora sua mãe. Era liberta; o padre deu-lhe a liberdade logo que morrera a mãe de Lulu, e Mônica ficou servindo de companheira e protetora da menina, que não tinha outro parente, além do padre e do primo. Lulu nunca adoecera gravemente; ao vê-la naquele estado, a tia Mônica ficou desatinada. Passado o primeiro momento, foi um modelo de paciência, dedicação e amor. Velava as noites junto da cabeceira da doente, e apesar de estar toda entregue aos cuidados de enfermeira ainda lhe sobrava tempo para tratar da direção da casa. A doença foi longa; durou cerca de quinze dias. A moça ergueu-se enfim da cama, pálida e abatida, mas livre ele todo o mal. A alma do tio sentiu-se renascer. A certeza dera-lhe vida nova. Ele padecera muito durante aqueles quinze mortais dias; e Pedro fora testemunha de sua longa aflição. Não foi só testemunha impassível, nem o consolou com palavras triviais; tomou boa parte nas dores do velho, fez-lhe companhia durante as noites de maior perigo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Encher tempo. 1876.