Por Machado de Assis (1866)
A felicidade que isto me deu desviou-me da prudência com que eu sempre me houvera. Não me pude conter. Fitando nos belos olhos da moça um olhar que devia ser profundo e terno como o amor que eu já sentia, disse estas palavras:
— Oh! obrigado! obrigado!
Nisto chegamos à porta.
A moça, admirada ao ouvir aquele agradecimento e não compreendendo a razão dele, olhou para mim admirada. Ia articular alguma coisa, mas eu deixando-a entrar fui voltear a casa e procurar o meu quarto.
Não sei por que, quando me achei só, senti que as lágrimas me rebentavam dos olhos. Amava, eis a razão. Mas, sem a certeza de ser amado, por que me consideraria feliz? Há duas razões para isto.
Uma prova a natureza, elevada do amor. Como tinha eu um ideal, Ângela era o objeto em que o meu ideal tomava corpo. Bastava tê-la encontrado, bastava amá-la e era feliz. A outra razão era de egoísmo. Uma vez que ela não amasse o outro, era o que eu pedia naquele instante. Que viesse a mim com a virgindade do coração, que estivesse pura do menor pensamento de amor que fosse, enfim, que eu pudesse ser o primeiro que lhe aspirasse o perfume das ilusões inocentes, tal era o meu desejo e a minha aspiração. Duas horas estive encerrado no meu quarto. Preparava-me para sair e cheguei à janela. Ângela estava assentada debaixo de uma latada que havia ao lado da casa. Tinha na mão um livro aberto, mas via-se bem que não lia. Os olhos erravam do livro para o chão, com evidentes sinais de que lhe errava no espírito alguma coisa. Só no espírito? Não podia ser ainda no coração; era um primeiro sintoma; não era ainda o acontecimento da minha vida.
Procurei não fazer rumor algum e contemplá-la sem que ela me visse. Recuei, corri as cortinas e por uma fresta cravei os olhos na moça.
Correram assim alguns minutos.
Ângela fechou o livro e levantou-se.
Recuei mais e deixei as cortinas totalmente fechadas.
Quando voltei a espreitar a linda pensativa, vi que ela saía em direção da frente da casa, sem dúvida para entrar, visto que um mormaço de verão começava a aquecer o ar. Ao abrir o chapelinho de sol para resguardá-la do mormaço, levantou os olhos e deu comigo. Não pude recuar a tempo: ela sorriu-se e aproximando-se da janela perguntou: — Que faz aí?
Abri completamente as cortinas e debrucei-me à janela.
Minha resposta foi uma pergunta:
— Que fazia ali?
Ela não respondeu, baixou os olhos e calou-se.
Depois, voltando de novo para mim, disse:
— Vou para a sala. Papaizinho está lá?
— Não sei, respondi eu.
— Até já.
E foi caminho.
Entrei.
Quis deitar-me no sofá e ler; cheguei mesmo a tirar um livro; mas não pude; não sei que ímã me atraía para fora.
Saí do quarto.
Ângela estava na sala, ao pé da janela, diante de um bastidor de bordar que lhe dera o tio no dia em que completou dezessete anos.
Aproximei-me dela.
— Ora viva, sr. misantropo...
— Misantropo?
A conversa começava assim às mil maravilhas. Peguei em uma cadeira, e fui sentar-me defronte de Ângela.
— Parece.
— Tenho razão para sê-lo.
— Que razão?
— É uma história longa. Se eu lhe contasse a minha vida ficava convencida de que não posso ser tão comunicativo como os outros. E depois...
Parecia-me fácil declarar à menina os meus sentimentos; entretanto, tomava-me de um tal acanhamento e receio em presença dela, que não podia articular uma palavra positiva que fosse.
Nada mais disse.
Deitei os olhos para o bastidor e vi que ela bordava um lenço.
Ficamos silenciosos alguns minutos. Depois, como fosse aquele silêncio embaraçoso, perguntei:
— Quem é aquele Azevedinho?
E firmando o olhar nela procurei descobrir a impressão que esta pergunta lhe produzira. O que descobri foi que as faces se lhe tornavam vermelhas; levantou os olhos e respondeu-me:
— É um rapaz...
— Isso eu sei.
— É um rapaz lá do conhecimento de minha tia.
— Não entendeu a minha pergunta. Eu perguntava que opinião forma dele? — Nenhuma: é um rapaz.
De risonho tomei-me sério. Que explicação tiraria daquela vermelhidão e daquelas respostas evasivas?
Ângela continuou a bordar.
— Por que me faz essas perguntas? disse ela.
— Ah! por nada... por nada...
Havia em mim um pouco de despeito. Quis mostrar-lho francamente. — Ora por que há de tomar esse ar sério?
— Sério? Não vê que estou rindo?
Devia ser muito amargo o riso que eu afetava, porque ela, reparando em mim, deixou de bordar, e pondo-me a mão no braço, disse:
— Oh! perdão! eu não disse por mal... estou brincando...
O tom destas palavras desarmou-me.
— Nem eu me zanguei, respondi.
Ângela continuou a falar, bordando:
— O Azevedinho ia lá por casa de minha tia, onde conheceu meu pai e meu tio. É um bom moço, conversa muito comigo, é muito meigo e alegre.
— Que lhe costuma ele dizer?
— Falsidades... Diz que sou bonita.
— Grande falsidade!
(continua...)
ASSIS, Machado de. Felicidade pelo casamento. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1866.