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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

No dia seguinte foi ele jantar à Rua dos Inválidos. Achou a viúva menos consternada do que deveria estar, à vista das notícias da véspera, se porventura os sucessos da guerra a preocupassem tanto como dizia. Pareceu-lhe até mais serena. Ela ia e vinha com um ar satisfeito e resoluto. Tinha um sorriso para cada cousa que ouvia, um carinho, uma familiaridade, uma intenção de agradar e seduzir, que Luís Garcia estudava com os olhos agudos da suspeita.

Jorge, pelo contrário, mostrava-se retraído e mudo. Luís Garcia, à mesa do jantar, examinava-lhe a furto a expressão dos olhos tristes e a ruga desenhada entre as sobrancelhas, gesto que indicava nele o despeito e a irritação. Na verdade, era duro enviar para a guerra um dos mais belos ornamentos da paz. Naqueles olhos não morava habitualmente a tristeza, é certo, mas eles eram, de costume, brandos e pacíficos. A mão fina pedia antes a bengala que a espada. Um bigode negro e basto, obra comum da natureza e do cabeleireiro, cobria-lhe o lábio e dava ao rosto a expressão viril que este não tinha. A estatura esbelta e nobre era a única feição que absolutamente podia ser militar. Elegante, ocupava Jorge um dos primeiros lugares entre os dandies da Rua do Ouvidor; ali podia ter nascido, ali poderia talvez morrer.

Valéria acertava quando dizia não achar no filho nenhum amor à profissão de advogado. Jorge sabia muita cousa do que aprendera; tinha inteligência pronta, rápida compreensão e memória vivíssima. Não era profundo; abrangia mais do que penetrava. Sobretudo, era uma inteligência teórica; para ele, o praxista representava o bárbaro. Possuindo muitos bens, que lhe davam para viver à farta, empregava uma partícula do tempo em advogar o menos que podia — apenas o bastante para ter o nome no portal do escritório e no almanaque de Laemmert. Nenhuma experiência contrastava nele os ímpetos da juventude e os arroubos da imaginação. A imaginação era o seu lado fraco, porque não a tinha criadora e límpida, mas vaga, tumultuosa e estéril, dessa que dá ao escrito a indecisão dos contornos, e à vida a confusão dos atos. Era generoso e bom, mas padecia um pouco de fatuidade, vício de terceira ordem que diminui a bondade nativa. Havia ali a massa de um homem futuro, à espera que os anos, cuja ação é lenta, oportuna e inevitável, lhe dessem fixidez ao caráter e virilidade à razão.

Não foi alegre nem animado o jantar. Falaram a princípio de cousas indiferentes; depois Valéria fez recair a conversação nas últimas notícias do Paraguai. Luís Garcia declarou que lhe não pareciam tão más, como diziam as gazetas, sem contudo negar que se tratava de um sério revés.

— É guerra para seis meses, concluiu ele.

— Só?

Esta pergunta foi a primeira de Jorge, que até então não fizera mais do que ouvir e comer. Valéria tomou a outra ponta do diário, e confirmou a opinião de Luís Garcia. Mas o filho continuou a não intervir. Acabado o jantar, Valéria ergueu-se; Luís Garcia fez o mesmo; mas a viúva, pousando-lhe a mão no ombro, disse em tom familiar e intencional: Sem cerimônia; eu volto já.

Uma vez sós os dous homens, Luís Garcia achou de bom aviso ir de ponto em branco ao assunto que ali os reunira.

— Não tem vontade de ir também ao Paraguai? perguntou ele logo que Valéria desapareceu no corredor.

— Nenhuma. Contudo, acabarei por aí.

— Sim?

— Mamãe não deseja outra cousa, e o senhor mesmo sei que é dessa opinião.

Uma resposta negativa roçou os lábios de Luís Garcia; a tempo a reprimiu, confirmando com o silêncio a pia fraude de Valéria. Tinha nas mãos o meio de inutilizar o efeito do equívoco: era mostrar-se indiferente. Jorge distraía-se em equilibrar um palito na borda de um cálice; o interlocutor, depois de olhar para ele, rompeu enfim a larga pausa:

— Mas por que motivo cede hoje, depois de recusar tanto tempo?

Jorge ergueu os olhos, sem dizer palavra, mas desejoso de referir tudo. Venceu-o o desejo. A um sinal de Jorge, acompanhou-o Luís Garcia até o terraço. Entrados no terraço, Jorge não pôde ter mão à língua. — O senhor é amigo velho de nossa casa, disse ele; posso confiar-lhe tudo. Mamãe quer mandar-me para a guerra, porque não pode obstar os movimentos do meu coração.

— Algum namoro, concluiu friamente Luís Garcia.

— Uma paixão.

— Está certo do que diz?

— Estou.

— Não creio, tornou Luís Garcia depois de um instante.

— Por que não? Ela conta com a distância e o tempo, para matar um amor que supõe não haver criado raízes profundas.

Luís Garcia dera alguns passos, acompanhado pelo filho de Valéria; parou um instante, depois continuaram ambos a passear de um para outro lado. O primeiro refletia na explicação, que lhe pareceu verossímil, se o amor do rapaz era indigno de seu nome. Essa pergunta não se animou a fazê-la; mas procurou uma vereda tortuosa para ir dar com ela. — Uma viagem à Europa, observou Luís Garcia depois de curto silêncio, produziria o mesmo resultado, sem outro risco mais que...

— Recusei a viagem, foi então que ela pensou na guerra.

— Mas se ela quisesse ir à Europa, o senhor recusaria acompanhá-la?

(continua...)

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