Por Machado de Assis (1886)
Armou-se (para usar da expressão familiar), armou-se uma mesa de jogo em que Valentim tomou parte. Ernesto ao princípio não quis, estava amuado... Por quê? Parecia lhe ver em Clarinha uma frieza a que não estava acostumado. Finalmente aceitou; mas procurou tomar lugar em frente da mulher de Valentim; ela, porém, ou fosse por indiferença ou fosse adrede, retirou-se para a janela com algumas amigas. Abriu-se o jogo.
Em pouco tempo estavam os jogadores tão animados que as próprias senhoras foram-se aproximando do campo da batalha.
Os mais empenhados eram Valentim e Ernesto.
Tudo estava observando um curioso, mas tranqüilo interesse, quando de repente Valentim pára o jogo e diz para Ernesto:
— Não jogo mais!
— Por quê? perguntou Ernesto.
Um primo de Valentim, de nome Lúcio, olhou igualmente para Ernesto e disse: — Tens razão.
— Por quê? insistiu Ernesto.
Valentim levantou-se, atirou as cartas para o lugar de Ernesto, e disse com um tom de desprezo:
— Por nada!
Lúcio e mais um dos presentes disseram:
— É caso de duelo.
Houve profundo silêncio. Lúcio olhou para Ernesto e perguntou-lhe:
— Que faz o senhor?
— Que faço?
— É caso de duelo.
— Ora, isso não está nos nossos hábitos... o que eu posso fazer é abandonar aquele senhor ao meu desprezo...
— O quê? perguntou Valentim.
— Abandoná-lo ao desprezo, porque o senhor é um...
— Um... quê?
— O que quiser!
— Há de dar-me uma satisfação!
— Eu?
— Decerto, disse Lúcio.
— Mas, os nossos hábitos...
— Em toda a parte vinga-se a honra!
— Sou o ofendido, tenho a escolha das armas.
— A pistola, disse Lúcio.
— Ambas carregadas, acrescentou Valentim.
Durante este tempo as senhoras estavam trêmulas e embasbacadas. Não sabiam o que se presenciava. Enfim, Clarinha pôde falar, e as suas primeiras palavras foram para o marido.
Mas este parecia não atender a nada. Em poucos minutos redobrou a confusão. Ernesto insistia contra o emprego do meio lembrado para resolver a questão, alegando que ele não estava nos nossos hábitos. Mas Valentim não queria, nem admitia outra coisa. Depois de larga discussão admitiu Ernesto o sanguinolento desenlace. — Pois sim, venha a pistola.
— E já, disse Valentim.
— Já? perguntou Ernesto.
— No jardim.
Ernesto empalideceu.
Quanto a Clarinha, sentiu faltar-lhe a luz e caiu desfalecida no sofá.
Aqui nova confusão.
Imediatamente prestaram-se-lhe os primeiros socorros. Tanto bastou. No fim de quinze minutos ela voltava à vida.
Estava então no quarto, onde só haviam o marido e um dos convivas que era médico. A presença do marido lembrou-lhe o que se passara. Deu um leve grito, mas Valentim tranqüilizou-a imediatamente, dizendo:
— Nada houve...
— Mas...
— Nem haverá.
— Ah!
— Foi brincadeira, Clarinha, foi tudo um plano. O duelo há de haver, mas só para experimentar o Ernesto. Pois cuidas que eu faria semelhante coisa? — Falas sério?
— Falo, sim.
O médico confirmou.
Valentim contou que as duas testemunhas já se entendiam com as duas do outro, tiradas todas dentre os que jogavam e que entravam no plano. O duelo teria lugar pouco depois. — Ah! não acredito!
— Juro... juro por esta bela cabeça...
E Valentim inclinando-se para a cama beijou a testa da mulher.
— Oh! se tu morresses! disse esta.
Valentim olhou para ela: duas lágrimas rolaram-lhe pelas faces. Que mais queria o marido?
Interveio o médico.
— Há um meio para crê-lo. Venham duas pistolas.
Clarinha levantou-se e foi para outra sala, que dava para o jardim e onde se achavam as outras senhoras.
Aí foram ter as pistolas. Carregaram-nas à vista de Clarinha e dispararam depois, a fim de assegurar à pobre senhora que o duelo era pura brincadeira.
Valentim desceu para o jardim. As quatro testemunhas levaram as pistolas. As senhoras, prevenidas do que havia, ficaram na sala, onde olhavam para o jardim, que foi iluminado de propósito.
Marcaram-se os passos e entregou-se a cada um dos combatentes uma pistola. Ernesto, que até então parecia alheio à vida, mal viu diante de si uma arma, apesar de ter outra, mas tendo-lhe as testemunhas dito que ambas se achavam armadas, começou a tremer.
Valentim apontou sobre ele. Ernesto fazia esforços, mas não conseguia levantar o braço. Estava ansiado. Fez sinal para que Valentim se detivesse, e tirou um lenço para enxugar o suor.
Tudo contribuía para assustá-lo, e de mais a mais as seguintes palavras que se ouviam em roda:
— O que ficar morto há de ser enterrado aqui mesmo no jardim.
— Está claro. Já se foi fazer a cova.
— Ah! que seja profunda!
(continua...)
ASSIS, Machado de. Astúcias de marido. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1886.