Por Machado de Assis (1906)
— Vejamos o terceiro.
BARÃO
— O terceiro é a sua idade. Vinte e um anos, não?
D. HELENA
— Vinte e dois.
BARÃO
— Solteira?
D. HELENA
— Viúva.
BARÃO
— Perpetuamente viúva?
D. HELENA
— Talvez.
BARÃO
— Nesse caso, quarto motivo: a sua viuvez perpétua.
D. HELENA
— Conclusão: todo o nosso acordo está desfeito.
BARÃO
— Não digo que esteja; só por mim não o posso romper. V. Exa. porém avaliará as razões que lhe dou, e decidirá se ele deve ser mantido.
D. HELENA
— Suponha que respondo afirmativamente.
BARÃO
— Paciência! Obedecerei!
D. HELENA
— De má vontade?
BARÃO
— Não; mas com grande desconsolação.
D. HELENA
— Pois, Sr. Barão, não desejo violentá-lo; está livre.
BARÃO
— Livre, e não menos desconsolado.
D. HELENA
— Tanto melhor!
BARÃO
— Como assim?
D. HELENA
— Nada mais simples: vejo que é caprichoso e incoerente. BARÃO — Incoerente, é verdade.
D. HELENA
— Irei de procurar outro mestre.
BARÃO
— Outro mestre! Não faça isso.
D. HELENA
— Por quê?
BARÃO
— Porque... (Pausa.) V. Exa. é inteligente o bastante para dispensar mestres.
D. HELENA
— Quem lho disse?
BARÃO
— Adivinha-se.
D. HELENA
— Bem; irei queimar os olhos nos livros.
BARÃO
— Oh! seria estragar as mais belas flores do mundo!
D. HELENA, sorrindo
— Mas então nem mestres nem livros?
BARÃO
— Livros, mas aplicação moderada. A ciência não se colhe de afogadilho; é preciso penetrá-la com segurança e cautela.
D. HELENA
— Obrigada. (Estendendo-lhe a mão.) E visto que me recusa as suas lições, adeus.
BARÃO
— Já!
D. HELENA
— Pensei que queria retirar-se.
BARÃO
— Queria e custa-me. Em todo caso, não desejava sair sem que V. Exa. me dissesse francamente o que pensa de mim. Bem ou mal?
D. HELENA
— Bem e mal.
BARÃO
— Pensa então...
D. HELENA
— Penso que é inteligente e bom, mas caprichoso e egoísta.
BARÃO
— Egoísta!
D. HELENA
— Em toda a força da expressão. (Senta-se.) Por egoísmo — científico, é verdade, — opõe-se às afeições de seu sobrinho; por egoísmo, recusa-me as suas lições. Creio que o Sr. Barão nasceu para mirar-se no vasto espelho da natureza, a sós consigo, longe do mundo e seus enfados. Aposto que, desculpe a indiscrição da pergunta, — aposto que nunca amou?
BARÃO
— Nunca.
D. HELENA
— De maneira que nunca uma flor teve a seus olhos outra aplicação, além do estudo?
BARÃO
— Engana-se.
D. HELENA
— Sim?
BARÃO
— Depositei algumas coroas de goivos10 no túmulo de minha mãe. D. HELENA — Ah!
BARÃO
— Há em mim alguma coisa mais do que eu mesmo. Há a poesia da afeições por baixo da prova científica. Não a ostento, é verdade; mas sabe V. Exa. o que tem sido a minha vida? Um claustro. Cedo perdi o que havia de mais caro: a família. Desposei a ciência, que me tem servido de alegrias, consolações e esperamos. Deixemos, porém, tão tristes memórias...
D. HELENA
— Memórias de homem; até aqui eu só via o sábio.
BARÃO
— Mas o sábio reaparece e enterra o homem. Volto à vida vegetativa... Se me é lícito arriscar um trocadilho em português, que eu não sei bem se o é. Pode ser que não passe de aparência. Todo eu sou aparências, minha senhora, aparências de homem, de linguagem e até de ciência.
D. HELENA
— Quer que o elogie?
BARÃO
— Não; desejo que me perdoe.
D. HELENA
— Perdoar-lhe o quê?
BARÃO
— A incoerência de que me acusava há pouco.
D. HELENA
— Tanto perdôo que o imito. Mudo igualmente de resolução e dou de mão ao estudo.
BARÃO
— Não faça isso!
D. HELENA
— Não lerei uma só linha de botânica, que é a mais aborrecida ciência do mundo.
BARÃO
— Mas o seu talento...
D. HELENA
— Não tenho talento; tinha curiosidade.
BARÃO
— É a chave do saber.
D. HELENA
— Que monta isso? A porta fica tão longe!
BARÃO
— É certo, mas o caminho é de flores.
D. HELENA
— Com espinhos.
BARÃO
— Eu lhe quebrarei os espinhos.
D. HELENA
— De que modo?
BARÃO
— Serei seu mestre.
10 Flores ornamentais e perfumadas, de coloração amarela ou vermelha raiada de branco.
D. HELENA, levanta-se
— Não! Respeito os seus escrúpulos. Subsistem, penso eu, os motivos que alegou. Deixe-me ficar na minha ignorância.
BARÃO
— É a última palavra de V. Exa.?
D. HELENA
— Última.
BARÃO, com ar de despedida
— Nesse caso.... aguardo as suas ordens.
D. HELENA
— Que se não esqueça de nós.
BARÃO
— Crê possível que me esquecesse?
D. HELENA
— Naturalmente: um conhecimento de vinte minutos.
BARÃO
— O tempo importa pouco ao caso. Não me esquecerei nunca mais destes vinte minutos, os melhores da minha vida, os primeiros que hei realmente vivido. A ciência não é tudo, minha senhora. Há alguma coisa mais, além do espírito, alguma coisa essencial ao homem, e...
D. HELENA
— Repare, Sr. Barão, que está falando à sua ex-discípula. BARÃO — A minha ex-discípula tem coração, e sabe que o mundo intelectual é estreito para conter o homem todo; sabe que a vida moral é uma necessidade do ser pensante.
D. HELENA
— Não passemos da botânica à filosofia, nem tanto à terra, nem tanto ao céu. O que o Sr. Barão quer dizer, em boa e mediana prosa, é que estes vinte minutos de palestra não o enfadaram de todo. Eu digo a mesma coisa. Pena é que fossem só vinte minutos, e que o Sr. Barão volte à suas amadas plantas; mas é força ir ter com elas, não quero tolher-lhe os passos. Adeus! (Inclinando-se como para despedir-se.)
(continua...)
ASSIS, Machado de. Lição de botânica. Rio de Janeiro, 1906.