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#Contos#Literatura Brasileira

Dívida Extinta

Por Machado de Assis (1878)

— Venha cá, disse; resolvamos primeiro este negócio. 

— Resolver o quê?

— Quer então ficar mal comigo? 

Anacleto ergueu secamente os ombros. 

— Quer a luta? tornou o outro. Pois lutaremos, pelintra! 

— Não luto com jarretas! 

— Tolo! 

— Malcriado! 

— Sai daqui, pateta! 

— Saio, sim; mas não é por causa de seus berros, ouviu? 

— Gabola! 

— Grosseirão! 

Anacleto saiu; o primo soltou-lhe ainda um adjetivo através das persianas, a que ele respondeu com outro, e foi o último. 

Adriano, logo que ficou só, aplacou a cólera com uma pitada, monologou um pouco e refletiu longo tempo. De todas as injúrias que o primo lhe dissera, a que mais o impressionou foi o epíteto de jarreta, evidentemente cabido. Adriano viu-se ao espelho e concluiu que, efetivamente, uma gravata com menos voltas não lhe iria mal. A roupa, em vez de comprada em um adelo, podia ser mandada fazer por algum alfaiate. Só não sacrificou ao chapéu branco. 

O chapéu branco é a pacholice do vestuário, disse ele. 

Depois, lembrou-se de Carlota, de seus olhos negros, dos gestos de desdém que lhe fazia quando ele lhe cravava uns olhos mortos. Seu coração palpitava com uma força incrível; era amor, cólera, despeito, desejo de triunfar. O sono dessa noite foi entremeado de sonhos agradáveis e terríveis pesadelos. Um destes foi imenso. Adriano sonhou que o primo lhe arrancava os olhos com a ponta da bengala, depois de lhe pôr na cara o par de botas, em um dia de chuva miúda, testemunha desse espetáculo, que fazia lembrar os mais belos dias de Calígula; Carlota ria às gargalhadas. O pregão de uma quitandeira arrancou-o felizmente ao suplício; eram sete horas da manhã. 

Adriano não perdeu tempo. Logo nesse dia tratou de melhorar a toilette, abrindo um pouco os cordões da bolsa. A que não obriga o amor? Adriano encomendou umas calças menos irrisórias, um paletó mais sociável; muniu-se de outro chapéu; sacrificou os sapatos de dois mil e qui-nhentos. Quando estes utensílios lhe foram entregues, Adriano investiu denodadamente à Praia da Gamboa, aonde não fora desde a noite do último encontro com Anacleto. 

Pela sua parte, o primo não perdera tempo. Não receava a competência de Adriano Fagundes, mas tinha para si que se desforraria das pretensões deste, apressando o casamento. E conquanto nada receasse do outro, de quando em quando lhe soava no coração a palavra imperiosa do primo, e, incerto das predileções de Carlota, não sabia às vezes em que daria o duelo. 

Vendo-o triste e preocupado, o boticário lembrou-se das palavras da sra. D. Leonarda, e, como tinha grande afeto ao sobrinho, sentia cócegas de lhe dizer alguma coisa, de o interrogar a respeito da mudança que lhe notava. Não se atrevia. A sra. D. Leonarda, com quem conferenciou a tal respeito, acudiu logo: 

— Não lhe dizia eu? Não é nada; são amores. O rapaz está pelo beiço... — Pelo beiço de quem? perguntou Bento Fagundes. 

— Isso... não sei... ou... não posso dizer... Há de ser ali para os lados da Gamboa... Bento Fagundes não pôde obter mais. Continuou aborrecido. Anacleto Monteiro não voltava a ser o que era antes; ele temia alguma pretensão mal acertada, e pensava já em intervir, se fosse caso disso e valesse a pena. 

— Que tens tu, rapaz? Andas melancólico... 

— Não tenho nada; ando constipado; dizia Anacleto Monteiro sem atrever-se a encarar o tio.

Metade dos motivos da constipação de Anacleto, já o leitor a conhece; a outra metade vou dizer-lha. 

Insistira o rapaz no casamento, Carlota continuava a negacear. A razão deste proceder explica-se dizendo que ela queria fazer-se rogada, prender mais fortemente o coração de Anacleto, despeitá-lo; e a razão da razão era que mais de uma vez prometera a mão, desde o primeiro dia, a sujeitos que não se lembravam mais de ir buscá-la. Carlota namorava desde os quinze anos e estava cansada de esperar um noivo. Agora, seu plano era despeitar o pretendente, certa de que os homens nada desejam mais ardentemente do que o amor que se lhes nega desde logo. Carlota era um principezinho de Metternich. Irritado com a recusa e o adiamento da moça, Anacleto cometeu um erro monumental: aventurou a idéia de que houvesse algum rival, e, negando-o ela, retorquiu o pascácio: — Tenho, tenho... Não há muitos dias escapei de me perder por sua causa. — Minha causa? 

— É verdade. Um bigorrilhas, que, por minha desgraça, é meu primo, espreitou-me uma noite inteira e depois foi provocar-me. 

— Sim? 

— Provocar-me, é verdade. Estivemos a ponto de pegar-nos. Ele escumava de raiva, chorava, rasgava-se, mas eu que lhe sou superior em tudo, não lhe dei trela e saí. — Ora essa! 

— Sabes o que me propôs? 

(continua...)

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