Por Machado de Assis (1862)
— É verdade; amamo-nos depressa; e muito. Quer que lhe diga? E um pouco esquisito isto de dormir solteiro e acordar noivo. Que lhe parece?
— É verdade, respondeu Castrioto, em voz surda.
— Que tem, amigo? Parece que isso lhe traz idéias sombrias... Vejo-o pensativo... Que tem?
Depois de algum silêncio Castrioto respondeu:
— Eu lhe digo. Minha noiva casa-se comigo mediante uma condição. — Uma condição?
— Dolorosa.
— Meu Deus! que será?
— A de não escrever mais romances.
— Oh! mas parece que a noiva vale a condição, disse Correia sustando uma gargalhada.
— Vale, respondeu Castrioto, e por isso aceitei-a.
— E depois lá para diante...
— Não; aceitei a condição, hei de cumpri-la. E é por isso que eu, nesta hora solene em que me despeço da vida de solteiro, quero ler-lhe o meu último romance. Dizendo isto, Castrioto tirou do bolso um formidável rolo de papel, cujo aspecto fez empalidecer o hóspede.
Batiam onze horas.
A leitura do rolo não levava menos de duas horas.
Correia achou-se num destes momentos supremos em que toda a coragem é necessária ao homem.
Mas de que valia a maior coragem deste mundo contra um mau escritor que está disposto a ler uma obra?
Castrioto desenrolou o romance, dizendo:
— O título deste é: Os perigos do amor ou a casa misteriosa.
Correia não podia escapar ao perigo da leitura.
Entretanto, para servi-lo, pediu licença a Castrioto para pôr-se à fresca e deitar-se no sofá.
Feito isto, deu sinal a Castrioto para começar.
O romancista tossiu e entrou a ler o romance.
Quando acabou o primeiro capítulo, voltou-se para Correia e perguntou-lhe:
— Que lhe parece este capítulo?
— Excelente, respondeu Correia.
Começou o segundo capítulo com entusiasmo.
— Que lhe parece este capítulo?
Nenhuma resposta.
Castrioto aproximou-se do hóspede; dormia a sono solto.
— Miserável! disse o romancista, indo deitar-se na cama de Correia.
IX
O dia seguinte era o grande dia.
Para os noivos levantou-se o sol como nunca; para Vicente jamais a luz do sol lhe pareceu tão irônica e zombeteira.
A felicidade de Correia aumentava o despeito do rapaz e dava maiores proporções ao desdém com que o rival o tratava.
Por compensação, aliás fraca em tais circunstâncias — Clara mostrava-se nesse dia mais solícita e amável que nunca. Acordou cantando e rindo. Com o humor da rapariga diminuiu um pouco o aborrecimento de Vicente.
Vicente resolveu não sair nesse dia, e entregar-se todo à companhia de Clara. Mas, de repente, pareceu-lhe que a alegria da moça era um insulto ao seu despeito, imaginou que ela zombara dele.
Disse-lho.
Clara ouviu a censura com altivez e silêncio.
Depois sorrindo desdenhosamente:
— És um extravagante...
Vicente arrependeu-se; quis pedir perdão à moça da suspeita, mas isso seria complicar o ridículo da situação.
Preferiu calar-se.
— Afinal de contas, disse ele, que me importa a mim o casamento? Não casei porque não quis...
E atirou-se a um livro para ler.
Não leu; folheou páginas conduzindo os olhos maquinalmente.
Fechou o livro.
Acendeu dois charutos e apagou-os logo.
Pegou em outro livro e acendeu outro charuto, e repetiria a cena se não viesse o almoço dar-lhe uma distração.
Ao almoço mostrou-se alegre.
— Sabes que estou com grande apetite? disse ele a Clara.
— Sim?
— É verdade!
— Por quê?
— Feliz, continuou Vicente, porque depois de tantos trabalhos estou ao pé de ti, e só a ti pertenço.
A moça sorriu.
— Duvidas? perguntou ele.
— Não duvido.
Vicente continuou:
— Confesso-te que durante algum tempo estive quase obedecendo ao tio, tais eram as insistências dele para que eu me casasse com a deslambida da prima. Felizmente ela namorou-se do outro; estou livre.
— Olha que rompes o guardanapo...
Vicente com efeito dera grande puxão no guardanapo...
A tranqüilidade de Clara contrastava com a agitação de Vicente, e era essa tranqüilidade um pouco cômica, que o despeitava ainda mais.
O dia passou-se do mesmo modo.
Depois de jantar Vicente dispôs-se a dormir.
— Dormir! exclamou Clara. Há de fazer-te mal.
— Qual!
— Olha, vai dar um passeio; é melhor...
— Queres ver-me pelas costas?
— Se cuidas que é isso, fica.
— Estou brincando.
Vicente estava morto por sair.
Ao chegar à rua fez mil projetos. O primeiro foi ir à casa do tio; mas arrependeu-se logo, antevendo o ridículo da cena.
Achou melhor ir a Botafogo.
Já ia entrar num tílburi, quando o projeto lhe pareceu insuficiente.
— Nada; é melhor ir à igreja; assistirei ao casamento, e ameaçarei o Correia; porque aquele patife há de pagar-me!
Encaminhou-se para a freguesia de Santo Antônio, mas parou no caminho.
— Que irei lá fazer?
Nestas alternativas escoou-se a hora.
À noite encaminhou-se para a Rua dos Inválidos, onde morava e logo de longe viu a casa iluminada.
Vicente teve um movimento de furor; levantou o punho fechado e atirou à rua o chapéu de um sujeito que passava.
— Maluco!
Vicente, que estava desesperado por descarregar em alguém a raiva que tinha dentro de si, voltou-se para o sujeito e perguntou-lhe a quem dirigia aquele epíteto. — Ao senhor! respondeu o indivíduo.
Vicente agarrou-lhe a gola da casaca, e já fervia o soco quando algumas pessoas intervieram e os separaram.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Nem uma nem outra. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1873.