Por Machado de Assis (1878)
Luís Garcia concedera naquela manhã a mão da filha. Na ocasião em que Procópio Dias ali entrou, tinha-a ele ao pé de si, e contemplava-a com amor e saudade, — duas vezes saudade, porque também a morte os viria desunir. Entre si recordava os tempos em que ele e ela eram, um para o outro, toda a terra e todo o céu; e perguntava à natureza se era justo sobrepor ao primeiro vínculo outro vínculo estranho, e a natureza lhe respondia que não somente era justo, mas até necessário. Então o pai sentia-se feliz com a felicidade da filha, cujo egoísmo lhe ensinava a abnegação. Se ela devia amar a outrem, que faria ele mais do que ceder? Quanto ao noivo eleito, merecia-lhe todas as aprovações; era o único estranho que lhe penetrara um pouco mais na intimidade; amante, benquisto e opulento, podia dar à moça, além da felicidade do coração, todas as vantagens sociais, ainda as mais sólidas, ainda as mais frívolas: — e esse homem obscuro, enfastiado e céptico, saboreava a ventura que a filha iria achar no turbilhão das cousas que ele não cobiçara nunca.
Uma noite bastou a Procópio Dias para conhecer a situação. Não obstante as declarações do pretendente, que aceitou como sinceras, Jorge buscou dissimulá-la; mas um amor de poucos dias é como as crianças de berço: denuncia-se pelo vagido. Se Procópio Dias não tornasse a ver a moça, é possível que o tempo lhe abafasse a paixão. Mas viu-a, e viu-a mais bela do que a deixara. Não era a vaidade do triunfo alheio que o irritava; não se tratava do triunfo, que é o aparato da vitória, tratava-se da vitória mesmo, que ele quisera obter, — obscura, se fosse preciso, — mas efetiva e exclusiva.
— E a outra? dizia ele.
Dessa vez a pergunta não passou vagamente; trouxe uma idéia consigo, diante da qual Procópio Dias chegou a recuar. Essa idéia era envenenar na própria origem a afeição recente; nada menos que denunciar a madrasta à enteada. Se alguma cousa pudesse atenuar a perversidade de semelhante recurso, era a persuasão que ele tinha de que diria a verdade. Cria deveras no amor secreto dos dous; com algum esforço poderia fazer supor que o casamento da filha de Luís Garcia era uma sugestão da madrasta. Ele próprio achava essa combinação verossímil, conveniente, reparadora.
— Maganão! a duas amarras! dizia o pretendente em tom surdo. E os cantos da boca se lhe derreavam, de um jeito que era tudo, invejoso, odiento e torpe.
A ocasião veio. Um pouco irritada com a assiduidade de Procópio Dias e a confiança que parecia renascer nele, Iaiá assentou de lhe dizer francamente que estava prestes a casar. Procópio Dias empalideceu. Supunha apenas provável o que era já definitivo. Olhou longamente para ela; a extinção da esperança não implicava a extinção do desejo; pelo contrário, vinha pungi-lo e açulá-lo. Seus olhos mostraram então duas expressões diversas; a primeira involuntária, a mesma com que os dous velhos de Israel espreitavam a filha de Helcias, um olhar terreno e mau; a segunda voluntária, não de queixa, não de súplica, mas de lástima. A idéia ruim tornava a arder-lhe no cérebro.
— Não sabia, disse ele, depois de curta pausa. Com quem?
— Com o Dr. Jorge.
— Ah!
Procópio Dias riu com a testa, e tornou a deitar-lhe um olhar de lástima.
— Pobre moça! murmurou ele entre dentes. Iaiá fitou-o severamente; depois, sorriu e perguntou com alguma ironia:
— Não aprova a escolha?
— A escolha é excelente, disse ele; mas há circunstâncias que fazem do ótimo péssimo. Ouça-me; a senhora sabe que eu a amei; supõe talvez que já não a amo e engana-se; amo-a como no primeiro dia. Tive idéia de casar com a senhora; perdi a idéia, mas guardei o sentimento. Talvez isso lhe diminua a sinceridade das minhas palavras; mas eu cedo à voz da consciência, sem calcular com a sua aprovação...
Fez uma pausa.
— Acabe, disse a moça.
— Há cousas que um coração inexperiente não pode entender; cousas que talvez se lhe não devam referir. Quer um conselho? não aceite o casamento; desfaça-o, não para casar comigo, mas desfaça-o.
Iaiá fez-se pálida. Procópio Dias, pasmado do próprio arrojo, compreendeu que havia ido muito longe naquelas poucas palavras; mas já não havia meio de as explicar de modo verossímil. Como se fizesse um monólogo interior, abanava a cabeça ou levantava a ponta do lábio, enquanto os olhos, perdidos no ar, tinham o aspecto vítreo das fortes concentrações. Iaiá olhou para ele atônita e confusa; não sabia o que pensasse, não podia ou não queria entender.
Afinal, coligindo todas as forças, perguntou audazmente por que motivo lhe cumpria desfazer o casamento.
— Qualquer que seja o motivo, disse ele, não lhe aconselho que o aceite logo como decisivo. Reflita antes de resolver; a responsabilidade será sua, do mesmo modo que o benefício há de ser seu. Meu conselho é que o desfaça.
— Por quê?
— Porque muitas vezes o casamento é... é uma máscara, uma... Seu noivo ama a outra pessoa... Que tem? Iaiá fizera-se lívida. Terror, indignação, abatimento, sua alma passou por todos esses estados, padeceu-os até simultaneamente, sem que a boca achasse uma só palavra de resposta ou de protesto. A delação fulminara-a; nunca Procópio Dias chegou a compreender o motivo de tamanho e tão súbito efeito. O efeito aterrou-o em parte, e em parte o consternou; alguma fibra lhe ficara intacta, no meio da decomposição moral de todo o seu ser, e essa bastou a ressentir o golpe que ele mesmo vibrara.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.