Por Machado de Assis (1861)
Volto já.
Cena VI
CLARA, PEDRO ALVES
PEDRO ALVES
Estou contentíssimo.
CLARA
Por quê?
PEDRO ALVES
Porque lhe demos uma lição.
CLARA
Ora, não seja mau!
PEDRO ALVES
Mau! Eu sou bom até demais. Não vê como ele me provoca a cada instante?
CLARA
Mas, quer que lhe diga uma coisa? É preciso acabar com essas provocações contínuas.
PEDRO ALVES
Pela minha parte, nada há; sabe que sou sempre procurado na minha gruta. Ora, não se toca impunemente no leão...
CLARA
Pois seja leão até a última, seja magnânimo.
PEDRO ALVES
Leão apaixonado e magnânimo? Se fosse por mim só, não duvidaria perdoar. Mas diante de V. Exa., por quem tenho presa a alma, é virtude superior às minhas forças. E, entretanto, V. Exa. obstina-se em achar-se razão.
CLARA
Nem sempre.
PEDRO ALVES
Mas vejamos, não é exigência minha, mas eu desejo, imploro, uma decisão definitiva da minha sorte. Quando se ama como eu amo, todo o paliativo é uma tortura que se não pode sofrer!
CLARA
Com que fogo se exprime! Que ardor, que entusiasmo!
PEDRO ALVES
É sempre assim. Zombeteira!
CLARA
Mas o que quer então?
PEDRO ALVES
Franqueza.
CLARA
Mesmo contra os seus interesses?
PEDRO ALVES
Mesmo... contra tudo.
CLARA
Reflita: prefere à dubiedade da situação, uma declaração franca que lhe vá destruir as suas mais queridas ilusões?
PEDRO ALVES
Prefiro isso a não saber se sou amado ou não.
CLARA
Admiro a sua força d'alma.
PEDRO ALVES
Eu sou o primeiro a admirar
CLARA
Desesperou alguma vez da sorte?
PEDRO ALVES
Nunca.
CLARA
Pois continue a confiar nela.
PEDRO ALVES
Até quando?
CLARA
Até um dia.
PEDRO ALVES
Que nunca há de chegar.
CLARA
Que está... muito breve.
PEDRO ALVES
Oh! meu Deus!
CLARA
Admirou-se?
PEDRO ALVES
Assusto-me com a idéia da felicidade. Deixe-me beijar a sua mão?
CLARA
A minha mão vale bem dois meses de espera e receio; não vale?
PEDRO ALVES
(enfiado)
Vale.
CLARA
(sem reparar)
Pode beijá-la! É o penhor dos esponsais.
PEDRO ALVES
(consigo)
Fui longe demais! (alto, beijando a mão de Clara) Este é o mais belo dia de minha vida!
Cena VII
CLARA, PEDRO ALVES, LUÍS
LUÍS
(entrando)
Ah!...
PEDRO ALVES
Chegou a propósito.
CLARA
Dou-lhe parte do meu casamento com o Sr. Pedro Alves.
PEDRO ALVES
O mais breve possível.
LUÍS
Os meus parabéns a ambos.
CLARA
A resolução foi um pouco súbita, mas nem por isso deixa de ser refletida.
LUÍS
Súbita, decerto, porque eu não contava com uma semelhante declaração neste momento. Quando são os desposórios?
CLARA
Pelos fins do verão, não, meu amigo?
PEDRO ALVES
(com importância)
Sim, pelos fins do verão.
CLARA
Faz-nos a honra de ser uma das testemunhas?
PEDRO ALVES
Oh! isso é demais.
LUÍS
Desculpe-me, mas eu não posso. Vou fazer uma viagem.
CLARA
Até onde?
LUÍS
Pretendo abjurar em qualquer cidade mourisca e fazer depois a peregrinação da Meca. Preenchido este dever de um bom maometano irei entre as tribos do deserto procurar a exceção que não encontrei ainda no nosso clima cristão.
CLARA
Tão longe, meu Deus! Parece-me que trabalhará debalde.
LUÍS
Vou tentar.
PEDRO ALVES
Mas tenta um sacrifício.
LUÍS
Não faz mal.
PEDRO ALVES
(a Clara, baixo)
Está doido!
CLARA
Mas virá despedir-se de nós?
LUÍS
Sem dúvida. (baixo a Pedro Alves) Curvo-me ao vencedor, mas consola-me a idéia de que, contra as suas previsões, paga as despesas da guerra. (alto) V. Exa. dá-me licença?
CLARA
Onde vai?
LUÍS
Retiro-me para casa.
CLARA
Não fica para jantar?
LUÍS
Vou aprontar a minha bagagem.
CLARA
Leva a lembrança dos amigos no fundo das malas, não?
LUÍS
Sim, minha senhora, ao lado de alguns volumes de Alphonse Karr.
SEGUNDA PARTE
Na Corte
(Uma sala em casa de Pedro Alves.)
Cena I
CLARA, PEDRO ALVES
PEDRO ALVES
(continua...)
ASSIS, Machado de. Desencantos: fantasia dramática. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1861.