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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Erão passados doze annos depois dos acontecimentos, que acabámos de narrar. Em uma sala mobiliada com bastante luxo, si bem quc não com muito gosto, em um sobrado da rua de S. Bento na cidade de S. Paulo, uma linda menina de dez annos estava sentada ao piano dedilhando com volubilidade c bem pouca attenção as lições de Iliinten. A' direita, ao pé delia achava—se t,ambem sentada cm uma cadeira, com a mão na facc c acotovelada sobre a mesa do piano, uma senhora, que poderia ter quando muito trinta annos, e que parecia observar com certo orgulho e complacencia o estudo da gentil menina. Era uma senhora morena, de physionomia regular e sympathica, de grandes olhos negros e languidos e que tinha bem conservada ainda uma belleza, que no viço dos annos devia ter sido das mais encantadoras. Pelo primoroso cuidado com que se trajava, pelas maneiras e ademanes um tanto affectados, via-se que ainda predominava nella esse fundo de vaidade inseparavel das moças formosas, mesmo quando essa formosura já vae declinando para o occaso. A desta porém ainda não declinava; nem cans, nem rugas, nem macilencia denunciavão nella a epoca da decadencia. Não era já a tenra e mal aberta flór, brilhante de viço e frescura, e ainda rociada das perolas da aurora ; mas sim a flór, que alardeia desabrochadas em toda a sua plenitude as petalas formosas ao fulgor de um bello sol de estio.

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