Por Machado de Assis (1900)
E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos e ele tem o recenseamento.
IV
Agora uma página de luto. Nem tudo foram flores e alegrias durante a quinzena. As musas receberam um golpe cruel.
Veio do Norte a notícia de haver falecido o Dr. Gentil Homem de Almeida Braga. Todos os homens de gosto e cultores de letras pátrias sentiram o desaparecimento desse notabilíssimo que o destino fez nascer na pátria de Gonçalves Dias para no-lo roubar com a mesma idade com que nos arrebatou o grande poeta.
Poeta também e prosador de elevado merecimento, o Dr. Gentil Homem de Almeida Braga, deixou algumas páginas, —poucas em número, mas verdadeiros títulos, que honram o seu nome e nos fazem lembrar dele.
O Dr. Gentil Homem nas letras pátrias era conhecido pelo pseudônimo de Flávio Reimar. Com ele assinou belas páginas literárias, como o livro Entre o Céu e a Terra, livro que exprime bem o seu talento original e refletido. Deixou, segundo as folhas do Maranhão, a tradução da Evangelinez, de Longfellow. Deve ser um primor. J. Serra já há meses nos deu na Reforma um excelente espécimen desse trabalho.
Perdemo-lo; ele foi, prosador e poeta, dormir o sono eterno que já fechou os olhos de Lisboa e Odorico. Guardemos os seus escritos enriqueçamos com eles o pecúlio comum.
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[15 setembro]
ESTE ANO parece que remoçou o aniversário da Independência. Também os aniversários envelhecem ou adoecem, até que se desvanecem ou perecem. O dia 7 por ora está muito criança.
Houve realmente mais entusiasmo este ano. Uma sociedade nova veio festejara data memorável; e da emulação que houver entre as duas só teremos que lucrar todos nós.
Nós temos fibra patriótica; mas um estimulante de longe em longe não faz mal a ninguém. Há anos em que as províncias nos levam vantagem nesse particular; e eu creio que isso vem de haver por lá mais pureza de costumes ou não sei que outro motivo. Algum há de haver. Folgo de dizer que este ano não foi assim. As iluminações foram brilhantes, e quanto povo nas ruas, suponho que todos os dez ou doze milhões que nos dá a Repartição de Estatística estavam concentrados nos largos de S. Francisco e da Constituição e ruas adjacentes. Não morreu, nem pode morrer a lembrança do grito do Ipiranga.
II
Grito do Ipiranga? Isso era bom antes de um nobre amigo, que veio reclamar pela Gazeta de Notícias contra essa lenda de meio século.
Segundo o ilustrado paulista não houve nem grito nem Ipiranga.
Houve algumas palavras, entre elas a Independência ou Morte, —as quais todas foram proferidas em lugar diferente das margens do Ipiranga.
Pondera o meu amigo que não convém, a tão curta distância, desnaturar a verdade dos fatos.
Ninguém ignora a que estado reduziram a História Romana alguns autores alemães, cuja pena, semelhante a uma picareta, desbastou os inventos de dezoito séculos, não nos deixando mais que uma certa porção de sucessos exatos.
Vá feito! O tempo decorrido era longo e a tradição estava arraigada como uma idéia fixa.
Demais, que Numa Pompílio houvesse ou não existido é coisa que não altera sensivelmente a moderna civilização.
Certamente é belo que Lucrécia haja dado um exemplo de castidade às senhoras de todos os tempos; mas se os escavadores modernos me provarem que Lucrécia é uma ficção e Tarquínio uma hipótese, nem por isso deixa de haver castidade...e pretendentes.
Mas isso é história antiga.
O caso do Ipiranga data de ontem. Durante cinqüenta e quatro anos temos vindo a repetir uma coisa que o dito meu amigo declara não ter existido.
Houve resolução do Príncipe D. Pedro, independência e o mais; mas não foi positivamente um grito, nem ele se deu nas margens do célebre ribeiro.
Lá se vão as páginas dos historiadores; e isso é o menos.
Emendam-se as futuras edições. Mas os versos? Os versos emendam-se com muito menos facilidade.
Minha opinião é que a lenda é melhor do que a história autêntica. A lenda resumia todo o fato da independência nacional, ao passo que a versão exata o reduz a uma coisa vaga e anônima. Tenha paciência o meu ilustrado amigo. Eu prefiro o grito do Ipiranga; é mais sumário, mais bonito e mais genérico.
III
Não foi igualmente bonito nem sumário o rolo do Largo de São Francisco, no dia 8. O referido rolo, verdadeiro hors-d'oeuvre na festa, foi uma representação da guerra do Oriente. Os urbanos fizeram de sérvios e os imperiais marinheiros de turcos.
A estação do largo foi a Belgrado.
Assim distribuídos os papéis, começou a pancadaria, que acabou por deixar 19 homens fora de combate.
Não tendo havido ensaio, foi a representação excelente pela precisão dos movimentos, naturalidade do alvoroço, e verossimilhança dos ferimentos.
Só numa coisa a reprodução não foi perfeita: é que os telegramas da Belgrado de cá confessam as perdas, coisa que os da Belgrado de lá nem à mão de Deus Padre querem confessar.
IV
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, s.d.