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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Prosopopéia

Por Bento Teixeira (1601)

Lhe dirá": — Corações efeminados,

Lá contareis aos vivos o que vistes,

Porque eu direi aos mortos que fugistes.



LXXXVIII

"Neste passo carrega a Maura força

Sobre o Barão insigne e velicoso;

Ele, onde vê mais força, ali se esforça,

Mostrando-se no fim mais animoso.

Mas o fado, que quer que a razão torça.

O caminho mais reto e proveitoso,

Fará que num momento abreviado

Seja cativo, preso e mal tratado.



LXXXIX

Eis ambos os irmãos em cativeiro.

De Peitos tão protervos e obstinados,

Por cópia inumerável de dinheiro

Serão (segundo vejo) resgatados.

Mas o resgate e preço verdadeiro,

Por quem os homens foram libertados,

Chamará neste tempo o grão Duarte,

Pera no claro Olimpo lhe dar parte.



XC

Ó Alma tão ditosa como pura,

Parte a gozar dos dotes dessa glória,

Donde terás a vida tão segura,

Quanto tem de mudança a transitória!

Goza lá dessa luz que sempre dura;

No mundo gozarás da larga história,

Ficando no lustroso e rico Templo

Da Ninfa Gigantesca por exemplo.



XCI

Mas, enquanto te dão a sepultura,

Contemplo a tua Olinda celebrada,

Coberta de fúnebre vestidura,

Inculta, sem feição, descabelada.

Quero-a deixar chorar morte tão dura

‘Té que seja de Jorge consolada,

Que por ti na Ulisséia fica em pranto,

Em quanto me disponho a novo Canto.



XCII

Não mais, espírito meu, que estou cansado,

Deste difuso, largo e triste Canto,

Que o mais será de mim depois cantado

Per tal modo, que cause ao mundo espanto.

Já no balcão do Céu o seu toucado

Solta Vênus, mostrando o rosto Santo;

Eu tenho respondido co mandado

Que mandaste Netuno sublimado".



XCIII

Assim diz; e com alta Majestade

O Rei do Salso Reino, ali falando,

Diz: — Em satisfação da tempestade

Que mandei a Albuquerque venerando,

Pretendo que a mortal Posteridade

Com Hinos o ande sempre sublimando,

Quando vir que por ti o foi primeiro,

Com fatídico espírito verdadeiro.



EPÍLOGO



XCIV

Aqui deu [fim] a tudo, e brevemente

Entra no Carro [de] Cristal lustroso;

Após dele a demais Cerúlea gente

Cortando a veia vai do Reino acosso.

Eu que a tal espetáculo presente

Estive, quis em Verso numeroso

Escrevê-lo por ver que assim convinha

Pera mais Perfeição da Musa minha.



FIM



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