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#Contos#Literatura Brasileira

Ernesto de Tal

Por Machado de Assis (1869)

Infelizmente a tática deste namorado, era perguntar à própria moça se eram fundadas as suspeitas dele, ao que ela respondia vivamente que não, e isto bastava a restituir-lhe a paz do espírito. Não era longa nem profunda a quietação: o laconismo epistolar de Rosina, a frieza de seus modos, a presença do outro, tudo isso sombreava singularmente o espírito de Ernesto. Mas tão depressa caía no abismo do desespero, como ascendia às regiões da celeste bem-aventurança — mostrando assim o que a natureza queria que ele fosse — alma inconsistente e passiva — levada, como a folha, ao sabor de todos os ventos. 

Entretanto, era difícil que a verdade não se lhe metesse pelos olhos. Um dia reparou que além da suspeitosa afetuosidade de Rosina, havia da parte do tio certas atenções características para com o rival. Não se enganava: conquanto o novo pretendente ainda não houvesse pedido formalmente a mão da moça, era quase certo para o sr. Vieira que nele se preparava novo sobrinho, e acertando de ser este um homem do comércio, não podia haver, na opinião do tio, mais feliz escolha. 

Desisto de pintar os desesperos, os terrores, as imprecações de Ernesto no dia em que a certeza da derrota mais funda e de raiz se lhe cravou no coração. Já então lhe não bastou a negativa de Rosina, que aliás lhe pareceu frouxa, e efetivamente o era. O triste moço chegou a desconfiar que a amada e o rival estariam de acordo para mofar dele. 

Como por via de regra, é da nossa miserável condição que o amor-próprio domine o simples amor, apenas aquela suspeita lhe pareceu provável, apoderou-se dele uma feroz indignação, e duvido que nenhum quinto ato de melodrama ostente maior soma de sangue derramado do que ele verteu na fantasia. Na fantasia, apenas, compassiva leitora, não só porque ele era incapaz de fazer mal a um seu semelhante, mas sobretudo porque repugnava à sua natureza achar uma resolução qualquer. Por esse motivo, depois de muito e longo cogitar, confiou todos os seus pesares e suspeitas ao companheiro de casa e pediu-lhe um conselho: Jorge deu lhe dois. 

— Minha opinião, disse Jorge, é que não te importes com ela e vás trabalhar, que é coisa mais séria. 

— Nunca! 

— Nunca trabalhar? 

— Não; nunca esquecê-la. 

— Bem, disse Jorge descalçando a bota do pé esquerdo, nesse caso vai ter com esse sujeito de quem desconfias e entende-te com ele. 

— Aceito! exclamou Ernesto; é o melhor. Mas, continuou ele depois de refletir um instante, e se ele não for meu rival, que hei de fazer? como descobrir se há outro? 

— Nesse caso, disse Jorge, estendendo-se filosoficamente na marquesa, nesse caso o meu conselho é que tu, ele e ela vão todos para o diabo que os carregue. 

Ernesto cerrou os ouvidos à blasfêmia, vestiu-se e saiu.

CAPÍTULO V 

Apenas saiu à rua embicou Ernesto para a casa em que trabalhava o rapaz de nariz comprido, resolvido a explicar-se de uma vez com ele. Hesitou alguma coisa, é verdade, e esteve a pique de arrepiar carreira; mas a crise era tão violenta que triunfou da frouxidão de ânimo, e vinte minutos depois chegava ele ao seu destino. Não entrou no escritório do rival; pôs-se a passear de um lado para outro, à espera que ele saísse, o que se verificou daí a três quartos de hora, três enfadonhos e mortais quartos de hora. 

Ernesto aproximou-se casualmente do rival; cumprimentaram-se com um sorriso acanhado e amarelo, e ficaram alguns segundos a olhar um para o outro. Já o guarda-livros ia tirando o chapéu e despedindo-se, quando Ernesto lhe perguntou: 

— Vai hoje à Rua do Conde? 

— Talvez. 

— A que horas? 

— Não sei ainda. Por quê? 

— Iríamos juntos. Eu vou às oito. 

O rapaz de nariz comprido não respondeu. 

— Para que lado vai agora? perguntou Ernesto depois de algum silêncio. — Vou ao Passeio Público, se o senhor lá não for, respondeu resolutamente o rival. 

Ernesto empalideceu. 

— Quer assim fugir de mim? 

— Sim, senhor. 

— Pois eu não; desejo até que haja uma explicação entre nós. Espere... não me volte as costas. Saiba que eu também sou atrevido, menos de língua ainda que de mão. Vamos, dê-me o braço e caminhemos ao Passeio Público. 

O rapaz de nariz comprido teve ímpetos de atracar-se com o rival e experimentar-lhe as forças; mas estavam numa rua comercial; todo o seu futuro voaria pelos ares. Preferiu dar-lhe as costas e seguir caminho. Executava já este plano, quando Ernesto lhe gritou: 

— Venha cá, namorado sem ventura! 

O pobre rapaz voltou-se rapidamente. 

— Que diz o senhor? perguntou ele. 

— Namorado sem ventura, repetiu Ernesto cravando os olhos no rosto do rival a ver se lhe descobria uma confissão qualquer. 

— É singular, replicou o rapaz de nariz comprido, é singular que o senhor me chame namorado sem ventura, quando ninguém ignora a triste figura que tem feito para obter as boas graças de uma moça que é minha... 

— Sua! 

— Minha!

— Nossa, direi eu... 

— Senhor! 

(continua...)

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