Por Machado de Assis (1878)
Jorge percebeu-a; ele próprio sentiu a princípio o efeito de um acontecimento, que não podia adivinhar e necessariamente era grave. Iaiá, porém, venceu-se depressa em relação a ele. A alma, se o vento lha fizera dobrar, para logo retomou a posição dos outros dias; mostrou-se terna com ele, afável, impaciente de concluir o casamento. Seu amor, que não diminuíra, nutria agora uma centelha de ódio. Iaiá sentia alguma cousa da alma trágica de Medéa, mistura de aversão e sacrifício. Um só pensamento influía nela: confiscar aquele homem, arrastá-lo consigo, dominá lo depois, despedaçar de uma vez o laço que supunha atá-lo ao coração da madrasta.
Marcou-se um sábado para o casamento; mas os primeiros dias da semana foram de tão mau agouro, que a família resolveu deferi-lo para melhor ocasião. O enfermo piorou rapidamente. A moléstia entrou no último período. Iaiá viu morrer tristemente o sol de sábado, e não viu nascer mais aprazivelmente o de domingo. Não pensava ainda na morte do pai, mas alguma cousa lhe fazia tremer o coração. A presença de Jorge é que lhe dava ânimo e conforto, posto que ele próprio se sentisse apreensivo com o desenlace próximo da enfermidade de Luís Garcia. Lenta e caprichosa nos primeiros tempos, a enfermidade teve rápido e inflexível o período último. No fim de poucos dias a morte foi declarada iminente. Estela, não obstante achar-se preparada para o golpe, mal pôde resistir ao primeiro abalo. Iaiá ficou como doida. O pai fora a sua primeira e contínua adoração. Durante alguns anos não conheceu outro mundo, outro afeto, outra família, além daquele homem grave e terno, cujos olhos a protegiam e alumiavam. No primeiro instante não pôde crer na triste nova. Mas a realidade avultou a seus olhos, e foi então que a alma tentou romper todos os elos e voar, antes dele, a esperá-lo na imensa vastidão azul, para empreenderem juntos a derradeira viagem. Não chorou nas primeiras horas; a dor trancara-lhe as lágrimas; mas estas vieram logo depois, e ela as verteu em silêncio, sufocando os soluços, estorcendo-se na solidão da alcova.
Luís Garcia reiterou a Jorge o pedido que lhe fizera uma vez, em relação à família; mas agora restringia-o a Estela.
— Peço-lhe que não desampare os meus. Sei que morro, e quero ter a certeza de que só deixo algumas saudades. O senhor vai casar com minha filha; nada me inquieta a este respeito. Mas Estela, que não é mãe de Iaiá, ou é somente mãe de coração, Estela vai ficar só, e eu não quisera morrer com a idéia de que a deixo infeliz. Promete-me que não a desamparará nunca?
Jorge prometeu. Estela, que estava presente, procurou tranqüilizar o enfermo, e pediu-lhe que não falasse tanto. Luís Garcia não atendeu; exaltou as virtudes da mulher, a dedicação, o zelo, a afeição que lhe tinha.
— Digo-lhe que fui feliz, concluiu ele; minha alma era já velha, quando a dela se lhe uniu, e contudo... sim, minha alma rejuvenesceu um pouco...
— Já tem falado muito, interrompeu Estela, descanse, não quero que diga mais nada. Luís Garcia pediu ainda à mulher e à filha que se amassem como até ali. Tinha falado excessivamente; ficara abatido. Dali em diante, a morte não fez mais do que apoderar-se, trecho a trecho, da sua vítima. Já a noite desse dia foi mais cruel que as anteriores; todo o seguinte dia foi de angústia para as duas mulheres. Na manhã do outro começou a agonia dele, que durou algumas horas, até que com o último sopro devolveu a alma ao criador. Ao vê-lo morrer, as duas mulheres ficaram longo tempo prostradas. Era a primeira vez que contemplava a morte. Nenhuma delas vira nunca expirar uma só criatura humana; e a primeira que a seus olhos se despedia da vida
representava para elas largos anos de afeição terna e profunda, e o mais forte laço moral que as ligava uma a outra. Nesse instante solene, abraçaram-se sem reflexão; a dor impeliu-as com a mão de ferro, e, madrasta e enteada confundiram ali suas nobres, tristes e inúteis lágrimas. Juntas caíram de joelhos ao pé do cadáver, e chamaram em vão pela alma que se fora.
Aos pés da cama, com o gesto dolorido, Jorge via a aflição das duas mulheres, sem lhes poder nem querer valer. Quanto a Raimundo, não pôde ver expirar o senhor; correu ao jardim, onde ficou longo tempo sentado no chão, com a cabeça encanecida entre os joelhos, sacudido pela violência dos soluços.
Capítulo 16
Nem sempre a morte é um desfecho; a de Luís Garcia foi uma complicação mais.
Passados os primeiros dous meses, Jorge pensou em realizar o casamento, sem aparato, como um simples ato de interesse doméstico, aliás necessário pela situação em que se achavam as duas mulheres. O Sr. Antunes fora morar com elas, e era o chefe natural da família; mas Jorge não esquecera que Luís Garcia nenhuma confiança tinha na pessoa do sogro; demais, entregara diretamente a Jorge a chefia da casa. Ora, cumpria legalizar e santificar a designação do moribundo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.