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#Contos#Literatura Brasileira

Conversão de um avaro

Por Machado de Assis (1878)

— A preta disse mais: deu a entender que minha prima estava, mas dera ordem de te dizer que não.

— Era falso?

— Era verdade.

— Mas então?...

— Eu te explico. Rufina sabe que tu gostas dela; tu deves saber que ela gosta de ti; todo o mundo sabe que vocês gostam um do outro. Ora, se lá fores quando nós estamos, bem...

Gil Gomes tinha-se levantado e dera quatro ou seis passos na salinha, sem ouvir o resto do discurso de José Borges, que teve em si o seu único auditório.

No fim de alguns minutos, o colchoeiro sentou-se outra vez e inquiriu o amigo: — Dizes então que eu gosto de tua prima?

— É visível.

— E que ela gosta de mim?

— Só um cego o não verá.

— Ela supõe isso?

— Vê e sente-o!

— Sente-o?

O colchoeiro esfregou as mãos.

— Gosta de mim? repetiu ele.

— E tu gostas dela.

— Sim, confesso que... Parece-te ridículo?

— Ridículo! Essa agora! Pois um homem como tu, dotado de verdadeiras e boas qualidades, há de parecer ridículo por gostar de uma senhora como Rufina?... — Sim, creio que não.

— De nenhum modo. O que te digo é que toda a circunspecção é pouca, até o dia do casamento.

Ouvindo esta palavra, Gil Gomes sentiu um calafrio e perdeu momentaneamente todas as fôrqas. A idéia talvez lhe passasse alguma vez pelo espírito, mas vaga e obscura, sem se fixar nem clarear. José Borges proferia a palavra em toda a sua realidade. O colchoeiro não pôde resistir ao abalo. Ele vivia em uma agitação que o punha fora da realidade e sem efeitos. A palavra formal, na boca de um parente, quando já ninguém ignorava a natureza de seus sentimentos, era um golpe quase inesperado e de efeito certo. José Borges fingiu não reparar na impressão do amigo, e continuou a falar do casamento, como de uma coisa indeclinável. Teceu os maiores elogios à viúva, à sua beleza, aos seus pretendentes, às suas virtudes. A maior destas era a economia; pelo menos, foi o que ele mais louvou. Quanto aos pretendentes eram muitos, mas ultimamente estavam reduzidos a cinco ou seis. Um deles era desembargador. No fim de uma hora, José Borges saiu.

A situação do colchoeiro complicava-se; sem o pensar achava-se às portas de um casamento, isto é, de uma grande despesa que viria abalar muito o edifício laborioso de suas economias.

Passou-se uma semana depois daquele diálogo, e a situação de Gil Gomes não melhorou nada. Pelo contrário, agravou-se. No fim desse tempo, tornou a ver a viúva. Nunca lhe pareceu mais bela. Trazia um vestido simples, nenhum ornato, salvo uma flor ao seio, que ela em ocasião oportuna tirou e ofereceu ao colchoeiro. A paixão de Gil Comes foi-se convertendo numa embriaguez; ele já não podia viver sem ela. Era preciso vê-la, e quando a via, tinha ânsia de lhe cair ao pés. Rufina suspirava, falava; quebrava os olhos, trazia arrastado o pobre Gil Gomes.

Veio mais uma semana, depois outra e mais outra. O amor trouxe algumas despesas nunca usadas. Gil Gomes sentiu que a avareza afrouxava um pouco as rédeas; ou, por outra, não sentiu nada, porque nada podia,sentir; foi alongando os cordões à bolsa.

A idéia do casamento aferrou-se-lhe deveras. Era grave, era um abismo que ele abriu diante de si. Às vezes assustava-se; outras vezes fechava os olhos disposto a mergulhar nas trevas.

Um dia, Rufina ouviu ao colchoeiro o pedido em regra, ainda que timidamente formulado. Ouviu-o, fechou a cabeça nas mãos e recusou.

— Recusa-me? clamou o infeliz aturdido.

— Recuso, disse firmemente a viúva.

Gil Gomes não contava com a resposta; insistiu, rogou, mas a viúva não parecia ceder. — Mas por que recusa? perguntou. Não gosta de mim?

— Oh! interrompeu ela apertando-lhe as mãos.

— Não é livre?

— Sou.

— Não compreendo, explique-se.

A viúva não respondeu logo; foi dali a um sofá e meteu a cabeça nas mãos, durante cinco minutos. Vista assim era talvez mais bela. Estava meio reclinada, ofegante, com alguma desordem nos cabelos.

— Que é? que tem? perguntou Gil Gomes com uma ternura que ninguém era capaz de supor-lhe. Vamos lá; confie-me tudo, se alguma coisa há, porque eu não compreendo... — Amo-o muito, disse Rufina erguendo para ele um par de olhos belos como duas estrelas; amo-o muito e muito. Mas vacilo em casar.

— Disseram-lhe de mim alguma coisa?

— Não, mas tremo do casamento.

— Por quê? Foi infeliz com o primeiro?

— Fui muito feliz, e por isso mesmo receio que seja infeliz agora. Parece-me que o céu me castigará se eu casar segunda vez, porque nenhuma mulher foi ainda tão amada como eu fui. Ob! se soubesse que amor me teve meu marido! Que paixão! que delírio! Vivia para fazer-me feliz. Perdi-o; casar com outro é esquecê-lo...

(continua...)

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