Por Machado de Assis (1873)
Nesta preocupação andei até que fui levado outra vez à casa onde se passara a tragédia referida acima. A sala estava só; nem vestígio dos dois homens ilustres. O lampião estava a expiar. Sai aterrado e desci as escadas até chegar à porta onde achei a chave. Não dormi nessa noite; a madrugada veio surpreender-me com os olhos abertos, contemplando de memória o miserando caso da véspera.
Fui almoçar ao Carceller.
Qual não foi o meu espanto quando lá encontrei vivo e são aquele que eu supunha na eternidade?
— Venha cá, venha cá! disse ele. Por que saiu ontem de casa sem falar? — Mas... o senhor... pois César não o engoliu?
— Não. Esperei a hora fatal, e apenas ela passou, dei gritos de alegria e quis acordá-lo; mas o senhor dormia tão profundamente que achei melhor ir fazer o mesmo. — Céus! pois eu...
— Efeitos do charuto que lhe dei. Teve belos sonhos, não?
— Todos, não; sonhei que o gato o engolia...
— Ainda não... Agradeço-lhe a companhia; agora esperarei o ano que vem. Quer almoçar?
Almocei com o homem; no fim do almoço ofereceu-me ele um charuto, que eu recusei dizendo:
— Nada, meu caro; vi coisas terríveis esta noite...
— Falta de costume...
— Talvez.
Saí triste. Procurava um homem original e achei um maluco. Os de juízo são todos copiados uns dos outros. Consta-me até que aquele mesmo homem de Plutarco, freguês do Carceller, curado por um hábil médico, está agora tão comum como os outros. Acabou a originalidade com a maluquice. Tu quoque, Brute?
ASSIS, Machado de. Decadência de dois grandes homens. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1873.