Por Machado de Assis (1876)
Talvez julgasse que entre a vida e a morte havia lugar para um bife de grelha, porque o foi comer em um hotel próximo. A ceia diminuiu-lhe o horror da situação; Gaspar dormiu tranqüilo a noite inteira.
No dia seguinte acordou tarde; e faltou à repartição, como usava fazer algumas vezes, e seu espírito, mais que nunca, era avesso ao expediente. Lembrou-se de ir dar um passeio a Niterói para distrair-se. Embarcou e recolheu-se todo em si, olhando para o mar e o céu. Pouca gente havia perto; ainda assim, e por mais absorto que ele estivesse, não pôde obstar que lhe chegasse aos ouvidos o seguinte pedaço de conversa entre dois sujeitos desconhecidos.
— É o que lhe digo, não caio nessa.
— Mas por quê?
— Porque não tenho certeza de ganhar um conto de réis e arrisco-me a perder dez ou doze.
— Não creio...
— É arriscadíssimo!
— Você é um medroso.
— Medroso, não; prudente. Prudente como quem lhe custou a arranjar um peculiozinho. — Peculiozinho? Maganão! confesse que você tem aí os seus cem contecos... — Por aí, por aí...
Gaspar suspirou e olhou para o passageiro que dizia possuir cem contos. Era um homem de cerca de quarenta anos, vestido com asseio, mas sem apuro nem elegância. A barca chegava a S. Domingos; o interlocutor do homem desembarcou, enquanto o outro ficou para ir a Niterói. Logo que a barca tomou este caminho, Gaspar aproximou-se do desconhecido:
— Não me dirá — disse ele — como é que V.S. arranjou cem contos de réis? O desconhecido olhou espantado para a pessoa que lhe fazia esta pergunta e ia responder-lhe descortesmente, quando Gaspar continuou nos termos seguintes: — Espanta-se naturalmente do que lhe digo, e tem razão; mas a explicação é simples. V.S. vê em mim um candidato a cem contos de réis; ou a mais...
— Mais é melhor, tomou o desconhecido sorrindo.
— Bastam-me cem.
— Pois o segredo é simples.
— Qual é?
— Ganhá-los.
— Oh! isso!
— É difícil, bem sei; leva anos.
— Quantos anos levou o senhor?
— É muito curioso!
— Oh! se eu lhe contar a minha situação, compreenderia a singularidade da minha conversa.
O desconhecido nenhuma necessidade sentiu de saber a vida de Gaspar, e dirigiu a conversa para as vantagens que podem dar os bens da fortuna. Foi o mesmo que lançar lenha no fogo. Gaspar sentiu arder em si, cada vez mais, a ambição de possuir. — Se eu lhe disser que posso ter trezentos contos de réis amanhã? Os olhos do desconhecido faiscaram.
— Amanhã?
— Amanhã.
— Como?
— De um modo simples; casando.
Gaspar não recuou em suas confidências; referiu tudo ao desconhecido que o ouvia com religiosa atenção.
— E que faz o senhor que não casa?
— Porque amo a outra pessoa; uma criatura angélica...
O desconhecido olhou para Gaspar com tanta compaixão que este sentiu-se
envergonhado — envergonhado, sem saber de quê.
— Bem sei, disse ele, que não há prudência nisto; mas o coração... O que eu queria era saber como se pudesse obter cem contos, para depois...
— Casar com a outra?
— Tal qual.
— Não sei. A barca está a chegar e nós vamos separar-nos. Deixe-me dar-lhe um conselho: case com sua tia.
— Uma velha!
— Trezentos contos.
— Amando a outra!
— Trezentos contos.
A barca chegou; o desconhecido despediu-se.
Gaspar ficou só, a refletir no infinito número de homens interesseiros que há no mundo. A barca voltou daí a pouco à cidade. Gaspar viu entrar entre os passageiros um homem ainda moço pelo braço de uma senhora idosa, que ele supôs ser sua mãe, mas que soube ser sua mulher quando o rapaz a apresentou a um amigo. Vestiam com luxo. O marido, tendo de tirar um cartão de visita da algibeira, mostrou uma carteira recheada de dinheiro.
Gaspar suspirou.
Chegando à cidade foi à casa da tia; D. Mônica achou-o ainda muito triste, e lhe disse. — Vejo que amas loucamente essa moça. Queres casar com ela?.
— Titia...
— Farei o mais que posso; tentarei vencer o pai.
Gaspar ficou estupefato.
— Oh! disse ele consigo; eu sou indigno desta generosidade.
VI
O almoço no dia seguinte foi mais triste que de costume. Gaspar abriu os jornais para passar os olhos por eles; a primeira coisa que leu foi a sua demissão. Vociferou contra a prepotência do ministro, a cruel severidade dos usos burocráticos, a exigência descomunal do comparecimento na Secretaria.
— É indigno! exclamava ele, é infame!
Veloso, que entrou daí a pouco, não achou tão censurável o ato do ministro; teve até a franqueza de lhe declarar que não havia outra solução, e que o primeiro que o demitira fora ele mesmo.
Passada a primeira explosão, examinou Gaspar a situação em que o deixava o ato ministerial, e compreendeu (o que não era difícil) que o casamento com Lucinda era cada vez mais problemático. Veloso foi da mesma opinião, e concluiu que um único meio lhe restava: era casar com D. Mônica.
Gaspar foi nesse mesmo dia à casa de Lucinda. O desejo de a ver era forte; muito mais forte era a curiosidade de conhecer de que maneira recebera ela a notícia da sua demissão. Achou-a um pouco triste, mas ainda mais fria que triste. Três vezes procurou estar a sós com ela, ou pelo menos falar-lhe sem que pudessem ouvi-los. A moça parecia esquivar-se aos desejos do rapaz.
(continua...)
ASSIS, Machado de. D. Mônica. Jornal das Famílias, 1876.