Prosopopéia BENTO TEIXEIRA (1601) Prosopopeia, de Bento Teixeira, é um poema épico que exalta a figura de Jorge de Albuquerque Coelho, representante da elite colonial portuguesa. A obra imita o modelo camoniano, usando linguagem solene e referências mitológicas para glorificar feitos e virtudes ligadas ao domínio luso no Brasil. É um marco inicial da literatura produzida no contexto colonial, revelando valores e ideais da época. PRÓLOGODirigido a Jorge d’Albuquerque Coelho, Capitão e Governador da Capitania de Pernambuco, das partes do Brasil da Nova Lusitânia, etc.Se é verdade o que diz Horácio que Poetas e Pintores estão no mesmo predicamento; e estes pera pintarem perfeitamente uma Imagem, primeiro na lisa Távola fazem rascunho, pera depois irem pintando os membros dela extensamente, até realçarem as tintas, e ela ficar na fineza de sua perfeição; assim eu, querendo debuxar com obstardo pincel de meu engenho a viva.Imagem da vida e feitos memoráveis de vossa mercê, quis primeiro fazer este rascunho, pera depois, sendo-me concedido por vossa mercê, ir mui particularmente pintando os membros desta Imagem, se não me faltar a tinta do favor de vossa mercê, a quem peço, humildemente, receba minhas Rimas, por serem as primícias com que tento servi-lo. E porque entendo que as aceitará com aquela benevolência e brandura natural, que costuma, respeitando mais a pureza do ânimo que a vileza do presente, não me fica mais que desejar, se não ver a vida de vossa mercê aumentada e estado prosperado, como todos os seus súbditos desejamos.Beija as mãos de vossa mercê: (Bento Teixeira) Seu vassalo.Dirigida a Jorge d’Albuquerque Coelho, Capitão e Governador de Pernambuco, Nova Lusitânia, etc. ICantem Poetas o Poder Romano,Submetendo Nações ao jugo duro;O Mantuano pinte o Rei Troiano,Descendo à confusão do Reino escuro;Que eu canto um Albuquerque soberano,Da Fé, da cara Pátria firme muro,Cujo valor e ser, que o Céu lhe inspira,Pode estancar a Lácia e Grega lira. IIAs Délficas irmãs chamar não quero,que tal invocação é vão estudo;Aquele chamo só, de quem esperoA vida que se espera em fim de tudo.Ele fará meu Verso tão sincero,Quanto fora sem ele tosco e rude,Que por razão negar não deve o menosQuem deu o mais a míseros terrenos. IIIE vós, sublime Jorge, em quem se esmaltaA Estirpe d'Albuquerques excelente,E cujo eco da fama corre e saltaDo Cauro Glacial à Zona ardente,Suspendei por agora a mente altaDos casos vários da Olindesa gente,E vereis vosso irmão e vós supremoNo valor abater Querino e Remo. IVVereis um senil ânimo arriscadoA trances e conflitos temerosos,E seu raro valor executadoEm corpos Luteranos vigorosos.Vereis seu Estandarte derribadoAos Católicos pés vitoriosos,Vereis em fim o garbo e alto brioDo famoso Albuquerque vosso Tio. VMas em quanto Talia no se atreve,No Mar do valor vosso, abrir entrada,Aspirai com favor a Barca leveDe minha Musa inculta e mal limada.Invocar vossa graça mais se deveQue toda a dos antigos celebrada,Porque ela me fará que participeDoutro licor melhor que o de Aganipe. VIO marchetado Carro do seu FeboCelebre o Sulmonês, com falsa pompa,E a ruína cantando do mancebo,Com importuna voz, os ares rompa.Que, posto que do seu licor não bebo,À fama espero dar tão viva trompa,Que a grandeza de vossos feitos cante,Com som que Ar, Fogo, Mar e Terra espante NARRAÇÃO VIIA Lâmpada do Sol tinha encoberto,Ao Mundo, sua luz serena e pura,E a irmã dos três nomes descobertoA sua tersa e circular figura.Lá do portal de Dite, sempre aberto,Tinha chegado, com a noite escura,Morfeu, que com subtis e lentos passosAtar vem dos mortais os membros lassos. VIIITudo estava quieto e sossegado,Só com as flores Zéfiro brincava,E da vária fineza namorado,De quando em quando o respirar firmavaAté que sua dor, d’amor tocado,Perante folha e folha declarava.As doces Aves nos pendentes ninhosCobriam com as asas seus filhinhos. IXAs luzentes Estrelas cintilavam,E no estanhado Mar resplandeciam,Que, dado que no Céu fixas estavam,Estar no licor salso pareciam.Este passo os sentidos comparavamÀqueles que d’amor puro viviam,Que, estando de seu centro e fim ausentes,Com alma e com vontade estão presentes. XQuando ao longo da praia, cuja áreaÉ de Marinhas aves estampada,E de encrespadas Conchas mil se arreia,Assim de cor azul, como rosada,Do mar cortando a prateada velha,Vinha Tristão em cola duplicada,Não lhe vi na cabeça casca posta(Como Camões descreve) de Lagosta XIMas ô a Concha lisa e bem lavradaDe rica Madrepérola trazia,e fino Coral crespo marchetada,Cujo lavor o natural vencia.Estava nela ao vivo debuxadaA cruel e espantosa bataria,Que deu a temerária e cega genteAos Deuses do Céu puro e reluzente. XIIUm Búzio desigual e retorcidoTrazia por Trombeta sonorosa,De Pérolas e Aljôfar guarnecido,Com obra mui subtil e curiosa.Depois do Mar azul ter dividido,Se sentou nô a pedra Cavernosa,E com as mãos limpando a cabeleiraDa tortuosa cola fez cadeira. XIIIToca a Trombeta com crescido alento,Engrossa as veias, move os elementos,E, rebramando os ares com o acento,Penetra o vão dos infinitos assentos.Os Pólos que sustem o firmamento,Abalados dos próprios fundamentos,Fazem tremer a terra e Céu jucundo,E Netuno gemer no Mar profundo. XIVO qual vindo da vã concavidade,Em Carro Triunfal, com seu tridente,Traz tão soberba pompa e majestade,Quanta convém a Rei tão excelente.Vem Oceano, pai de mor idade,Com barba branca, com cerviz tremente:Vem Glauco, vem Nereu, Deuses Marinhos,Correm ligeiros Focas e Golfinhos. XVVem o velho Proteu, que vaticina(Se fé damos à velha antiguidade)Os males a que a sorte nos destina,Nascidos da mortal temeridade.Vem numa e noutra forma peregrina,Mudando a natural propriedade.Não troque a forma, venha confiado,Se não quer de Aristeu ser sojigado. XVITétis, que em ser formosa se recreia,Traz das Ninfas o coro brando e doce :Clímene, Efire, Ópis, Panopea,Com Béroe, Talia, Cimodoce;Drimo, Xanto, Licórias, Deiopea,Aretusa, Cidipe, Filodoce, Com Eristea, Espio, Semideas,Após as quais, cantando, vem Sereas. DESCRIPÇÃO DO RECIFE DE PARANAMBUCO XVIIPera a parte do Sul, onde a pequenaUrsa se vê de guardas rodeada,Onde o Céu luminoso mais serenaTem sua influição, e temperada;Junto da Nova Lusitânia ordenaA natureza, mãe bem atentada,Um porto tão quieto e tão seguro,Que pera as curvas Naus serve de muro. XVIIIÉ este porto tal, por estar postaUma cinta de pedra, inculta e viva,Ao longo da soberba e larga costa,Onde quebra Netuno a fúria esquiva.Ante a praia e pedra descomposta,O estanhado elemento se derivaCom tanta mansidão, que ô a fateixaBasta ter à fatal Argos aneixa. XIXEm o meio desta obra alpestre e dura,ô a boca rompeu o Mar inchado,Que, na língua dos bárbaros escura,Pernambuco de todos ‚ chamado.de Para’na, que é Mar; Puca, rotura,Feita com fúria desse Mar salgado,Que, sem no derivar cometer míngua,Cova do Mar se chama em nossa língua. XXPera entrada da barra, à parte esquerda,Está uma laje grande e espaçosa,Que de Piratas fora total perda,Se ô a torre tivera sumptuosa.Mas quem por seus serviços bons não herdaDesgosta de fazer cousa lustrosa,Que a condição do Rei que não é francoO vassalo faz ser nas obras manco. XXISendo os Deuses à laje já chegados,Estando o vento em calma, o Mar quieto,Depois de estarem todos sossegados,Per mandado do Rei e per decreto,Proteu, no Céu cos olhos enlevados,Como que investigava alto secreto,Com voz bem entoada e bom meneio,Ao profundo silêncio larga o freio. XXII"Pelos ares retumbe o grave acentoDe minha rouca voz, confusa e lenta,Qual trovão espantoso e violentoDe repentina e hórrida tormenta;Ao Rio de Aqueronte turbulento,Que em sulfúreas borbulhas arrebenta,Passe com tal vigor, que imprima espantoEm Minos rigoroso e Radamanto. XXIIIDe lanças e d’escudos encantadosNão tratarei em numerosa Rima,Mais de Barões Ilustres afamados,Mais que quantos a Musa não sublima.Seus heróicos feitos extremadosAfinarão a dissonante prima,Que não é muito tão gentil sujeitoSuprir com seus quilates meu defeito. XXIVNão quero no meu Canto alga ajudaDas nove moradoras de Parnaso,Nem matéria tão alta quer que aludaNada ao essencial deste meu caso.Porque, dado que a forma se me muda,Em falar a verdade serei raso,Que assim convém fazê-lo quem escreve,Se à justiça quer dar o que se deve. XXVA fama dos antigos coa modernaFica perdendo o preço sublimado:A façanha cruel, que a turva LernaEspanta com estrondo d’arco armado:O cão de três gargantas, que na eternaConfusão infernal está fechado,Não louve o braço de Hércules Tebano.Pois procede Albuquerque soberano. XXVIVejo (diz o bom velho) que, na mente,O tempo de Saturno renovado,E a opulenta Olinda florescenteChegar ao cume do supremo estado.Ser de fera e belicosa genteO seu largo distrito povoado;Por nome ter Nova Lusitânia,Das Leis isenta da fatal insânia. XXVIIAs rédeas ter desta LusitâniaO grão Duarte, valoroso e claro,Coelho por cognome, que a insâniaReprimir dos seus, com saber raro.Outro Troiano Pio, que em DardâniaOs Penates livrou e o padre caro;Um Públio Cipião, na continência;Outro Nestor e Fábio, na prudência. XXVIIIO braço invicto vejo com que amansaA dura cerviz bárbara insolente,Instruindo na Fé, dando esperançaDo bem que sempre dura e ‚ presente;Eu vejo co rigor da tesa lançaAcossar o Francês, impacienteDe lhe ver alcançar uma vitóriaTão capaz e tão digna de memória. XXIXTer o varão Ilustre da consorte,Dona Beatriz, preclara e excelente, Dous filhos, de valor e d’alta sorte.Cada qual a seu Tronco respondente.Estes se isentarão da cruel sorte,Eclipsando o nome … Romana gente,De modo que esquecida a fama velhaFaçam arcar ao mundo a sobrancelha. XXXO Princípio de sua PrimaveraGastarão seu distrito dilatando,Os bárbaros cruéis e gente Austera,Com meio singular, domesticando.E primeiro que a espada lisa e feraArranquem, com mil meios d’amor brando,Pretenderão tirá-la de seu erro,E senão porão tudo a fogo e ferro. XXXIOs braços vigorosos e constantesFenderão peitos, abrirão costados,Deixando de mil membros palpitantesCaminhos, arraiais, campos juncados;Cercas soberbas, fortes repugnantesSerão dos novos Martes arrasados,Sem ficar deles todos mais memóriaQue a qu’eu fazendo vou em esta História. XXXIIQuais dous soberbos Rios espumosos,Que, de montes altíssimos manando,Em Tétis de meter-se desejosos,Vem com fúria crescida murmurando,E nas partes que passam furiososVem árvores e troncos arrancando,Tal Jorge d’Albuquerque e o grão DuarteFarão destruição em toda a parte. XXXIIIAquele branco Cisne venerando,Que nova fama quer o Céu que merque,E me está com seus feitos provocando,Que dele cante e sobre ele alterque;Aquele que na Ida estou pintando,Hierónimo sublime d’AlbuquerqueSe diz, cuja invenção, cujo artifícioAos bárbaros dar total exício. XXXIVDeste, como de Tronco florescente,Nascerão muitos ramos, que esperançaPrometerão a todos geralmenteDe nos berços do Sol pregar a lança.Mas, quando virem que do Rei potenteO pai por seus serviços não alcançaO galardão devido e glória digna,Ficarão nos alpendres da Piscina. XXXVÓ sorte tão cruel, como mudável,Por que usurpas aos bons o seu direito?Escolhes sempre o mais abominável,Reprovas e abominas o perfeito,O menos digno fazes agradável,O agradável mais, menos aceito.Ó frágil, inconstante, quebradiça,Roubadora dos bens e da justiça! XXXVINão tens poder algum, se houver prudência;Não tens Império algum, nem Majestade;Mas a mortal cegueira e a demênciaCo título te honrou de Deidade.O sábio tem domínio na influênciaCeleste e na potência da vontade,E se o fim não alcança desejado,É por não ser o meio acomodado. XXXVIIEste meio faltará ao velho invicto,Mas não cometerá nenhum defeito,Que o seu calificado e alto espíritoLhe fará a quanto deve ter respeito.Aqui Balisário, e Pacheco aflito,Cerra com ele o número perfeito.Sobre os três, ô a dúvida se excita:Qual foi mais, se o esforço, se a desdita? XXXVIIIFoi o filho de Anquises, foi Acates,À região do Caos litigioso,Com ramo d’ouro fino e de quilates,Chegando ao campo Elíseu deleitoso.Quão mal, por falta deste, a muitos trates(Ó sorte!) neste tempo trabalhoso,Bem claro no-lo mostra a experiênciaEm poder mais que a justiça a aderência. XXXIXMas deixando (dizia) ao tempo avaroCousas que Deus eterno e ele cura,E tornando ao Presságio novo e raro,Que na parte mental se me figura,De Jorge d’Albuquerque, forte e claro,A despeito direi da inveja pura,Pera o qual monta pouco a culta Musa,Que Meónio em louvar Aquiles usa. XLBem sei que, se seus feitos não sublimo,É roubo que 1he faço mui notável;Se o faço como devo, sei que imprimoEscândalo no vulgo variável.Mas o dente de Zoilo, nem Mínimo,Estimo muito pouco, que agradávelÉ impossível ser nenhum que cantaProezas de valor e glória tanta. XLIUô a cousa me faz dificuldadeE o espírito profético me cansa,A qual é ter no vulgo autoridadeSó aquilo a que sua força alcança.Mas, se é um caso raro, ou novidadeDas que, de tempo em tempo, o tempo lança,Tal crédito lhe dão, que me lastimaVer a verdade o pouco que se estima." XLIIE prosseguindo (diz: "que Sol luzenteVem d’ouro as brancas nuvens perfilando,Que está com braço indômito e valenteA fama dos antigos eclipsando;Em quem o esforço todo juntamenteSe está como em seu centro trasladando?É Jorge d'Albuquerque mais invictoQue o que desceu ao Reino de Cocito. XLIIIDepois de ter o Bárbaro difusoE roto, as portas fechar de Jano,Por vir ao Reino do valente LusoE tentar a fortuna do Oceano."Um pouco aqui Proteu, como confuso,Estava receando o grave dano,Que havia de acrescer ao claro HeróiNo Reino aonde vive Cimotoe. XLIV"Sei mui certo do fado (prosseguia)Que trará o Lusitano por designoEscurecer o esforço e valentiaDo braço Assírio, Grego e do Latino.Mas este pressuposto e fantasiaLhe tirará de inveja o seu destino,Que conjurando com os ElementosAbalará do Mar os fundamentos. XLVPorque Lémnio cruel, de quem descendeA Bárbara progênie e insolência,Vendo que o Albuquerque tanto ofendeGente que dele tem a descendência,Com mil meus ilícitos pretendeFazer irreparável resistênciaAo claro Jorge, baroil e forte,Em quem não dominava a vária sorte. XLVINa parte mais secreta da memória,Terá mui escrita. impressa e estampadaAquela triste e maranhada História,Com Marte, sobre Vênus celebrada.Verá que seu primor e clara glóriaHá de ficar em Lete sepultada,Se o braço Português vitória alcançaDa nação que tem nele confiança. XLVIIE com rosto cruel e furibundo,Dos encovados olhos cintilando,Férvido, impaciente, pelo mundoAndará estas palavras derramando":— Pôde Nictélio só no Mar profundoSorver as Naus Meónias navegando,Não sendo mor Senhor, nem mais possanteNem filho mais mimoso do Tonante? XLVIIIE pôde Juno andar tantos enganos,Sem razão, contra Tróia maquinando,E fazer que o Rei justo dos TroianosAndasse tanto tempo o Mar sulcando?E que vindo no cabo de dez anos,De Cila e de Caríbdis escapando,Chegasse à desejada e nova terra,E co Latino Rei tivesse guerra? XLIXE pôde Palas subverter no PontoO filho de Oileu per causa leve?Tentar outros casos que não contoPor me não dar lugar o tempo breve?E que eu por mil razões, que não aponto,A quem do fado a lei render se deve,Do que tenho tentado já desista,E a gente Lusitana me resista? LEu por ventura sou Deus indigente,Nascido da progênie dos humanos,Ou não entro no número dos sete,Celestes, imortais e soberanos?A quarta Esfera a mim não se comete?Não tenho em meu poder os Centimanos?Jove não tem o Céu? O Mar, Tridente?Plutão, o Reino da danada gente? LIEm preço, ser, valor, ou em nobreza,Qual dos supremos é mais qu’eu altivo?Se Netuno do Mar tem a braveza,Eu tenho a região do fogo ativo.Se Dite aflige as almas com crueza,E vós, Ciclopes três, com fogo vivo,Se os raios vibra Jove, irado e fero,Eu na forja do monte lhos tempero. LIIE com ser de tão alta Majestade,Não me sabem guardar nenhum respeito?E um povo tão pequeno em quantidadeTantas batalhas vence a meu despeito?E que seja agressor de tal maldadeO adúltero lascivo do meu leito?Não sabe que meu ser ao seu precede,E que prendê-lo posso noutra rede? LIIIMas seu intento não porá no fito,Por mais que contra mim o Céu conjure,Que tudo tem em fim termo finito,E o tempo não há cousa que não cure.Moverei de Netuno o grão distritoPera que meu partido mais segure,E quero ver no fim desta jornadaSe vai a Marte escudo, lança, espada. LIV"Estas palavras tais, do cruel peito,Soltará dos Ciclopes o tirano,As quais procurará pôr em efeito,Às cavernas descendo do Oceano.E com mostras d’amor brando e aceito,De ti, Netuno claro e soberano,Alcançará seu fim: o novo jogo,Entrar no Reino d’Água o Rei do fogo. LVLogo da Pátria Eólia virão ventos,Todos como esquadrão mui bem formado,Euro, Noto os Marítimos assentosTerão com seu furor demasiado.Fará natura vários movimentos,O seu Caos repetindo já passado,De sorte que os varões fortes e válidosDe medo mostrarão os rostos pálidos. LVISe Jorge d’Albuquerque soberano,Com peito juvenil, nunca domado,Vencerá da Fortuna e Mar insanoA braveza e rigor inopinado,Mil vezes o Argonauta desumano,Da sede e cruel fome estimulado,Urdirá aos consortes morte dura,Pera dar-lhes no ventre sepultura. LVIIE vendo o Capitão calificadoEmpresa tão cruel e tão única,Per meio mui secreto, acomodado,Dela como convém se certifica.E, dô a graça natural ornado,Os peitos alterados edifica,Vencendo, com Tuliana eloqüência,Do modo que direi, tanta demência." LVIII— Companheiros leais, a quem no CoroDas Musas tem a fama entronizado,Não deveis ignorar, que não ignoro,Os trabalhos que haveis no Mar passado.Respondestes ‘te ‘gora com o foro,Devido a nosso Luso celebrado,Mostrando-vos mais firmes contra a sorteDo que ela contra nós se mostra forte. LIXVós de Cila e Caríbdis escapando,De mil baixos e sirtes arenosas,Vindes num lenho côncavo cortandoAs inquietas ondas espumosas.Da fome e da sede o rigor passando,E outras faltas em fim dificultosas,Convém-vos adquirir ô a força nova,Que o fim as cousas examina e prova. LXOlhai o grande gozo e doce glóriaQue tereis quando, postos em descanso,Contardes esta larga e triste história,Junto do pátrio lar, seguro e manso.Que vai da batalha a ter vitória,O que do Mar inchado a um remanso,Isso então haverá de vosso estadoAos males que tiverdes já passado. LXIPer perigos cruéis, per casos vários,Hemos d’entrar no porto Lusitano,E suposto que temos mil contráriosQue se parcializam com Vulcano,De nossa parte os meios ordináriosNão faltem, que não falta o Soberano,Poupai-vos pera a próspera fortuna,E, adversa, não temais por importuna. LXIIOs heróicos feitos dos antigosTende vivos e impressos na memória:Ali vereis esforço nos perigos,Ali ordem na paz, digna de glória.Ali, com dura morte de inimigos,Feita imortal a vida transitória,Ali, no mor quilate de fineza,Vereis aposentada a Fortaleza. LXIIIAgora escurecer quereis o raioDestes Barões tão claros e eminentes,Tentando dar princípio e dar ensaioA cousas temerárias e indecentes.Imprimem neste Peito tal desmaioTão graves e terríveis acidentesQue a dor crescida as forças me quebranta,E se pega a voz débil à garganta. LXIVDe que servem proezas e façanhas,E tentar o rigor da sorte dura?Que aproveita correr terras estranhas,Pois faz um torpe fim a fama escura?Que mais torpe que ver umas entranhasHumanas dar a humanos sepultura,Cousa que a natureza e lei impede,E escassamente às Feras só concede. LXVMas primeiro crerei que houve GigantesDe cem mãos, e da Mãe Terra gerados,E Quimeras ardentes e flamantes,Com outros feros monstros encantados;Primeiro que de peitos tão constantesVeja sair efeitos reprovados,Que não podem (falando simplesmente)Nascer trevas da luz resplandecente. LXVIE se determinais a cega fúriaExecutar de tão feroz intento,A mim fazei o mal, a mim a injúria,Fiquem livres os mais de tal tormento.Mas o Senhor que assiste na alta CúriaUm mal atalhará tão violento,Dando-nos brando Mar, vento galerno,Com que vamos no Minho entrar paterno. LXVII"Tais palavras do peito seu magnânimoLançará o Albuquerque famosíssimo,Do soldado remisso e pusilânime,Fazendo com tal prática fortíssimo.E assim todos concordes, e num ânimo,Vencerão o furor do Mar bravíssimo,Até que já a Fortuna, d’enfadada,Chegar os deixe a Pátria desejada. LXVIIIÀ Cidade de Ulisses destroçadosChegarão da Fortuna e Reino salso,Os Templos visitando Consagrados,Em procissão, e cada qual descalço.Desta maneira ficarão frustradosOs pensamentos vãos de Lémnio falso,Que o mau tirar não pode o benefícioQue ao bom tem prometido o Céu propício. LXIXNeste tempo Sebasto Lusitano,Rei que domina as águas do grão Douro,Ao Reino passará do Mauritano,E a lança tingirá em sangue Mouro;O famoso Albuquerque, mais ufanoQue Iason na conquista do véu d’ouro,E seu Irmão, Duarte valoroso, Irão co Rei altivo, Imperioso. LXXNô a Nau, mais que Pístris, e Centauro,E que Argos venturosa celebrada,Partirão a ganhar o verde LauroÀ região da seta reprovada.E depois de chegar ao Reino Mauro,Os dous irmãos, com lança e com espada,Farão nos Agarenos mais estragoDo que em Romanos fez o de Cartago. LXXIMas, ah! ínvida sorte, quão incertosSão teus bens e quão certas as mudanças;Quão brevemente cortas os enxertosA ô as mal nascidas esperanças.Nos mais riscosos trances, nos apertos,Ante mortais pelouros, ante lanças,Prometes triunfal palma e vitória,Pera tirar no fim a fama, a glória. LXXIIAssim sucederá nesta batalhaAo mal afortunado Rei ufano,A quem não valerá provada malha,Nem escudo d’obreiros de Vulcano.Porque no tempo que ele mais trabalhaVitória conseguir do MauritanoNum momento se vê cego e confuso,E com seu esquadrão roto e difuso". LXXIIIAnteparou aqui Proteu, mudandoAs cores e figura monstruosa,No gesto e movimento seu mostrandoSer o que há de dizer cousa espantosa.E com nova eficácia começandoA soltar a voz alta e vigorosa,Estas palavras tais tira do peito,Que é cofre de profético conceito: LXXIV"Ante armas desiguais, ante tamboresDe som confuso, rouco e redobrado,Ante cavalos bravos corredores,Ante a fúria do pó, que é salitrado;Ante sanha, furor, ante clamores,Ante tumulto cego e desmandado,Ante nuvens de setas Mauritanas,Andará o Rei das gentes Lusitanas. LXXVNo animal de Netuno, já cansadoDo prolixo combate, e mal ferido,Será visto por Jorge sublimado, Andando quase fora de sentido.O que vendo o grande Albuquerque ousado,De tão trágico passo condoído,Ao peito fogo dando, aos olhos água,Tais palavras dirá, tintas em magoa": LXXVI— Tão infeliz Rei, como esforçado,Com lágrimas de tantos tão pedido,Com lágrimas de tantos alcançado,Com lágrimas do Reino, em fim perdido.Vejo-vos co cavalo já cansado,A vós, nunca cansado, mas ferido,Salvai em este meu a vossa vida,Que a minha pouco vai em ser perdida. LXXVIIEm vós do Luso Reino a confiançaEstriba, como em base só, fortíssimo;Com vós ficardes vivo, segurançaLhe resta de ser sempre florentíssimo.Ante duros farpões e Maura lança,Deixai este vassalo fidelíssimo,Que ele fará por vós mais que ZopiroPor Dario, até dar final suspiro. LXXVIII"Assim dirá o Herói, e com destrezaDeixará o genete velocíssimo,E a seu Rei o dará: Ó PortuguesaLealdade do tempo florentíssimo!O Rei Promete, se de tal empresaSai vivo, o fará senhor grandíssimo,Mas ‘te nisto lhe será avara a sorte,Pois tudo cubrirá com sombra a morte. LXXIXCom lágrimas d’amor e de brandura,De seu Senhor querido ali se despede,E que a vida importante e mal seguraAssegurasse bem, muito lhe pede,Torna à batalha sanguinosa e dura,O esquadrão rompe dos de Mafamede,Lastima, fere, corta, fende, mata,Decepa, apouca, assola, desbarata. LXXXCom força não domada e alto brio,Em sangue Mouro todo já banhado,Do seu vendo correr um caudal Rio,De giolhos se pôs, debilitado.Ali dando a mortais golpes desvio,De feridas medonhas trespassado,Será cativo, e da proterva genteManiatado em fim mui cruelmente. LXXXIMas adonde me leva o pensamento?Bem parece que sou caduco e velho,Pois sepulto no Mar do esquecimentoA Duarte sem par, dicto Coelho.Aqui mister havia um novo alentoDo Poder Divinal e alto Conselho,Porque não ai quem feitos tais presumaA termo reduzir e breve suma. LXXXIIMas se o Céu transparente e alta CúriaMe for tão favorável, como espero,Com voz sonora, com crescida fúria,Hei de cantar Duarte e Jorge fero.Quero livrar do tempo e sua injúriaEstes claros irmãos, que tanto quero,Mas, tornando outra vez a triste História,Um caso direi digno de memória. LXXXIIIAndava o novo Marte destruindoOs esquadrões soberbos Mauritanos,Quando sem tino algum viu ir fugindoOs tímidos e lassos Lusitanos.O que de Pura mágoa não sufrandoLhe diz"; - Donde vos is, homens insanos?Que digo: homens, estátuas sem sentido,Pois não sentis o bem que haveis perdido? LXXXIVOlhai aquele esforço antigo e puroDos ínclitos e fortes Lusitanos,Da Pátria e liberdade um firme muroVerdugo de arrogantes Mauritanos;Exemplo singular pera o futuroDitado, e resplendor de nossos anos,Sujeito mui capaz, matéria dignaDa Mantuana e Homérica Buzina. LXXXVPonde isto por espelho, por treslado,Nesta tão temerária e nova empresa.Nele vereis que tendes já manchadoDe vossa descendência a fortaleza.À batalha tornai com peito ousado,Militar sem receio, nem fraqueza,Olhai que o torpe medo é CrocodiloQue costuma, a quem foge, persegui-lo. LXXXVIE se o dito a tornar vos não compele,Vede donde deixais o Rei sublime?Que conta haveis de dar ao Reino dele?Que desculpa terá, tão grave crime?Quem haverá que por traição não seleUm mal que tanto mal no mundo imprime?Tornai, tornai, invictos Portugueses,Cerceai malhas e fendei arneses. LXXXVII"Assim dirá: mas eles sem respeitoÀ honra e ser de seus antepassadosCom pálido temor no frio peito,Irão per várias partes derramados.Duarte, vendo neles tal defeito,Lhe dirá": — Corações efeminados,Lá contareis aos vivos o que vistes,Porque eu direi aos mortos que fugistes. LXXXVIII"Neste passo carrega a Maura forçaSobre o Barão insigne e velicoso;Ele, onde vê mais força, ali se esforça,Mostrando-se no fim mais animoso.Mas o fado, que quer que a razão torça.O caminho mais reto e proveitoso,Fará que num momento abreviadoSeja cativo, preso e mal tratado. LXXXIXEis ambos os irmãos em cativeiro.De Peitos tão protervos e obstinados,Por cópia inumerável de dinheiroSerão (segundo vejo) resgatados.Mas o resgate e preço verdadeiro,Por quem os homens foram libertados,Chamará neste tempo o grão Duarte,Pera no claro Olimpo lhe dar parte. XCÓ Alma tão ditosa como pura,Parte a gozar dos dotes dessa glória,Donde terás a vida tão segura,Quanto tem de mudança a transitória!Goza lá dessa luz que sempre dura;No mundo gozarás da larga história,Ficando no lustroso e rico TemploDa Ninfa Gigantesca por exemplo. XCIMas, enquanto te dão a sepultura,Contemplo a tua Olinda celebrada,Coberta de fúnebre vestidura,Inculta, sem feição, descabelada.Quero-a deixar chorar morte tão dura‘Té que seja de Jorge consolada,Que por ti na Ulisséia fica em pranto,Em quanto me disponho a novo Canto. XCIINão mais, espírito meu, que estou cansado,Deste difuso, largo e triste Canto,Que o mais será de mim depois cantadoPer tal modo, que cause ao mundo espanto.Já no balcão do Céu o seu toucadoSolta Vênus, mostrando o rosto Santo;Eu tenho respondido co mandadoQue mandaste Netuno sublimado". XCIIIAssim diz; e com alta MajestadeO Rei do Salso Reino, ali falando,Diz: — Em satisfação da tempestadeQue mandei a Albuquerque venerando,Pretendo que a mortal PosteridadeCom Hinos o ande sempre sublimando,Quando vir que por ti o foi primeiro,Com fatídico espírito verdadeiro. EPÍLOGO XCIVAqui deu [fim] a tudo, e brevementeEntra no Carro [de] Cristal lustroso;Após dele a demais Cerúlea genteCortando a veia vai do Reino acosso.Eu que a tal espetáculo presenteEstive, quis em Verso numerosoEscrevê-lo por ver que assim convinhaPera mais Perfeição da Musa minha. FIM