Por Machado de Assis (1868)
O que ela já sentia por ele era estima e simpatia; nada disso, nem isso tudo forma o amor.
Mas Hortênsia tinha um coração delicado e uma inteligência esclarecida; compreendia Meneses; podia vir a amá-lo.
Com efeito, à proporção que os dias se passavam, sentia ela que um novo sentimento a impelia para Meneses. Os olhos começaram a falar, as ausências já lhe eram dolorosas; estava no caminho do amor.
Uma noite achavam-se os dois na sala, um pouco isolados dos mais, e com os olhos fixos um no outro, esqueciam-se de si.
Caiu o lenço da moça; ela ia apanhá-lo, Meneses apressou-se também; os dedos de ambos encontraram-se, e como se fossem duas pilhas elétricas, aquele contacto fê-los estremecer.
Não disseram nada; mas tinham-se entendido.
Na seguinte noite Meneses declarou a Hortênsia que a amava, e perguntou-lhe se queria ser sua mulher.
A moça respondeu afirmativamente.
— Há muito tempo, disse ele, que eu a trago no meu coração; tenho-a amado em silêncio, como entendo que se devem adorar as santas...
— Sei, murmurou ela.
E acrescentou:
— O que eu lhe peço é que me faça feliz.
— Juro-lhe!
No dia seguinte Meneses pediu a mão de Hortênsia, e um mês depois eram casados, indo gozar a lua-de-mel em Petrópolis.
Dois meses depois do casamento desembarcava do Rio da Prata o jovem Marques, sem a Sofia, que lá ficara depenando os outros Marques de lá.
IX
O velho Azevedo agradeceu ao céu o ter achado um genro como ele sonhara, um genro que fosse homem de bem, inteligente, esclarecido e amado por Hortênsia.
— Agora, dizia ele no dia do casamento, só me resta concluir o meu tempo de serviço público, pedir a minha aposentadoria, e ir passar com vocês o resto da minha vida. Digo que só espero isto, porque Luizinha é natural que se case breve.
Marques, apenas chegou à corte, lembrou-se de ir à casa de Azevedo; não o fez por achar-se fatigado.
Tendo rematado o romance da mulher que o levou ao Rio da Prata, o jovem fluminense, em cujo espírito sucediam-se os projetos com espantosa facilidade, lembrou-se de que deixara em meio um casamento, e voltou-se logo para essas primeiras idéias. Entretanto, como a antiga casa de Meneses era no centro da cidade, e ficava-lhe, portanto, mais perto, Marques resolveu ir lá.
Encontrou um moleque que lhe respondeu simplesmente:
— Nhonhô está em Petrópolis.
— Fazendo o quê?
— Não sei, não senhor.
Eram quatro horas da tarde. Marques foi jantar projetando ir à noite à casa de Azevedo. No hotel encontrou um amigo que, depois de abraçá-lo, despejou um alforje de notícias. Entre elas veio a do casamento de Meneses.
— Ah! casou-se o Meneses? disse Marques espantado. Com quem?
— Com uma filha do Azevedo.
— A Luísa?
— A Hortênsia.
— A Hortênsia!
— É verdade; há dois meses. Estão em Petrópolis.
Marques enfiou.
Realmente ele não amava a filha de Azevedo; e o direito que poderia ter à mão dela, tinha-o destruído com a viagem misteriosa ao Rio da Prata e a carta que dirigira a Meneses; tudo isto era assim; porém Marques era essencialmente vaidoso, e aquele casamento feito em sua ausência, quando ele pensava vir achar Hortênsia lavada em lágrimas e semi-viúva, feriu-lhe profundamente o amor-próprio.
Por felicidade do estômago dele só a vaidade estava ofendida, de modo que a natureza animal readquiriu logo a sua supremacia à vista de uma sopa de ervilhas e de uma maionese de peixe, fabricadas por mão de mestre.
Marques comeu como um homem que vem de bordo, onde não enjoou, e depois de comer tratou de ir fazer algumas visitas mais íntimas.
Deveria, porém, ir à casa de Azevedo? Como deveria falar ali? Que teria havido em sua ausência?
Estas e outras perguntas surgiam do espírito de Marques, que não sabia como decidir-se. Entretanto o moço refletiu que não lhe convinha mostrar-se sabedor de nada, a fim de adquirir o direito de censura, e que em todo caso era conveniente ir à casa de Azevedo. Chamou um tílburi e foi.
Mas aí a resposta que teve foi:
— O senhor não recebe ninguém.
Marques voltou sem saber até que ponto aquela resposta era ou deixava de ser um insulto para ele.
— Em todo caso, pensou, o melhor é não voltar lá; além de que eu venho de fora, tenho o direito à visita.
Mas os dias passaram-se sem que lhe aparecesse ninguém.
Marques magoava-se com isso; mas o que sobretudo lhe doía mais era ver que a mulher se lhe escapara das mãos, e tanto mais se enraivecia quanto que a coisa era toda por culpa dele.
— Mas que papel faz Meneses em tudo isto? dizia ele consigo. Sabendo do meu projetado casamento foi traição aceitá-la por esposa.
De pergunta em pergunta, de consideração em consideração, Marques chegou a conceber um plano de vingança contra Meneses, e com satisfação igual à de um general que tem meditado um ataque enérgico e seguro, o jovem dandy esperou tranqüilamente a volta do casal Meneses.
X
O casal voltou com efeito daí a alguns dias.
Hortênsia vinha bela como nunca; tinha na fronte o esplendor da esposa; a esposa tinha completado a donzela.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Não é mel para a boca do asno. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.