Por Machado de Assis (1867)
Os primeiros dias passaram-se sem notável incidente. César mais enleado, Francisca mais melancólica, viviam os dois em tal estranheza que faria desesperar finalmente a César, se lhe não ocorresse uma idéia.
César entendeu que a sua frieza calculada não seria um meio de conciliação. Um dia resolveu depor a máscara e mostrar-se o que era, marido dedicado, amante extremoso, isto é, o que era no fundo, quando o coração de Francisca, enganado por algumas ilusões luminosas, cuidava ainda em pôr na volta do antigo amor uma esperança indiscreta e mal fundada.
Francisca, ao principio, recebeu com a habitual indiferença as demonstrações de afeto de seu marido; mais tarde, ao passo que o desengano lhe cicatrizava a ferida do coração, o sorriso aparecia-lhe nos lábios, ainda como uma réstia de sol em céu de inverno, mas já núncio de melhores dias.
César não descansava; buscava no amor o segredo de todos quantos carinhos podia empregar sem quebra da dignidade conjugal. Fugiu a todas as distrações e consagrou-se inteiro ao serviço da conversão daquela alma. Ela era boa, terna, sincera, capaz de amar e de o fazer feliz. A nuvem negra que ensombrara o céu conjugal desaparecera, mal restavam uns restos que o vento da prosperidade atiraria para longe... Tais, eram as reflexões de César, e ele concluía que, em vez de ameaçar e pungir, o melhor era dissipar e persuadir.
Dia a dia a lembrança do amor de Daniel apagava-se no espírito de Francisca. Com a paz interna renasciam as graças exteriores. Francisca tornava-se outra, e neste trabalho lento de transformação, à proporção que a última ilusão indiscreta do amor antigo deixava o coração da moça, entrava ali a primeira ilusão santa e legítima do amor conjugal. Um dia, sem se aperceberem, César e Francisca amavam-se como dois namorados que amam pela primeira vez. César tinha vencido. O nome de Daniel foi pronunciado entre ambos, sem saudades por Francisca, sem ressentimento por César. Mas que vitória foi esta? Quantas vezes César não se envergonhou do trabalho da conversão a que se aplicava todo! Parecia-lhe que se aviltava, conquistando palmo a palmo um coração que cuidara receber virgem das mãos do velho pai de Francisca, e entrando nossa luta em pé de igualdade com o amor de um estranho. Desta situação delicada acusava ele principalmente o pai de sua esposa, a quem não faltou meio de tornar duas pessoas felizes, sem tornar um terceiro desgraçado. É certo que, quando César viu-se amado por Francisca, a situação pareceu-lhe outra e ele agradeceu inteiramente o erro que antes acusava. Então possuía a ternura, o carinho, a dedicação, a afeição sincera e decidida da moça. A alma de Francisca, sequiosa de amor, encontrou por fim, no lar doméstico, o que tantas lágrimas não tinham podido obter. Dizer que este casal viveu feliz durante o resto de sua vida, é repetir um chavão de todas as novelas, mas enfim, é dizer a verdade.
E eu acrescentarei uma prova, pela qual se verá também uma coisa difícil de acreditar. Anos depois das ligeiras cenas que narrei, Daniel voltou ao Rio e encontrou-se de novo com César e Francisca.
Sinto não poder conservar ao jovem poeta o caráter elevado e político; mas não me posso furtar a dizer que Daniel sofrera a ação do tempo e do contacto dos homens. O tempo fê lo sair daquela esfera ideal em que o colocara o gênio da mocidade e o amor de Francisca; o contacto dos homens completou a transformação; Daniel, sob a influência de outros tempos, outras circunstâncias, e outras relações, mudou de feição moral. Voltando ao lugar do idílio e da catástrofe do seu coração, trouxe dentro de si novos sentimentos. Certa vaidade, certa altivez davam-lhe outro ar, outras maneiras, outro modo de ver as coisas e tratar os homens.
Bem sei que seria melhor para o leitor que aprecia as ilusões do romance, fazer acabar o meu herói no meio de uma tempestade, lançando ao mundo a última imprecação e ao céu o último suspiro do seu gênio.
Isto seria mais bonito e seria menos verdadeiro.
Mas o que se dá com o nosso Daniel é coisa inteiramente oposta, e eu prefiro contar a verdade a lisonjear o gosto poético dos leitores.
No tempo em que Daniel voltou ao Rio, Francisca estava então no esplendor da beleza: perdera o aspecto virginal dos primeiros tempos; era agora a mulher completa, sedutora, embriagadora.
Daniel sentiu renascer-lhe o amor de outro tempo, ou antes sentiu nascer-lhe um novo amor, diverso do antigo, e não atendeu às dúvidas que um dedo de razão lhe sugeria. A vaidade e os sentidos o perderam.
De volta de um baile, em que Daniel estivera, disse Francisca a César: — Sabes que tenho um namorado?
— Quem é?
— Daniel.
— Ah!
— Lê este bilhete.
Francisca deu a César um bilhete. César leu-o para si. Daniel até perdera a qualidade de poeta; o estilo ressentia-se das transformações morais.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Francisca. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.