Por Machado de Assis (1861)
Ora, não convém por modo algum que a mulher de um deputado ministerialista vá à partida de um membro da oposição. Em rigor, nada há de admirar nisso. Mas o que não dirá a imprensa governista! O que não dirão os meus colegas da maioria! Está lendo?
CLARA
Estou folheando este álbum.
PEDRO ALVES
Nesse caso, repito-lhe que não convém...
CLARA
Não precisa, ouvi tudo.
PEDRO ALVES
(levantando-se)
Pois aí está; fique com a minha opinião.
CLARA
Prefiro a minha.
PEDRO ALVES
Prefere...
CLARA
Prefiro ir à partida do membro da oposição.
PEDRO ALVES
Isso não é possível. Oponho-me com todas as forças.
CLARA
Ora, veja o que é o hábito do parlamento! Opõe-se a mim, como se eu fosse um adversário político. Veja que não está na câmara, e que eu sou mulher.
PEDRO ALVES
Mesmo por isso. Deve compreender os meus interesses e não querer que seja alvo dos tiros dos maldizentes. Já não lhe falo nos direitos que me estão confiados como marido...
CLARA
Se é tão aborrecido na câmara como é cá em casa, tenho pena do ministério e da maioria.
PEDRO ALVES
Clara!
CLARA
De que direitos me fala? Concedo-lhe todos quantos queira, menos o de me aborrecer; e privar-me de ir a esta partida, é aborrecer-me.
PEDRO ALVES
Falemos como amigos. Dizendo que desistas do teu intento, tenho dois motivos: um político e outro conjugal. Já te falei do primeiro.
CLARA
Vamos ao segundo.
PEDRO ALVES
O segundo é este. As nossas primeiras vinte e quatro horas de casamento, passaram para mim rápidas como um relâmpago. Sabes por quê? Porque a nossa lua-de-mel não durou mais que esse espaço. Supus que unindo-te a mim, deixasses um pouco a vida dos passeios, dos teatros, dos bailes. Enganei-me; nada mudaste em teus hábitos; eu posso dizer que não me casei para mim. Fui forçado a acompanhar-te por toda a parte, ainda que isso me custasse grande aborrecimento.
CLARA
E depois?
PEDRO ALVES
Depois, é que esperando ver-te cansada dessa vida, reparo com pesar que continuas na mesma e muito longe ainda de a deixar.
CLARA
Conclusão: devo romper com a sociedade e voltar a alongar as suas vinte e quatro horas de lua-de-mel, vivendo beatificamente ao lado um do outro, debaixo do teto conjugal...
PEDRO ALVES
Como dois pombos.
CLARA
Como dois pombos ridículos! Gosto de ouvi-lo com essas recriminações. Quem o atender, supõe que se casou comigo pelos impulsos do coração. A verdade é que me esposou por vaidade, e que quer continuar essa lua-de-mel, não por amor, mas pelo susto natural de um proprietário, que receia perder um cabedal precioso.
PEDRO ALVES
Oh!
CLARA
Não serei um cabedal precioso?
PEDRO ALVES
Não digo isso. Protesto, sim, contra as tuas conclusões.
CLARA
O protesto é outro hábito do parlamento! Exemplo às mulheres futuras do quanto, no mesmo homem, fica o marido suplantado pelo deputado.
PEDRO ALVES
Está bom, Clara, concedo-te tudo.
CLARA
(levantando-se)
Ah! vou fazer cantar o triunfo!
PEDRO ALVES
Continua a divertir-te como for de teu gosto.
CLARA
Obrigada!
PEDRO ALVES
Não se dirá que te contrariei nunca.
CLARA
A história há de fazer-te justiça.
PEDRO ALVES
Acabemos com isto. Estas pequenas rixas azedam-me o espírito, e não lucramos nada com elas.
CLARA
Acho que sim. Deixe de ser ridículo, que eu continuarei nas mais benévolas disposições. Para começar, não vou à partida da minha amiga Carlota. Está satisfeito?
PEDRO ALVES
Estou.
CLARA
Bem. Não se esqueça de ir buscar minha filha. É tempo de apresentá-la à sociedade. A pobre Clarinha deve estar bem desconhecida. Está moça e ainda no colégio. Tem sido um descuido nosso.
PEDRO ALVES
Irei buscá-la amanhã.
CLARA
Pois bem. (sai)
Cena II
PEDRO ALVES e um CRIADO
PEDRO ALVES
Safa! Que maçada!
O CRIADO
Está aí uma pessoa que lhe quer falar.
PEDRO ALVES
Faze-a entrar.
Cena III
PEDRO ALVES, LUÍS DE MELO
PEDRO ALVES
Que vejo!
LUÍS
Luís de Melo, lembra-se?
PEDRO ALVES
Muito. Venha um abraço! Então como está? quando chegou?
LUÍS
Pelo último paquete.
PEDRO ALVES
Ah! não li nos jornais...
LUÍS
O meu nome é tão vulgar que facilmente se confunde com os outros.
PEDRO ALVES
Confesso que só agora sei que está no Rio de janeiro. Sentemo-nos. Então andou muito pela Europa?
LUÍS
(continua...)
ASSIS, Machado de. Desencantos: fantasia dramática. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1861.