Por Machado de Assis (1878)
Mas, se isto lhe parecia claro e necessário, não se atrevia ainda assim propô-lo à noiva; e por duas razões. A primeira era o natural respeito à dor da filha, que ele podia magoar ainda mais falando-lhe desde logo no casamento. Era a segunda a frieza e o silêncio com que esta o tratava depois da morte do pai. A diferença era positiva e inexplicável; mas a boa fé explica tudo, e Jorge atribuiu essa nova feição da moça ao profundo golpe que o desastre lhe desfechara. Sabia da paixão filial de Iaiá; era testemunha dessa adoração constante, que parecia contar com a eternidade da vida.
A idéia de falar a Estela apenas lhe passou pela mente; rejeitou-a sem esforço. Limitou-se a esperar, e ia ali com a assiduidade que lhe permitia a condição de noivo. Ia às noites, não todas; passava uma ou duas horas, a atar e desatar uma conversação frouxa, muita vez sem interesse. Sobre todos três, mas principalmente sobre as duas, pesava ainda a lembrança do finado. O Sr. Antunes tomava parte nessas conversações íntimas, e era ele quem forcejava por lhes dar a perdida animação; temperava-a com algum dito folgazão, ouvido com indiferença, quando não com tédio. Posto que o casamento de Jorge com a enteada da filha estivesse tratado, ele nutria a esperança de que alguma cousa o viria desfazer, e nessa carta incerta jogava todo o futuro.
Um noite, Jorge propôs diretamente a Iaiá a necessidade de apressar o casamento.
— Não sendo a cerimônia pública, disse ele, não daremos que falar aos outros, se alguma cousa há que falar...
— Quer a minha resposta hoje mesmo? interrompeu Iaiá.
— Podia ser hoje.
Estela, que estava presente, apoiou a reflexão de Jorge.
— Convém decidir quanto antes, disse ela; não vale a pena deixar passar mais tempo sem utilidade.
— Sem utilidade, repetiu Iaiá olhando para o teto.
— Decerto...
Iaiá baixou os olhos aos dous; fitou-os a um e outro, longo tempo, com severidade; depois, retorquiu em tom ríspido: — Deixem-me ao menos o tempo de chorar meu pai!
Jorge proferiu algumas palavras de afeição; Estela não protestou nem retorquiu; ergueu-se silenciosamente e deixou-os. O silêncio foi longo. Jorge não tomara à má parte a súplica da noiva; atribuiu-a ao sentimento de piedade filial, que era nela mais forte que qualquer outro.
— Iaiá, disse ele, ninguém lhe nega o direito de chorar seu pai; se insistimos é em benefício da família. Seu pai recomendou-me que olhasse pelos seus, e eu quisera poder fazê-lo, não como estranho, mas como parente; por isso lembrei a conveniência de realizar o casamento quanto antes, mas se lhe parece que pode ser adiado...
— Pode.
— Até quando?
— Até um dia.
— Que dia?
— Sábado de Aleluia, por exemplo.
— Falemos sério, disse Jorge.
— Sério? Dia de São Nunca. Jorge franziu a testa.
— Que quer isso dizer? Retira a sua palavra? Em todo o caso, tenho direito de saber o motivo, porque algum motivo há de haver...
Iaiá tinha-se levantado, pegou-lhe na mão e levou-o até à janela. O transtorno das feições era visível; os olhos luziam de impaciência, enquanto a palavra parecia medrosa e recalcitrante. Pasmado do que via, e curioso do que ela lhe iria dizer, Jorge não pensou sequer em a aquietar; se lhe pegou nas mãos foi por um movimento instintivo; mas quando as sentiu geladas e trêmulas, ficou aterrado.
— Que tem, Iaiá? Você padece; vamos, fale, diga-me tudo. Já me não ama?
— Se não o amo! disse vivamente a moça deitando os olhos ao céu, como a tomá-lo por testemunha da sinceridade de seu coração; mas logo depois arrependeu-se e continuou de um modo compassado e frio.
— Amei-o; não importa saber se muito ou pouco, mas amei-o. O senhor foi a primeira pessoa que me fez bater o coração de um modo diferente do que ele batia; foi a primeira pessoa que me disse palavras novas, que me fizeram bem...
Jorge lançou-lhe o braço à cintura e conchegou-a ao coração.
— Pois sim, disse ele; eu repetirei essas palavras em todo o resto da nossa vida. Seja boa, e sobretudo seja franca. Para que há de negar o que se está vendo? Eu sei que ainda me ama...
— Eu? disse a moça deslaçando-se-lhe dos braços. Eu tenho-lhe horror.
Jorge sorriu. — Horror, por quê? disse ele. Mas o gesto da moça veio apagar-lhe o sorriso começado. Iaiá levara as mãos ao seio, como se quisera conter os ímpetos do coração; os olhos luziam-lhe de extraordinário fulgor. Ofegante, por alguns minutos, não pôde articular uma só palavra; quando chegou a falar disse simplesmente:
— Que razão há agora para que nos casemos? E depois de uma pausa:
— Tenho ciúmes do passado, e o senhor amou já uma vez. Assim como eu ia entregar-me ao senhor, com o coração limpo de qualquer outro afeto, assim quisera que o senhor nunca houvesse amado a ninguém. Que é o seu coração para mim? Um sobejo de outra; talvez nem isso; esse mesmo resto não me pertence, não é meu; fiquemos neste ponto, e tome cada um de nós a sua liberdade.
Iaiá recusou outra explicação, aliás desnecessária; a linguagem era transparente. Jorge saiu dali com o espírito transtornado e confuso. O motivo da recusa, para ser sincero, era pueril ou romanesco demais; nenhuma noiva teve ciúmes de um amor anônimo e extinto; logo, a alusão de Iaiá não era vaga e sem objeto, mas ia direito à pessoa de Estela. Seria isso? Jorge não queria crer e mal podia duvidar.
No dia seguinte, acabado o almoço, apareceu-lhe o pai de Estela.
— Iaiá manda-lhe isto, disse ele sacando da algibeira uma carta.
Jorge recebeu-a pressurosamente e abriu-a; leu estas palavras únicas:
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.