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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

— Outra... Que outra? balbuciou Iaiá segurando-lhe um dos braços.

Procópio Dias abanou a cabeça solenemente, como a dizer que não podia ir mais longe. A esse gesto seguiu-se um silêncio largo, durante o qual a moça pôde vencer a primeira comoção e refletir sobre o que lhe convinha entender.

— Ama a outra? disse ela. Quem quer que seja essa rival, já agora o noivo é meu; e é natural que me ame mais do que a ela, visto que prefere casar comigo...

Não obstante a firmeza que procurava dar à palavra, a palavra era difícil e a voz parecia morrer-lhe na garganta. Procópio Dias compreendeu que a comoção estava apenas dominada, e que o veneno penetrara abaixo da epiderme. Era a primeira vez que lhe via esse aspecto dolorido; antes de embarcar, conhecia-a menina caprichosa; depois do regresso, achou-a senhora refletida; naquela ocasião, a dor, oculta embora, como que lhe dava um encanto mais. Efetivamente o rosto de Iaiá traía o estado do coração; os olhos não correspondiam ao esforço que ela fazia para os fixar.

— Se lhe parece, esqueça o meu conselho, disse ele, e não me leve a mal se lhe preguei um susto. Talvez o susto haja passado. Não importa; creia que há casamentos impossíveis; casamentos destinados a ... não sei a que... pode ser que a cousa nenhuma... ou a cousa muito grave, muito grave.

— Cale-se! rugiu surdamente a moça. Procópio Dias continuou:

— Uma só palavra, disse ele. Há de atribuir ao despeito o aviso que lhe dei. É verdade; há uma grande porção de despeito em mim. Por que lhe falaria eu, se não tivesse um motivo pessoal? Esse homem traiu-me; eu tinha-lhe confiado o depósito do meu amor; ele abusou da confiança: fez-se amado em meu lugar. Não me queixo da senhora.

A senhora não me devia nada; — um pouco de simpatia, talvez; — no futuro, pode ser que me deva também um pouco de gratidão.

Procópio Dias saiu logo depois destas palavras. Estava satisfeito; desde que pôde formular em um ou dous raciocínios o sentimento oculto que o fazia agir, achou nele a legitimidade de tudo o que acabava de dizer. Era um duelo; recebera um golpe na espádua, respondia com outro no coração, mais certeiro e provavelmente mortal; e se não era duelo, era emboscada por emboscada; direito de represália.

Prostrada com o golpe que acabava de receber, Iaiá não teve sequer as lágrimas do desespero nem as da indignação. Há dores secas, como há cóleras mudas. A suspeita, que o tempo devia carcomer de todo, e que o amor de Jorge ia já tornando problemática, essa ruim suspeita renascia tão vivaz e pertinaz como alguns meses antes, quando arrancou aos olhos de Iaiá as primeiras lágrimas de mulher. Não podia crer que o amor de Jorge não fosse sincero; era-o; parecia-o, ao menos. Mas a existência do outro amor, não era já o coração que lhe dizia, era uma voz estranha que a vinha delatar: circunstância nova, que fazia convalescer a dúvida anterior, até o ponto de lhe dar todos os visos da realidade. Iaiá sentia-se arrojada outra vez ao vasto e escuro espaço de suas antigas cogitações; — erma, desamparada de toda proteção humana, não lhe restava mais que duvidar e gemer, até achar na própria ductilidade de seu espírito a força que lhe não podia dar nenhuma origem exterior.

A madrasta foi ter com ela meia hora depois de sair Procópio Dias. Pouco antes, o marido tivera tamanha aflição, que Estela chegou a recear o último golpe; agora ficava prostrado. Estela apareceu à enteada com o olhar ainda assustado e o passo mal seguro; Iaiá não viu essa mudança, nem ouviu as primeiras palavras com que ela lhe falou do pai. Olhava

só, enquanto o coração parecia querer despedaçar-lhe a arca do peito.

— Iaiá, ande ter com seu pai; seu pai está hoje muito doente.

Vendo que a moça não se movia, Estela lançou-lhe o braço à roda da cintura.

— Vamos, disse. Iaiá estremeceu toda; depois, metendo-lhe as mãos nos ombros, empurrou-a violentamente e caminhou para a porta. — Iaiá! bradou a madrasta.

A enteada voltou-se, e, estendendo o dedo sobre os lábios, impôs-lhe silêncio. O olhar desvairado e incônscio parecia antes de loucura que de indignação. Estela ficou estupefacta. O abismo entre as duas estava de todo aberto. Luís Garcia foi o laço que ainda pôde conservar atadas essas duas existências, já agora antipáticas uma à outra. A vida dele era necessária a ambas. Uma punha nela todas as esperanças de um coração crédulo; outra apenas lhe dava aquela porção última, que não desampara os necessitados. Tréguas houve, mas sombrias e violentas. Não se falavam as duas, não trocavam um só olhar na ausência de Luís Garcia; diante dele, mostravam-se como dantes. Esta situação incomportável parecia aliás definitiva.

(continua...)

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