Por Bernardo Guimarães (1883)
O amor antigo e reciproco renasceo livre e expansivo como nunca. Os infortunios de um e outro tinhão posto ao claro as nobres qualidades de ambos.
A faceirice e galanteios de Adelaide durante a primavera de sua vida, não erão mais do que resultado da inexperencia e irreflexão dos verdes annos, alimentadas por uma educação mal dirigida.
Adelaide, graças ao vigor de sua organisaçáo, tendo já trinta annos, podia bem mentir que não tinha ainda vinte e cinco. Depois que a esperança de um novo amor antigo lhe tinha entrado no coração, havia voltado aos annos de sua juventude, e seu ar melancolico era temperado por um desses risos meigos e suaves, como um raio do sol escoando-se por entre as nuvens tenues e vaporosas de uma tarde tepida e serena.
O mesmo acontecia a Conrado.
Era um homem na edade viril, mas que parecia ter dez annos de menos.
Sómente um aspecto mais severo, e certa belleza mascula o tornavão algum tanto differente do que antes era.
EPILOGO
Os Casamentos.
— Ó sinhásinha, escuta uma cousa, — disse um dia Lucinda á viuva de Moraes, cerca de um mez depois dos funebres acontecimentos, que acabámos de relatar; — não ficava a nora tão bonito mecê casar com nhô Conrado ! . . .
— Que esperança, Lucinda ! — respondeo Adelaide suspirando. — Eu viuva, carregada de filhos ! . . . Demais, bem sabes, não pude ser-lhe fiel, como elle foi, e... e é ainda...
—E é ainda ? . . . Como é que sinhásinha sabe disso? — atalhou a preta sorrindo maliciosamente.
— Ora, que pergunta i — disse Aoelaide corando um pouco; — eu casei—me e elle até hoje é solteiro..
— Deixa dessa scisma; elle bem sabe que sinhásinha, si casou, não foi muito por sua vontade, e foi porque correo como certo que nhó Conrado tinha morrido.
— Ah! isso é a pura verdade.
— Pois então Q escuta, sinhásinha, vou lhe contar uma cousa...
— O que? — acudio Adelaide com impaciente curiosidade.
— É que nhô Conrado não lhe olha com máos olhos. Paixão antiga é como gameleira ; por mais que se córte, sempre fica uma raizinha, que brota de novo.
— É o que te parece, Lucinda. O interesse que mostra por mim, póde não ser mais que delicadeza de um coração generoso e compas sivo. Vê-me viuva, já me quiz bem, tem dó de mim, e nada mais.
— Não é sómente dó, sinhásinha; é mais alguma cousa; quer apostar?
— Deixemos de apóstas; mas em fim...
— Mas emfim eu vou ver si o negocio tem geito.
— Deixa-te disso...
— Deixa por minha conta.
Lucinda sahio immediamento e voou para a cara de C.¿nrado.
— Lucinda, disse Conrado á velha creoula, depois de outras conversas proprias para disfarçar e encher tempo; os pensamentos de ambos navegavão na mesma direcção, mas desejavão encontrar-se e chegar á falla sem abalroamento; Lucinda, eu acho que Dona Adelaide deve estar em posição bem embaraçosa... — Oh ! nhÔ Conrado, nem fallemos nisso, coitada da sinhá!...
— Fallemos, sim, pois que inconveniente ha em fallar nisso, si não fallamos para fazer mal a ninguem. Pobre Adelaide! deve estar luctando com bastantes difficuldades; como ha de governar uma casa cheia de tantos e tão complicados negocios, ella que nenhuma pratica tem dessas cousas rica, sem marido, sem pae, moça e formosa ainda como sempre foi, ou mais ainda, sem mãe, sem irmãos, rodeada de quatro filhinhos em tenra edade que triste isolamento!...
— É verdade, nhÔ Conrado; é ella sósinha commigo, pobre negra velha e cançada, as creanças e Deus
— Pois eu da minha parte, Lucinda, teria o maior prazer do mundo em adoptar como meus filhos os irmãosinhos de Rozaura.
Lucinda estremeceo de prazer ouvindo estas palavras, cujo alcance logo comprehendeo, e calou-se.
— Pois é o que te digo, proseguio o moço ; — entendo, que fica muito mal o luto em uma senhora tão moça e tão formosa. Consentiria ella que eu fosse despojal-a de tão lugubre vestidura ?
— Não sei• , — respondeo Lucinda com ar malicioso, — só indo perguntar.
— Pois pergunta—lhe e apressa-te em trazer-me a resposta.
Lucinda nada mais quiz saber, e nem esteve por mais conversas; correo direito para a casa.
Dous mezes depois desta conversação, uma linda caleça, puxada por duas parelhas de possantes e vistosos cavallos brancos, conduzia para a egreja cathedral dois formosos pares de noivos, que sentados de fronte um do outro ião receber-se á face do altar.
Quem os visse não era capaz de adivinhar, que erão pae e sogra, filha e genro, que assim por modo tão singular se achavão de vis-à-vis. Um dos pares estava ainda em todo o viço da mocidade; o outro, posto que algum tanto mais edoso, nem por isso era inferior ao outro em belleza e elegancia; por isso mais facilmente se acreditaria serem irmãos e cunhados. Mas o leitor já sabe quem são elles.
Conrado, que nenhum desejo nem motivo tinha para adiar seu casamento com Adelaide, achou que era não só de bom tom, como de bom agouro, celebrar tambcm no mesmo dia, hora e logar o consorcio de sua filha com o seu querido Carlos e por isso concedeo-lhe perdão da pena de um anno de purgatorio, a que o tinha condemnado.
FIM
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.