Por Machado de Assis (1876)
— Sei eu, troou o comendador Lima indignado; sei que não tiveste força bastante para desanimar o pretendente. Casar! Não é demais senão casar! Com que havia ele de sustentar casa? Provavelmente com o que esperava receber de mim? De maneira que eu ajuntei para que um peralvilho, que não tem onde cair morto, venha desfrutar o que me custou a haver?
Lucinda sentiu duas lágrimas borbulharem-lhe nos olhos e fez menção de retirar-se. O pai reteve-a para lhe dizer em termos menos desabridos que ele não desaprovava nenhuma afeição que ela tivesse, mas que a vida não se compunha só de afeições, senão de interesses também e necessidades de toda a espécie.
— Esse tal Gaspar não é mau rapaz, concluiu o comendador, mas não tem posição digna de ti, nem futuro. Por ora tudo são flores; as flores passam depressa; e quando tu quiseres um vestido novo ou uma jóia, não hás de mandar à modista ou ao joalheiro um pedaço do coração de teu marido. São verdades que deves ter gravadas no espírito, em vez de te guiares somente por fantasias e sonhos. Ouviste?
Lucinda não respondeu.
— Ouviste? repetiu o comendador.
— Ouvi.
— Não basta ouvir, é necessário digerir, disse sentenciosamente o pai. E com este aforisma concluiu o diálogo — direi antes o monólogo, deixando na alma de Lucinda poucas esperanças de casamento, ao menos imediato como ela supunha e desejava que fosse. Tal é a explicação da tristeza e reserva com que recebeu o rapaz naquela noite. Facilmente se crê que Gaspar não saísse dali com a cara alegre. Nem acharei entre os leitores nenhum tão incrédulo que duvide de que o pobre namorado ficou tão fora de si, que não atinou com a maneira de abrir a porta, e afinal quebrou a chave, pelo que achou-se no meio da rua, à uma hora da noite, sem ter onde ir dormir. Sem casa nem esperanças, é suplício excessivo. Gaspar teve idéia de ir ter com Veloso e passar a noite com ele, derramando no seio do amigo todas as suas queixas, e tristezas. Só ao cabo de cinco minutos é que se lembrou de que o bacharel morava no Pedregulho. Consultou a algibeira cuja resposta foi a mais desanimadora possível. Nestas circunstâncias ocorreu-lhe a melhor solução que podia ter naquela crise: ir pedir pousada a D. Mônica. Ela morava na rua dos Inválidos e ele achava-se na rua do Conde. Embicou para lá, tão cheio de suas mágoas, que nem lhe lembravam as que podia ter causado à tia.
Ali chegando, foi-lhe facilmente aberta a porta. Um escravo dormia no corredor, e não teve dúvida em franquear-lhe a entrada desde que reconheceu a voz de Gaspar. Este contou ao escravo o que lhe acontecera.
— A vista disto, concluiu ele, arranja-me aí um lugar com que passe a noite, mas sem acordar titia.
D. Mônica tinha dois quartos trastejados para hóspedes; Gaspar foi acomodado em um deles.
V
A dona da casa ficou estupefacta no dia seguinte quando lhe deram conta do ocorrido. Em quaisquer outras circunstâncias, o caso lhe pareceria natural. Naquelas afigurou-se lhe extraordinário. Ao mesmo tempo ficou singularmente satisfeita.
— Não o deixes sair sem almoçar, disse ela ao escravo.
A ordem foi cumprida; e Gaspar viu-se obrigado a faltar à repartição porque D. Mônica que almoçava cedo, determinou que naquele dia se alterasse o costume. Não me atrevo a dizer que o fim da boa senhora fosse aquilo mesmo, mas tinha ares disso. Verdade seja que a demora podia explicar-se pela necessidade que ela tinha de vestir-se e toucar-se convenientemente.
— Oh! não preciso de explicações, disse ela quando à mesa do almoço Gaspar quis explicar-lhe a razão do incômodo que viera dar-lhe. Vieste, é quanto basta; sempre que vieres tens aqui casa e corações amigos.
Gaspar agradeceu e almoçou. Almoçou triste e preocupado. Não reparou nas atenções da tia, no tom carinhoso com que ela lhe falava, na ternura que havia nos seus olhos; não reparou em nada. D. Mônica, pelo contrário, reparou em tudo; viu que o sobrinho não estava senhor de si.
— Hás de me contar o que tens, disse ela quando ficaram sós os dois. — Não tenho nada.
— Não me iludas!
— Nada tenho... passei a noite mal.
D. Mônica não acreditou, mas não insistiu. O sobrinho, entretanto, sentia necessidade de desabafar com alguém; e não tardou em expor tudo à velha parenta, que o ouviu com religiosa atenção.
— Não me admira nada disso, observou ela quando ele acabou a narração; é naturalíssimo.
— Alguma traição?
— Podia ser; mas não é necessário suspeitar traição para explicar a mudança dessa moça.
— Parece-lhe...
— Parece-me que ela amava um herdeiro, e que...
— Oh! impossível!
— Por que impossível?
— Se eu lhe digo que a achei triste e abatida! O pai, sim, é possível que o pai se oponha...
— Também creio.
— Mas a vontade do pai...
(continua...)
ASSIS, Machado de. D. Mônica. Jornal das Famílias, 1876.