Por Machado de Assis (1870)
Pela primeira vez Miloca encarou o namorado, e, longe do que se poderia supor, não havia em seu gesto a menor sombra de aborrecimento; pelo contrário, parecia animar o novel cavalheiro a mais positivo ataque.
Animado com esse intróito, Adolfo foi direto ao coração do assunto.
— Talvez, D. Emília, disse ele, talvez tenha notado que eu... E parou. — Que o senhor... o quê? perguntou a moça que parecia saborear a perplexidade do rapaz.
— Que eu sinto...
Nova interrupção.
Era chegada a Chaine des dames. Miloca deixou o rapaz meditar nas dificuldades da sua posição.
"Sou um asno, dizia Adolfo consigo. Pois que razão me arriscarei a deixar para depois uma explicação que vai em tão bom caminho? Ela parece disposta..." No primeiro intervalo reatou a conversação.
— Dir-lhe-ei tudo de uma vez... Amo-a. Miloca fingiu-se admirada.
— A mim? perguntou ela ingenuamente.
— Sim... atrevi-me a... Perdoa-me?
— Com uma condição.
— Qual?
— Ou antes, com duas condições. A primeira é que se há de esquecer de mim; a segunda é que não há de voltar lá à casa.
Adolfo olhou espantado para a moça e durante alguns segundos não achou resposta que lhe dar. Preparou-se para tudo, mas aquilo ia além dos seus cálculos. A única cousa que lhe pôde dizer foi esta pergunta:
— Fala sério?
Miloca fez um gesto de cólera, que reprimiu logo; depois sorriu e murmurou: — Que se atreva a amar-me, é muito, mas injuriar-me, é demais!
— Injúria pede injúria, retorquiu Adolfo.
Miloca desta vez não olhou para ele. Voltou-se para o cavalheiro que ficava próximo e disse:
— Quer conduzir-me ao meu lugar?
Deu-lhe o braço e atravessou a sala, no meio do pasmo geral. Adolfo humilhado, vendo se alvo de todas as vistas, procurou esquivar-se. D. Pulquéria não viu o que se passou; estava conversando com a dona da casa em uma saleta contígua; Rodrigo jogava nos fundos da casa.
Aquele misterioso lance teatral foi o assunto das palestras durante o resto da noite. Impossível foi porém saber a causa dele. O dono da casa, sabedor do acontecimento, pediu desculpa dele à filha de Rodrigo, pois julgava ter parte indireta nele pelo fato de haver convidado Adolfo. Miloca agradeceu a atenção, mas nada revelou do que se passara.
Nem o pai nem a tia souberam de nada; no dia seguinte porém recebeu Rodrigo uma longa carta de Adolfo relatando o sucesso da véspera e pedindo desculpa ao velho de ter dado causa a um escândalo. Nada ocultou do que se passara, mas absteve-se de moralizar a atitude da moça. Rodrigo conhecia o defeito da filha e não lhe foi difícil perceber que a causa primordial do acontecimento fora ela. Todavia não lhe disse nada. D. Pulquéria porém foi menos discreta na primeira ocasião que se lhe ofereceu, disse amargas verdades à sobrinha, que lhas ouviu sem replicar.
CAPÍTULO IV
Felizes aqueles cujos dias correm com a insipidez de uma crônica vulgar. Geralmente os dramas da vida humana são mais toleráveis no papel que na realidade. Poucos meses depois da cena que deixamos relatada, a família de Miloca sofreu um grave revés pecuniário; Rodrigo perdeu o pouco que tinha, e não tardou que a este acontecimento sucedesse outro não menos sensível: a morte de D. Pulquéria. Reduzido à extrema pobreza e achacado de moléstias, Rodrigo viveu ainda alguns meses atribulado e aborrecido da vida.
Miloca mostrou nesses dias amargos uma grande força de ânimo, maior do que se podia esperar daquele espírito quimérico. Bem sabia ela que o seu futuro era negro e nenhuma esperança poderia vir animá-lo. Todavia, parecia completamente alheia a essa ordem de considerações.
Rodrigo faleceu repentinamente uma noite em que parecia começar a recobrar a saúde. Era o último golpe que vinha ferir a moça, e esse não o suportou ela com a mesma coragem até ali manifestada. Uma família da vizinhança ofereceu-lhe asilo logo na noite do dia em que se enterrou o pai. Miloca aceitou o favor, disposta a dispensá-lo por qualquer maneira razoável e legítima.
Não tinha muito que escolher. Só uma carreira lhe estava aberta: a do professorado. A moça resolveu-se a ir ensinar em algum colégio. Custava-lhe isto ao orgulho, e era com certeza a morte de suas esperanças aristocráticas. Mas segundo ela disse a si mesma, era isso menos humilhante do que comer as sopas alheias. Verdade é que as sopas eram servidas em pratos modestos...
Nesse projeto estava — apesar de combatido pela família que tão afetuosamente lhe abrira as portas — quando apareceu em cena um anjo enviado do céu. Era uma de suas companheiras de colégio, casada de fresco, que vinha pedir-lhe o obséquio de ir morar com ela. Miloca recusou o pedido com alguma resolução; mas a amiga vinha disposta a esgotar todos os argumentos possíveis até vencer as repugnâncias de Miloca. Não lhe foi difícil; a altiva órfã cedeu e aceitou.
Leopoldina era o nome da amiga que lhe aparecera como um deus ex machina, acompanhada pelo marido, jovem deputado do Norte, governista inabalável e aspirante a ministro. Quem conversava com ele durante meia hora, nutria logo algumas dúvidas sobre se os negócios do Estado ganhariam muito em que ele os dirigisse. Dúvida realmente frívola, que ainda não fechou a ninguém as avenidas do poder.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Miloca. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1870.