Por Machado de Assis (1876)
— Não basta ouvir, é necessário digerir, disse sentenciosamente o pai. E com este aforisma concluiu o diálogo — direi antes o monólogo, deixando na alma de Lucinda poucas esperanças de casamento, ao menos imediato como ela supunha e desejava que fosse. Tal é a explicação da tristeza e reserva com que recebeu o rapaz naquela noite. Facilmente se crê que Gaspar não saísse dali com a cara alegre. Nem acharei entre os leitores nenhum tão incrédulo que duvide de que o pobre namorado ficou tão fora de si, que não atinou com a maneira de abrir a porta, e afinal quebrou a chave, pelo que achou-se no meio da rua, à uma hora da noite, sem ter onde ir dormir. Sem casa nem esperanças, é suplício excessivo. Gaspar teve idéia de ir ter com Veloso e passar a noite com ele, derramando no seio do amigo todas as suas queixas, e tristezas. Só ao cabo de cinco minutos é que se lembrou de que o bacharel morava no Pedregulho. Consultou a algibeira cuja resposta foi a mais desanimadora possível. Nestas circunstâncias ocorreu-lhe a melhor solução que podia ter naquela crise: ir pedir pousada a D. Mônica. Ela morava na rua dos Inválidos e ele achava-se na rua do Conde. Embicou para lá, tão cheio de suas mágoas, que nem lhe lembravam as que podia ter causado à tia.
Ali chegando, foi-lhe facilmente aberta a porta. Um escravo dormia no corredor, e não teve dúvida em franquear-lhe a entrada desde que reconheceu a voz de Gaspar. Este contou ao escravo o que lhe acontecera.
— A vista disto, concluiu ele, arranja-me aí um lugar com que passe a noite, mas sem acordar titia.
D. Mônica tinha dois quartos trastejados para hóspedes; Gaspar foi acomodado em um deles.
V
A dona da casa ficou estupefacta no dia seguinte quando lhe deram conta do ocorrido. Em quaisquer outras circunstâncias, o caso lhe pareceria natural. Naquelas afigurou-se lhe extraordinário. Ao mesmo tempo ficou singularmente satisfeita.
— Não o deixes sair sem almoçar, disse ela ao escravo.
A ordem foi cumprida; e Gaspar viu-se obrigado a faltar à repartição porque D. Mônica que almoçava cedo, determinou que naquele dia se alterasse o costume. Não me atrevo a dizer que o fim da boa senhora fosse aquilo mesmo, mas tinha ares disso. Verdade seja que a demora podia explicar-se pela necessidade que ela tinha de vestir-se e toucar-se convenientemente.
— Oh! não preciso de explicações, disse ela quando à mesa do almoço Gaspar quis explicar-lhe a razão do incômodo que viera dar-lhe. Vieste, é quanto basta; sempre que vieres tens aqui casa e corações amigos.
Gaspar agradeceu e almoçou. Almoçou triste e preocupado. Não reparou nas atenções da tia, no tom carinhoso com que ela lhe falava, na ternura que havia nos seus olhos; não reparou em nada. D. Mônica, pelo contrário, reparou em tudo; viu que o sobrinho não estava senhor de si.
— Hás de me contar o que tens, disse ela quando ficaram sós os dois. — Não tenho nada.
— Não me iludas!
— Nada tenho... passei a noite mal.
D. Mônica não acreditou, mas não insistiu. O sobrinho, entretanto, sentia necessidade de desabafar com alguém; e não tardou em expor tudo à velha parenta, que o ouviu com religiosa atenção.
— Não me admira nada disso, observou ela quando ele acabou a narração; é naturalíssimo.
— Alguma traição?
— Podia ser; mas não é necessário suspeitar traição para explicar a mudança dessa moça.
— Parece-lhe...
— Parece-me que ela amava um herdeiro, e que...
— Oh! impossível!
— Por que impossível?
— Se eu lhe digo que a achei triste e abatida! O pai, sim, é possível que o pai se oponha...
— Também creio.
— Mas a vontade do pai...
— A vontade do pai há de vencer a da filha; seus conselhos a persuadirão... disse D. Mônica sorrindo. Que admira? É o que acontece com moças que sonham no casamento um perpétuo baile.
Gaspar ouviu cabisbaixo e triste o que lhe dizia a velha parenta. Seu coração batia com força, à medida que o espírito ia admitindo a plausibilidade da opinião de D. Mônica. Ao mesmo tempo surgiam-lhe na memória as provas de afeto que Lucinda sempre lhe dera, o desinteresse manifestado mais de uma vez, e, enfim, a indignação com que ainda recentemente lhe respondera a uma insinuação acerca da herança.
D. Mônica, pela sua parte, mostrava os inconvenientes em certa ordem de casamentos comparados com outros, menos românticos mas muito mais sólidos. Gaspar não ouviu, ou ouviu mal, a preleção da tia. Tinha perdido a repartição: saiu para ir rondar à porta da namorada.
Na primeira ocasião em que pôde falar a sós com ele (foi daí a dois dias), Lucinda referiu lhe o discurso e os conselhos do pai, e pediu-lhe que tivesse paciência e esperasse. Gaspar jurou por todos os santos do céu que esperaria até a consumação dos séculos. A moça podia responder que provavelmente nessa época não estaria em idade de casar, não lhe acudiu porém a resposta e continuou a lastimar-se com ele do despotismo dos pais e das exigências sociais.
Gaspar saiu dali disposto “. Vagou longo tempo nas ruas sem assentar em coisa alguma, até que foi acabar a noite no primeiro teatro que achou aberto. Na peça que se representava havia um namorado em condições iguais às dele que acabava matando-se. Gaspar achou que a solução era violenta demais.
— Oh! eu morrerei por mim mesmo! exclamou ele saindo do espetáculo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. D. Mônica. Jornal das Famílias, 1876.