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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Prosopopéia

Por Bento Teixeira (1601)

Mas ‘te nisto lhe será avara a sorte,

Pois tudo cubrirá com sombra a morte.



LXXIX

Com lágrimas d’amor e de brandura,

De seu Senhor querido ali se despede,

E que a vida importante e mal segura

Assegurasse bem, muito lhe pede,

Torna à batalha sanguinosa e dura,

O esquadrão rompe dos de Mafamede,

Lastima, fere, corta, fende, mata,

Decepa, apouca, assola, desbarata.



LXXX

Com força não domada e alto brio,

Em sangue Mouro todo já banhado,

Do seu vendo correr um caudal Rio,

De giolhos se pôs, debilitado.

Ali dando a mortais golpes desvio,

De feridas medonhas trespassado,

Será cativo, e da proterva gente

Maniatado em fim mui cruelmente.



LXXXI

Mas adonde me leva o pensamento?

Bem parece que sou caduco e velho,

Pois sepulto no Mar do esquecimento

A Duarte sem par, dicto Coelho.

Aqui mister havia um novo alento

Do Poder Divinal e alto Conselho,

Porque não ai quem feitos tais presuma

A termo reduzir e breve suma.



LXXXII

Mas se o Céu transparente e alta Cúria

Me for tão favorável, como espero,

Com voz sonora, com crescida fúria,

Hei de cantar Duarte e Jorge fero.

Quero livrar do tempo e sua injúria

Estes claros irmãos, que tanto quero,

Mas, tornando outra vez a triste História,

Um caso direi digno de memória.



LXXXIII

Andava o novo Marte destruindo

Os esquadrões soberbos Mauritanos,

Quando sem tino algum viu ir fugindo

Os tímidos e lassos Lusitanos.

O que de Pura mágoa não sufrando

Lhe diz"; - Donde vos is, homens insanos?

Que digo: homens, estátuas sem sentido,

Pois não sentis o bem que haveis perdido?



LXXXIV

Olhai aquele esforço antigo e puro

Dos ínclitos e fortes Lusitanos,

Da Pátria e liberdade um firme muro

Verdugo de arrogantes Mauritanos;

Exemplo singular pera o futuro

Ditado, e resplendor de nossos anos,

Sujeito mui capaz, matéria digna

Da Mantuana e Homérica Buzina.



LXXXV

Ponde isto por espelho, por treslado,

Nesta tão temerária e nova empresa.

Nele vereis que tendes já manchado

De vossa descendência a fortaleza.

À batalha tornai com peito ousado,

Militar sem receio, nem fraqueza,

Olhai que o torpe medo é Crocodilo

Que costuma, a quem foge, persegui-lo.



LXXXVI

E se o dito a tornar vos não compele,

Vede donde deixais o Rei sublime?

Que conta haveis de dar ao Reino dele?

Que desculpa terá, tão grave crime?

Quem haverá que por traição não sele

Um mal que tanto mal no mundo imprime?

Tornai, tornai, invictos Portugueses,

Cerceai malhas e fendei arneses.



LXXXVII

"Assim dirá: mas eles sem respeito

À honra e ser de seus antepassados

Com pálido temor no frio peito,

Irão per várias partes derramados.

Duarte, vendo neles tal defeito,

Lhe dirá": — Corações efeminados,

Lá contareis aos vivos o que vistes,

Porque eu direi aos mortos que fugistes.



LXXXVIII

"Neste passo carrega a Maura força

Sobre o Barão insigne e velicoso;

Ele, onde vê mais força, ali se esforça,

Mostrando-se no fim mais animoso.

Mas o fado, que quer que a razão torça.

O caminho mais reto e proveitoso,

Fará que num momento abreviado

Seja cativo, preso e mal tratado.



LXXXIX

Eis ambos os irmãos em cativeiro.

De Peitos tão protervos e obstinados,

Por cópia inumerável de dinheiro

Serão (segundo vejo) resgatados.

Mas o resgate e preço verdadeiro,

Por quem os homens foram libertados,

Chamará neste tempo o grão Duarte,

Pera no claro Olimpo lhe dar parte.



XC

Ó Alma tão ditosa como pura,

Parte a gozar dos dotes dessa glória,

Donde terás a vida tão segura,

Quanto tem de mudança a transitória!

Goza lá dessa luz que sempre dura;

No mundo gozarás da larga história,

Ficando no lustroso e rico Templo

Da Ninfa Gigantesca por exemplo.



XCI

Mas, enquanto te dão a sepultura,

Contemplo a tua Olinda celebrada,

Coberta de fúnebre vestidura,

Inculta, sem feição, descabelada.

Quero-a deixar chorar morte tão dura

‘Té que seja de Jorge consolada,

Que por ti na Ulisséia fica em pranto,

Em quanto me disponho a novo Canto.



XCII

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