Por Machado de Assis (1876)
— Não desejo outra coisa.
Não sonhou outra vez com a mão, mas pensou muito nela e dormiu tarde. No dia seguinte para se castigar desta preocupação, escreveu uma longa carta a Cecília falando muito de seu amor e dos projetos de futuro.
Cecília recebeu a carta cheia de contentamento, porque muito tempo havia já que ele não escrevia carta tão longa. A resposta dela foi ainda mais comprida.
Um período da carta convém ser transcrito aqui:
Dizia assim:
Se eu fosse ciumenta... se eu fosse desconfiada... havia de te dizer agora muito duras coisas. Mas não digo, descansa; amo-te e sei que me amas. Mas por que havia eu de dizer duras coisas? Porque nada menos de catorze vezes falas no nome de Serafina.
Catorze vezes! Mas são catorze vezes em catorze páginas, que são todas minhas. João Aguiar não se lembrava de haver escrito tanta vez o nome da filha do desembargador; lembrava-se, porém, de haver pensado muito nela enquanto escrevia a carta. Felizmente nada mau resultara, e o jovem namorado achou que ela tinha razão na queixa.
Nem por isso deixou de mostrar o trecho acusador à namorada do Tavares, que sorriu e agradeceu a confiança. Mas foi um agradecimento com a voz trêmula e um sorriso de íntima satisfação.
Parece que as catorze páginas deviam servir para longo tempo, porque a seguinte carta foi apenas de duas e meia.
A moça queixou-se, mas com brandura, e concluiu pedindo-lhe que fosse vê-la à roça, ao menos por dois dias, visto que o pai resolvera lá ficar mais quatro meses, além do prazo marcado para a volta.
Era difícil ao filho do comendador ir lá ter sem oposição do pai. Imaginou porém um meio bom; inventou um cliente e um processo, ambos os quais o digno comendador engoliu, cheio de satisfação.
João Aguiar partiu para a roça.
Ia por dois dias apenas; os dois dias correm nas delícias que o leitor pode imaginar, mas com uma sombra, uma coisa inexplicável. João Aguiar, ou porque aborrecesse a roça ou porque amasse demais a cidade, sentia-se um pouco tolhido ou não sei que seja. No fim de dois dias desejava ver-se outra vez no bulício da corte. Felizmente, Cecília procurava compensar-lhe os tédios do lugar, mas parece que era excessiva nas mostras de amor que lhe dava, pois o digno bacharel dava sinais de impaciência.
— Serafina tem mais comedimento, dizia ele.
No quarto dia escreveu uma carta à filha do desembargador, que lhe respondeu com outra, e se eu disser à leitora que tanto um como outro beijaram as cartas recebidas, a leitora verá que a história se aproxima do fim e que a catástrofe está próxima. Catástrofe, na verdade, e terrível foi a descoberta que tanto o bacharel como a filha do desembargador fizeram de que se amavam e já de longos dias. Foi principalmente a ausência que lhes confirmou a descoberta. Os dois confidentes aceitaram esta novidade um pouco perplexos, mas muito contentes.
A alegria era travada de remorso. Havia dois embaçados, a quem eles fizeram grandes protestos e juramentos repetidos.
João Aguiar não resistiu ao novo impulso do coração. A imagem da moça, sempre presente, fazia-lhe tudo cor-de-rosa.
Serafina, porém, resistiu; a dor que ia causar no ânimo de Tavares deu-lhe forças para calar o seu próprio coração.
Em conseqüência disto, começou a evitar toda a ocasião de encontro com o jovem bacharel. Isto e lançar lenha ao fogo era a mesma coisa. João Aguiar sentiu um obstáculo com que não contava, o amor cresceu-lhe e apoderou-se dele.
Não contava com o tempo e o coração da moça.
A resistência de Serafina durou o que duram as resistências de quem ama. Serafina amava; no fim de quinze dias abateu as armas. Tavares e Cecília estavam vencidos. Eu desisto de dizer ao leitor o abalo produzido naquelas duas almas pela ingratidão e perfídia dos dois felizes namorados. Tavares enfureceu-se e Cecília definhou longo tempo; afinal Cecília casou e Tavares está diretor de companhia.
Não há dor eterna.
— Bem dizia eu! exclamou o comendador quando o filho lhe impetrou licença para ir pedir a mão de Serafina. Bem dizia eu que vocês deviam casar! Custou muito! — Alguma coisa.
— Mas agora?
— Definitivo.
Casaram-se há alguns anos aqueles dois confidentes. Recusaram fazer à força aquilo que o coração lhes indicou depois.
Há de ser duradouro o casamento.
ASSIS, Machado de. Longe dos olhos.... Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1876.