Por Machado de Assis (1881)
Quincas Borba leu-me daí a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscritos, de cem páginas cada um, com letra miúda e citações latinas. O último volume compunha- se de um tratado político, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do sistema, posto que concebia com um formidável rigor de lógica. Reorganizada a sociedade pelo método dele, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurreição, o simples murro, a facada anônima, a miséria, a fome, as doenças; mas sendo esses supostos flagelos verdadeiros equívocos do entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substância interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existência não impediria a felicidade humana. Mas ainda quando tais flagelos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro à concepção acanhada de antigos tempos, nem por isso ficava destruído o sistema, e por dois motivos: 1o porque sendo Humanitas a substância criadora e absoluta, cada indivíduo deveria achar a maior delícia do mundo em sacrificar-se ao principio de que descende; 2o porque, ainda assim, não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a terra, inventada unicamente para seu recreio dele, como as estrelas, as brisas, as tâmaras e o ruibarbo. Pangloss, dizia-me ele ao fechar o livro, não era tão tolo como o pintou Voltaire.
CAPÍTULO 118
A Terceira Força
A terceira força (veja a primeira linha do capítulo passado). A terceira força que me chamava ao bulício era a impaciência de luzir e, sobretudo, a incapacidade de viver só. A multidão atraía-me, o aplauso namorava-me, a gala, o tumulto, o rufo, eram outros tantos objetos de sedução. Se a idéia do emplasto me tem aparecido nesse tempo, quem sabe? Não teria morrido logo e estaria célebre. Mas o emplasto não veio. Veio o desejo de agitar-me em alguma coisa, com alguma coi- sa e por alguma coisa. Tout norre mal vient de ne pouvoir être seuls. Esta máxima de la Bruyère sempre me pareceu grande disparate. Não há dúvida que a sociabilidade é a primeira virtude dos homens, a segunda é a curiosidade, a terceira é a pontualidade dos pagamentos, a quarta o valor militar, e assim por diante.
CAPÍTULO 119
Parêntesis
(Haverá uma crítica tão perversa que possa atribuir a minha opinião sobre la Bruyère à inveja das suas máximas? Eu aparo desde já esse golpe, transcrevendo algumas das que compus por aquele tempo, e rasguei logo depois, por não me parecerem dignas do prelo. Fi-las num período em que a flor amarela do capitulo 25 tomara a abrir; eram bocejos de enfado. E se não vejam:
Suporta-se com paciência a cólica do próximo.
------
Matamos o tempo; o tempo nos enterra.
------
Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.
------
Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.
-------
Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é de um joalheiro.
--------
Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.)
CAPÍTULO 120
Compelie Intrare
Não, senhor, agora quer você queira, quer não, há de casar, disse-me Sabina. Que belo futuro! Um solteirão sem filhos.
Sem filhos! Eis o dardo secreto. A idéia de ter filhos deu-me um sobressalto; percorreu-me outra vez o fluido misterioso. Sim, cumpria ser pai. A vida celibata podia ter certas vantagens próprias, mas seriam tênues, e compradas a troco da solidão. Sem filhos! Não; impossível. Dispus-me a aceitar tudo, ainda mesmo a aliança do Damasceno. Sem filhos! Como já então depositasse grande confiança no Quincas Borba, fui ter com ele e expus-lhe os movimentos internos da minha paternidade. O filósofo ouviu-me com alvoroço; declarou-me que Humanitas se agitava em meu seio; animou- me ao casamento; ponderou que eram mais alguns convivas que batiam à porta, etc. Compelle intrare, como dizia jesus. E não me deixou sem provar que o apólogo evangélico não era mais do que um prenúncio do Humanitismo, erradamente interpretado pelos padres.
CAPÍTULO 121
Morro Abaixo
No fim de três meses, ia tudo à maravilha. O fluido, Sabina, os olhos da moça, os desejos do pai, eram outros tan- tos impulsos que me levavam ao matrimônio. A lembrança de Virgília aparecia de quando em quando, à porta, e com ela um diabo negro, que me metia à cara um espelho, no qual eu via ao longe Virgília desfeita em lágrimas; mas outro diabo vinha, cor-de-rosa, com outro espelho, em que se refletia a figura de Nhã-loló, tema, luminosa, angélica.
Não falo dos anos. Não os sentia; acrescentarei até que os deitara fora, certo domingo, em que fui à missa na capela do Livramento. Como o Damasceno morava nos Cajueiros, eu acompanhava-os muitas vezes à missa. O morro estava ainda nu de habitações, salvo o velho palacete do alto, onde era a capela. Pois um domingo, ao descer com Nhá-loló pelo braço, não sei que fenômeno se deu que fui deixando aqui dois anos, ali quatro, logo adiante cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo, estava com vinte anos apenas, tão lépidos como tinham sido.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1881.