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#Peças de teatro#Literatura Brasileira

As Forças Caudinas

Por Machado de Assis (1877)

Cena IV

TITO

(só)

Este coronel não tem nada de original... Aquela opinião a respeito das mulheres não é dele... Melhor, vai-se confirmando... Nem me são precisas novas confirmações... Já sei tudo... Ah! minha conquistadora!... Aí vêm as duas...

Cena V

TITO, MARGARIDA, EMÍLIA

EMÍLIA

Bons olhos o vejam...

TITO

Bons e bonitos...

MARGARIDA

Vamos à nossa visita.

TITO

Ah!...

EMÍLIA

A demora é pouca... Pode esperar-nos...

TITO

Obrigado... Esperarei... Tenho a janela para olhá-las até perdê-las de vista... Depois tenho estes álbuns, estes livros...

EMÍLIA

(ao espelho)

Tem o espelho para se mirar...

TITO

Oh! isso é completamente inútil para mim!

Cena VI

Os mesmos, SEABRA

SEABRA

(a Tito)

Oh! Finalmente acordaste!

TITO

É verdade... Não me lembro de ter passado nunca tão belas noites como estas de Petrópolis. Já nem tenho pesadelos... Pois olha, eu era vítima... Agora não, durmo como um justo...

SEABRA

(às duas)

Estão de volta?

MARGARIDA

Ainda agora vamos!

SEABRA

Então tenho ainda de esperar?...

EMÍLIA

Um simples quarto de hora...

SEABRA

Só?

TITO

Um quarto de hora feminino... meia eternidade...

EMÍLIA

Vamos desmenti-lo...

TITO

Ah! Tanto melhor...

MARGARIDA

Até já... (saem as duas)

Cena VII

TITO, SEABRA

SEABRA

Ora, esperemos ainda...

TITO

Onde foste?

SEABRA

Fui passear... Compreendi que é preciso ver e admirar o que é indiferente, para apreciar e ver melhor aquilo que for a felicidade íntima do coração.

TITO

Ali! Sim? Bem vês que até a felicidade por igual fatiga! Afinal sempre a razão está do meu lado...

SEABRA

Talvez... Apesar de tudo quer-me parecer que já intentas entrar na família dos casados.

TITO

Eu?

SEABRA

Tu, sim.

TITO

Por quê?

SEABRA

Mas, dize; é ou não verdade?

TITO

Qual, verdade!

SEABRA

O que sei é que uma destas tardes, em que adormeceste lendo, não sei que livro, ouvi-te pronunciar em sonhos, com a maior ternura, o nome de Emília.

TITO

Deveras?

SEABRA

É exato. Concluí que se sonhavas com ela é que a tinhas no pensamento, e se a tinhas no pensamento é que a amavas.

TITO

Concluíste mal.

SEABRA

Mal?

TITO

Concluíste como um marido de cinco meses. Que prova um sonho?

SEABRA

Prova muito!

TITO

Não prova nada! Pareces velha supersticiosa...

SEABRA

Mas enfim alguma coisa há, por força... Serás capaz de me dizeres o que é?

TITO

Homem, podia dizer-te alguma coisa se não fosses casado...

SEABRA

Que tem que eu seja casado?

TITO

Tem tudo. Serias indiscreto sem querer e até sem saber. À noite, entre um beijo e um bocejo, o marido e a mulher abrem, um para o outro, a bolsa das confidências. Sem pensares, deitavas tudo a perder.

SEABRA

Não digas isso. Vamos lá. Há novidade?

TITO

Não há nada.

SEABRA

Confirmas as minhas suspeitas. Gostas de Emília.

TITO

Ódio não lhe tenho, é verdade.

SEABRA

Gostas. E ela merece. É uma boa senhora, de não vulgar beleza, possuindo as melhores qualidades. Talvez preferisses que não fosse viúva?...

TITO

Sim; é natural que se embeveça dez vezes por dia na lembrança dos dois maridos que já exportou para o outro mundo... à espera de exportar o terceiro.

SEABRA

Não é dessas...

TITO

Afianças?

SEABRA

Quase que posso afiançar.

TITO

Ah! meu amigo, toma o conselho de um tolo: nunca afiances nada, principalmente em tais assuntos. Entre a prudência discreta e a cuja confiança não é lícito duvidar, a escolha está decidida nos próprios termos da primeira. O que podes tu afiançar a respeito da Emília? Não a conheces melhor do que eu. Há quinze dias que nos conhecemos e eu já lhe leio no interior; estou longe de atribuir-lhe maus sentimentos; mas, tenho a certeza de que não possui as raríssimas qualidades que são necessárias à exceção. Que sabes tu?

SEABRA

Realmente, eu não sei nada.

TITO

(à parte)

Não sabe nada!

SEABRA

Falo pelas minhas impressões. Parecia-me que um casamento entre vocês ambos não vinha fora de propósito.

TITO

(pondo o chapéu)

Se me falas outra vez em casamento, saio.

SEABRA

Pois só a palavra?...

TITO

A palavra, a idéia, tudo.

SEABRA

Entretanto admiras e aplaude o meu casamento...

TITO

Ah! eu aplaudo nos outros muita coisa de que não sou capaz de usar... Depende da vocação...

Cena VIII

Os mesmos, MARGARIDA, EMÍLIA

EMÍLIA

O que é que depende de vocação?

TITO

Usar chapéu do Chile. Eu diria que este gênero de chapéus fica muito bem em Ernesto, mas que eu não sou capaz de usá-lo; porque... porque depende da vocação. Não pensa comigo que contra a vocação não há nada capaz?

EMÍLIA

Plenamente.

TITO

(a Seabra)

Toma lá!...

SEABRA

(à parte a Tito)

Velhaco!... (alto a Margarida) Margarida, vamos embora?

MARGARIDA

Já para casa?

SEABRA

Vamos primeiro ao tio e depois para casa.

EMÍLIA

Sem passarem por aqui na volta?

MARGARIDA

Ele é quem manda.

SEABRA

Se não for muito o cansaço...

EMÍLIA

Ora, o dia está fresco e sombrio; é perto, e o caminho é excelente. Se não me baterem à porta ficamos mal para sempre.

SEABRA

Ah! isto não... (a Tito) Também vens?

TITO

(de chapéu na mão)

Também.

EMÍLIA

E assim me deixa só?

TITO

Tem muito empenho em que eu fique?

EMÍLIA

Agrada-me a sua conversa.

TITO

Fico. Até logo.

Cena IX

TITO, EMÍLIA

TITO

V. Exa. disse agora uma falsidade.

EMÍLIA

Qual foi?

TITO

Disse que lhe era agradável a minha conversa. Ora, isso é falso como tudo quanto é falso...

EMÍLIA

(continua...)

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