Por Machado de Assis (1865)
Em um dos intervalos da conversa Emílio levantou-se e foi à janela. Eu levantei-me igualmente para ir ao piano buscar um leque. Voltando para o sofá reparei pelo espelho que Emílio me olhava com um olhar estranho. Era uma transfiguração. Parecia que naquele olhar estava concentrada toda a alma dele.
Estremeci.
Todavia fiz um esforço sobre mim e fui sentar-me, então mais séria que nunca.
Emílio encaminhou-se para mim.
Olhei para ele.
Era o mesmo olhar.
Baixei os meus olhos.
- Assustou-se? perguntou-me ele.
Não respondi nada. Mas comecei a tremer de novo e parecia-me que o coração me queria pular fora do peito.
É que naquelas palavras havia a mesma expressão do olhar; as palavras faziam-me o efeito das palavras da carta.
- Assustou-se? repetiu ele.
- De quê? perguntei eu procurando rir para não dar maior gravidade à situação.
- Pareceu-me.
Houve um silêncio.
- D. Eugênia, disse ele sentando-se; não quero por mais tempo ocultar o segredo que faz o tormento da minha vida. Fora um sacrifício inútil. Feliz ou infeliz, prefiro a certeza da minha situação. D. Eugênia, eu amo-a.
Não te posso descrever como fiquei, ouvindo estas palavras. Senti que empalidecia; minhas mãos estavam geladas. Quis falar: não pude.
Emílio continuou:
- Oh! eu bem sei a que me exponho. Vejo como este amor é culpado. Mas que quer? É fatalidade. Andei tantas léguas, passei à ilharga de tantas belezas, sem que o meu coração pulsasse. Estava-me reservada a ventura rara ou o tremendo infortúnio de ser amado ou desprezado pela senhora. Curvo-me ao destino. Qualquer que seja a resposta que eu possa obter, não recuso, aceito. Que me responde?
Enquanto ele falava, eu podia, ouvindo-lhe as palavras, reunir algumas idéias. Quando ele acabou levantei os olhos e disse:
- Que resposta espera de mim?
- Qualquer.
- Só pode esperar uma...
- Não me ama?
- Não! Nem posso e nem amo, nem amaria se pudesse ou quisesse... Peço que se retire.
E levantei-me.
Emílio levantou-se.
- Retiro-me, disse ele; e parto com o inferno no coração. Levantei os ombros em sinal de indiferença.
- Oh! eu bem sei que isso lhe é indiferente. É isso o que eu mais sinto. Eu preferia o ódio; o ódio, sim; mas a indiferença, acredite, é o pior castigo. Mas eu o recebo resignado. Tamanho crime deve ter tamanha pena.
E tomando o chapéu chegou-se a mim de novo.
Eu recuei dous passos.
- Oh! não tenha medo. Causo-lhe medo?
- Medo? retorqui eu com altivez.
- Asco? perguntou ele.
- Talvez... murmurei.
- Uma única resposta, tornou Emílio; conserva aquela carta? - Ah! disse eu. Era o autor da carta?
- Era. E aquele misterioso do corredor do Teatro Lírico. Era eu. A carta? - Queimei-a.
- Preveniu o meu pensamento.
E cumprimentando-me friamente dirigiu-se para a porta. Quase a chegar à porta senti que ele vacilava e levava a mão ao peito.
Tive um momento de piedade. Mas era necessário que ele se fosse, quer sofresse quer não. Todavia, dei um passo para ele e perguntei-lhe de longe:
- Quer dar-me uma resposta?
Ele parou e voltou-se.
- Pois não!
- Como é que para praticar o que praticou fingiu-se amigo de meu marido?
- Foi um ato indigno, eu sei; mas o meu amor é daqueles que não recuam ante a indignidade. É o único que eu compreendo. Mas, perdão; não quero enfadá-la mais. Adeus! Para sempre!
E saiu.
Pareceu-me ouvir um soluço.
Fui sentar-me ao sofá. Daí a pouco ouvi o rodar do carro.
O tempo que mediou entre a partida dele e a tua chegada não sei como se passou. No lugar em que fiquei aí me achaste.
Até então eu não tinha visto o amor senão nos livros. Aquele homem parecia-me realizar o amor que eu sonhara e vira descrito. A idéia de que o coração de Emílio sangrava naquele momento, despertou em mim um sentimento vivo de piedade. A piedade foi um primeiro passo.
"Quem sabe, dizia eu comigo mesma, o que ele está agora sofrendo? E que culpa é a dele, afinal de contas? Ama-me, disse-mo; o amor foi mais forte do que a razão; não viu que eu era sagrada para ele; revelou-se. Ama, é a sua desculpa."
Depois repassava na memória todas as palavras dele e procurava recordar me do tom em que ele as proferira. Lembrava-me também do que eu dissera e o tom com que respondera às suas confissões.
Fui talvez severa demais. Podia manter a minha dignidade sem abrir-lhe uma chaga no coração. Se eu falasse com mais brandura podia adquirir dele o respeito e a veneração. Agora há de amar-me ainda, mas não se recordará do que se passou sem um sentimento de amargura.
Estava nestas reflexões quando entraste.
Lembras-te que me achaste triste e perguntaste a causa disso. Nada te respondi. Fomos à casa da tua tia, sem que eu nada mudasse do ar que tinha antes.
À noite quando meu marido me perguntou por Emílio, respondi sem saber o que respondia:
- Não veio cá hoje.
- Deveras? disse ele. Então está doente.
- Não sei.
- Lá vou amanhã.
- Lá onde?
- À casa dele.
- Para quê?
- Talvez esteja doente.
- Não creio; esperemos até ver...
Passei uma noite angustiosa. A idéia de Emílio perturbava-me o sono. Afigurava-se-me que ele estaria àquela hora chorando lágrimas de sangue no desespero do amor não aceito.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Confissões de uma Viúva Moça. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1865.