Por Machado de Assis (1876)
Houve um curto instante de silêncio entre ambos. O padre parecia hesitar na resposta que o sobrinho lhe pedia, e que desejava dar. Tinha a tapar-lhe a boca certa ordem de conveniências; mas o padre queria explicar tudo, e rapidamente refletiu que no que ia dizer nada havia que, em rigor, se pudesse censurar.
— Os meus sonhos são dois, disse ele enfim. O primeiro é que o Pedro tome ordens; o segundo...
Estacou de novo sorrindo; mas desta vez foi interrogado somente pelos olhos do sobrinho.
— Dize-me primeiro... amas a tua prima ? Não precisas corar; é amor legítimo, santo e puro. Os meus dois sonhos são esses; fazer do Pedro um sacerdote, e de ti marido de
minha Lulu. Cada um seguirá a sua vocação; tu serás excelente esposo, e ele excelente padre.
Alexandre ouviu calado a explicação do tio. Este levantou-se, um pouco acanhado com o silêncio do sobrinho, e foi colocar o livro na estante. Ia repetir a interrogação, quando Lulu assomou à porta. O rumor dos passos da moça fez estremecer Alexandre, e o acordou da meditação em que ficara. O padre pôs os olhos na sobrinha, uns olhos ternos e paternais; chamou-a a si, sem lhe dizer nada e apertadamente a abraçou. Lulu não compreendeu logo o motivo daquela expansão do tio; mas o silêncio acanhado de Alexandre mais ou menos lhe deu idéia do que se havia passado. Sorriu então, e toda a sua alma se lhe entornou dos olhos em um olhar de agradecimento e de amor.
V
Naquela mesma tarde, dirigiu-se Pedro à casa do padre Sá, levando na ponta da língua uma lição latina que o padre lhe dera na véspera, e saboreando de antemão os aplausos do mestre. Ia lépido e risonho, pela Gamboa fora, com a alma ainda mais azul do que estava o céu naquele momento, e o coração a bater-lhe tão forte como as vagas na areia da praia. O padre Sá, se o visse naquele estado, se pudesse adivinhar todo o júbilo daquele coração, daria graças ao céu pela rara pérola que lhe fora dado achar para a coroa mística da Igreja.
Entretanto, o discípulo tinha outra cara, quando ali entrou. A comoção ou acanhamento ou o que quer que fosse tirava-lhe o tom expansivo do semblante.
— Ora, venha cá, meu futuro bispo! exclamou o padre Sá, logo que o viu entrar; — não core que ainda o há de ser, se tiver juízo e Deus o ajudar. Resposta, nenhuma? — Nenhuma.
— Oh! mas eu estou certo de que há de ser favorável. Seu tio é homem de juízo. Pedro fez um gesto de assentimento, e estendeu a mão à sobrinha do padre que entrava nesse momento no gabinete. A moça assistiu à lição de Pedro; e a sua presença foi antes prejudicial que benéfica. O discípulo sentiu-se acanhado, esqueceu o que sabia, e recebeu alguns conselhos paternais do padre, sem ousar dar nenhuma desculpa. — Não o censure, titio, disse a moça; fui eu a causa de alguns esquecimentos do sr. Mendes; devia ter-me retirado.
— Oh! não! murmurou Pedro.
— Devia.
— Confesso que ontem não pude estudar a lição, disse Pedro com voz trêmula. — Basta, declarou enfim o padre; sair-se-á melhor amanhã.
Havia já dois meses que o filho de D. Emiliana freqüentava a casa do padre Sá, e ia regularmente receber as lições que ele lhe dava. A compostura do moço era exemplar; o gosto com que o ouvia, a facilidade com que retinha o que ele lhe ensinava, a vocação enfim que o padre lhe achou, foram outros tantos laços que mais intimamente os prenderam, um ao outro. Além daquelas qualidades, Pedro era bom conversador, dotado de maneiras afáveis, e tinha a pachorra (dizia o padre Sá) de aturar uma companhia aborrecida como a dele.
Verdade é que a companhia era aumentada com a de Lulu, que, se raras vezes assistia às lições do moço, vinha conversar com eles o resto do tempo, bem como Alexandre que um dia teve igualmente idéia de acompanhar o curso particular do padre Sá. O padre deliciava-se com aquele quadro; e as suas lições de filosofia ou de história sacra, de teologia ou de latim, saíam-lhe menos da cabeça que do coração.
É de crer que se o padre Sá soubesse que o seu discípulo Pedro, futuro bispo, gastava alguma hora vaga na leitura do Gil Brás ou outros livros menos piedosos, é de crer, digo eu, que lhe fizesse amigável repreensão; mas o padre nada via nem sabia; e o discípulo não ia mal de todo. Demais, um por um ia-lhe Pedro lendo grande número de seus livros, que eram todos de boa doutrina e muita piedade. Ultimamente emprestara-lhe um Santo
Agostinho; Pedro devorara-o e deu boa conta de suas impressões. A alegria do padre era sem mescla.
Naquela tarde, não houve trovoada; Pedro conservou-se lá até a noite. Às ave-marias chegou Alexandre; os dois moços estavam ligados pela afeição do mestre e tal ou qual analogia de sentimentos. Alexandre deu os parabéns a Pedro, que os recebeu com um modo modesto e grave. Saíram juntos, mau grado os olhares de Lulu, que pediam ao primo ficasse alguns minutos mais.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Encher tempo. 1876.