Por Machado de Assis (1876)
CAVALCANTE — Não tenho o direito de interrogá-la; mas há já dez minutos que estamos neste gabinete, falando de coisas bem esquisitas para duas pessoas que apenas se conhecem.
D. CARLOTA, estendendo-lhe a mão — Até logo.
CAVALCANTE — A sua mão está fria. Não se vá ainda embora; hão de achá-la agitada. Sossegue um pouco, sente-se. (Carlota senta-se.) Eu retiro-me.
D. CARLOTA — Passe bem.
CAVALCANTE — Até logo.
D. CARLOTA — Volta logo?
CAVALCANTE — Não, não volto mais; queria enganá-la.
D. CARLOTA — Enganar-me por quê?
CAVALCANTE — Porque já fui enganado uma vez. Ouça-me; são duas palavras. Eu gostava muito de uma moça que tinha a sua beleza, e ela casou com outro. Eis a minha moléstia.
D. CARLOTA, erguendo-se — Como assim?
CAVALCANTE — É verdade; casou com outro.
D. CARLOTA indignada — Que ação vil!
CAVALCANTE — Não acha?
D. CARLOTA — E ela gostava do senhor?
CAVALCANTE — Aparentemente; mas, depois vi que eu não era mais que um passatempo.
D. CARLOTA, animando-se aos pouco — Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe que o senhor era a sua única ambição, o seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contemplá-lo por horas infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas coisas que pareciam cair do céu, e suspirava...
CAVALCANTE — Sim, suspirava, mas...
D. CARLOTA, muito animada — Um dia abandonou-o, sem uma só palavra de saudade nem de consolação, fugiu e foi casar com uma viúva espanhola!
CAVALCANTE, espantado — Uma viúva espanhola!
D. CARLOTA — Ah! tem muita razão em estar doente!
CAVALCANTE — Mas que viúva espanhola é essa de que me fala?
D. CARLOTA, caindo em si — Eu falei-lhe de uma viúva espanhola?
CAVALCANTE — Falou.
D. CARLOTA — Foi engano... Adeus, senhor doutor.
CAVALCANTE — Espere um instante. Creio que me compreendeu. Falou com tal paixão que os médicos não têm. Oh! como eu execro os médicos! principalmente os que me mandam para a China.
D. CARLOTA — O senhor vai para a China?
CAVALCANTE — Vou; mas não diga nada! foi sua mãe que me deu esta receita.
D. CARLOTA — A China é muito longe.
CAVALCANTE — Creio até que está fora do mundo.
D. CARLOTA — Tão longe por quê?
CAVALCANTE — Boa palavra essa. Sim, por que ir à China, se a gente pode sarar na Grécia? Dizem que a Grécia é muito eficaz para estas feridas; há quem afirme que não há melhor para as que são feitas pelos capitães de engenharia. Quanto tempo vai lá passar?
D. CARLOTA — Não sei. Um ano, talvez.
CAVALCANTE — Crê que eu possa sarar num ano?
D. CARLOTA — É possível.
CAVALCANTE — Talvez sejam precisos dois, — dois ou três.
D. CARLOTA — Ou três.
CAVALCANTE — Quatro, cinco...
D. CARLOTA — Cinco, seis...
CAVALCANTE — Depende menos do país que da doença.
D. CARLOTA — Ou do doente.
CAVALCANTE — Ou do doente. Já a passagem do mar pode ser que me faça bem. A minha moléstia casou com um primo. A sua (perdoe esta outra indiscrição; é a última), a sua casou com uma viúva espanhola. As espanholas, mormente viúvas, são detestáveis. Mas, diga-me uma coisa: se uma pessoa já está curada, que é que vai fazer à Grécia?
D. CARLOTA — Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda está doente, vai para a China.
CAVALCANTE — Tem razão. Entretanto, começo a ter medo de morrer... Pensou alguma vez na morte?
D. CARLOTA — Pensa-se nela, mas lá vem um dia em que gente aceita a vida, seja como for.
CAVALCANTE — Vejo que sabe muita coisa.
D. CARLOTA — Não sei nada; sou uma tagarela, que o senhor obrigou a dar por paus e por pedras; mas, como é a última vez que nos vemos, não importa. Agora, passe bem.
CAVALCANTE — Adeus, d. Carlota!
D. CARLOTA — Adeus, doutor!
CAVALCANTE — Adeus. (Dá um passo para a porta do fundo.) Talvez eu vá a Atenas; não fuja se me vir vestido de frade...
D. CARLOTA (indo a ele) — De frade? O senhor vai ser frade?
CAVALCANTE — Frade. Sua mãe aprova-me, contanto que eu vá à China. Parece lhe que devo obedecer a esta vocação, ainda depois de perdida?
D. CARLOTA — É difícil obedecer a uma vocação perdida.
CAVALCANTE — Talvez nem a tivesse, e ninguém se deu ao trabalho de me dissuadir. Foi aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua voz sai de um coração que padeceu também, e sabe falar a quem padece. Olhe, julgue-me doido, se quiser, mas eu vou pedir-lhe um favor: conceda-me que a ame. (Carlota, perturbada, volta o rosto.) Não lhe peço que me ame, mas que se deixe amar; é um modo de ser grato. Se fosse uma santa, não poderia impedir que lhe acendesse uma vela.
D. CARLOTA — Não falemos mais nisso, e separemo-nos.
CAVALCANTE — A sua voz treme; olhe para mim...
D. CARLOTA — Adeus; aí vem mamãe.
Cena XIII
Os mesmos, d. Leocádia
D. LEOCÁDIA — Que é isto, doutor? Então o senhor quer só um ano de China? Vieram pedir-me que reduzisse a sua ausência.
CAVALCANTE — D. Carlota lhe dirá o que eu desejo.
D. LEOCÁDIA — O doutor veio saber se mamãe conhece algum cardeal em Roma.
CAVALCANTE — A princípio era um cardeal; agora basta um vigário.
D. CARLOTA — Um vigário? Para quê?
CAVALCANTE — Não posso dizer.
D. LEOCÁDIA, a Carlota — Deixa-nos sós, Carlota; o doutor quer fazer-me uma confidência.
CAVALCANTE — Não, não, ao contrário... D. Carlota pode ficar. O que eu quero dizer é que um vigário basta para casar.
D. LEOCÁDIA — Casar a quem?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Não consultes médico. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1876.