Por Machado de Assis (1887)
— Como é que não me lembrei há mais tempo de casar com esta mulher? pensou ele. Não fez a pergunta em voz alta; mas D. Joana pressentiu num olhar de João Barbosa que aquela idéia alvorecia em seu generoso espírito.
João Barbosa voltou a concentrar-se em casa. D. Lucinda, após os primeiros dias, derramou o coração em longas cartas que eram pontualmente entregues em casa de João Barbosa, e que este lia em presença de D. Joana, posto fosse em voz baixa. João Barbosa, logo à segunda, quis ir reatar o vínculo roto; mas o outro vínculo que o prendia à caseira era já forte e a idéia foi posta de lado. D. Joana achou enfim meio de subtrair as cartas.
Um dia, João Barbosa chamou D. Joana a uma conferência particular.
— D. Joana, chamei-a para lhe dizer uma coisa grave.
— Diga.
— Quero fazer a sua felicidade.
— Já não a faz há tanto tempo?
— Quero fazê-la de modo mais positivo e duradouro.
— Como?
— A sociedade não crê, talvez, na pureza de nossa afeição; confirmemos a suspeita da sociedade.
— Senhor! exclamou D. Joana com um gesto de indignação tão nobre quão simulado. — Não me entendeu, D. Joana, ofereço-lhe a minha mão...
Um acesso de asma, porque ele também padecia de asma, veio interromper a conversa no ponto mais interessante. João Barbosa gastou alguns minutos sem falar nem ouvir. Quando o acesso passou, sua felicidade, ou antes a de ambos, estava prometida de parte a parte. Ficava assentado um novo casamento.
D. Joana não contava com semelhante desenlace, e abençoou a viúva que, pretendendo casar com o velho, sugeriu-lhe a idéia de fazer o mesmo e a encaminhou àquele resultado. O sobrinho José é que estava longe de crer que havia trabalhado simplesmente para a caseira; tentou ainda impedir a realização do plano do tio, mas este às primeiras palavras fê-lo desanimar.
— Desta vez, não cedo! respondeu ele; conheço as virtudes de D. Joana, e sei que pratico um ato digno de louvor.
— Mas...
— Se continuas, pagas-me!
José recuou e não teve outro remédio mais que aceitar os fato consumados. O pobre septuagenário treslia evidentemente.
D. Joana tratou de apressar o casamento, receosa de que, ou algumas das várias moléstias de João Barbosa, ou a própria velhice desse cabo dele, antes de arranjadas as coisas. Um tabelião foi chamado, e tratou, por ordem do noivo, de preparar o futuro de D. Joana.
Dizia o noivo:
— Se eu não tiver filhos, desejo...
— Descanse, descanse, respondeu o tabelião.
A notícia desta resolução e dos atos subseqüentes chegou aos ouvidos de D. Lucinda, que mal pôde crer neles.
— Compreendo que me fugisse; eram intrigas daquela... daquela criada! exclamou ela. Depois ficou desesperada; interpelou o destino, deu ao diabo todos os seus infortúnios. — Tudo perdido! tudo perdido! dizia ela com uma voz arrancada às entranhas. Nem D. Joana nem João Barbosa a podiam ouvir. Eles viviam como dois namorados jovens, embebidos no futuro. João Barbosa planeava mandar construir uma casa monumental em algum dos arrabaldes onde passaria o resto de seus dias. Conversavam das divisões que a casa devia ter, da mobília que lhe convinha, da chácara, e do jantar com que deviam inaugurar a residência nova.
— Quero também um baile! dizia João Barbosa.
— Para quê? Um jantar basta.
— Nada! Há de haver grande jantar e grande baile; é mais estrondoso. Demais, quero apresentar-te à sociedade como minha mulher, e fazer-te dançar com algum adido de legação. Sabes dançar?
— Sei.
— Pois então! Jantar e baile.
Marcou-se o dia de ano bom para celebração do casamento.
— Começaremos um ano feliz, disseram ambos.
Faltavam ainda dez dias, e D. Joana estava impaciente. O sobrinho José, alguns dias arrufado, fez as pazes com a futura tia. O outro aproveitou o ensejo de vir pedir o perdão do tio; deu-lhe os parabéns e recebeu a bênção. Já agora não havia remédio senão aceitar de boa cara o mal inevitável.
Os dias aproximaram-se com uma lentidão mortal; nunca D. Joana os vira mais compridos. Os ponteiros do relógio pareciam padecer de reumatismo; o sol devia ter por força as pernas inchadas. As noites pareciam-se com as da eternidade. Durante a última semana João Barbosa não saiu de casa; todo ele era pouco para contemplar a próxima companheira de seus destinos. Enfim raiou a aurora cobiçada. D. Joana não dormia um minuto sequer, tanto lhe trabalhava o espírito. O casamento devia ser feito sem estrondo, e foi uma das vitórias de D. Joana, porque o noivo falava em um grande jantar e meio mundo de convidados. A noiva teve prudência; não queria expor-se e expô-lo a comentários. Conseguira mais; o casamento devia ser celebrado em casa, num oratório preparado de propósito. Pessoas de fora, além dos sobrinhos, havia duas senhoras (uma das quais era madrinha) e três cavalheiros, todos eles e elas maiores de cinqüenta.
D. Joana fez sua aparição na sala alguns minutos antes da hora marcada para celebração do matrimônio. Vestia com severidade e simplicidade.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. A melhor das noivas. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1877.