Por Machado de Assis (1878)
— O silêncio é uma maneira de responder, continuou esta; querem dizer que concordam comigo, não é? Nesse
caso, seremos três para fazer a cousa mais simples do mundo, que é casar duas criaturas que se amam... Por que não a pede o senhor amanhã? O casamento pode ser feito dentro de poucos dias, à capucha, cousa simples... Iaiá tinha enfim saído do primeiro instante de estupefação.
— Mas, papai, está mal? disse ela.
— Todos nós estamos mal, apesar de termos saúde, respondeu Estela; num dia cai a casa. A doença dele é grave, é coração...
— Tem razão, interveio Jorge; podemos concluir tudo em poucos dias, duas semanas, quando muito, ou três. Jorge não ficou pouco impressionado da intervenção de Estela; e conhecendo os sentimentos que a distinguiam, admirava essa impassibilidade moral que esquecia ou fingia esquecer. Depois examinou-se a si próprio; sentiu que o amor que o dominava agora, posto fosse profundo, não era violento, não lhe queimava o coração. Comparou-se ao que tinha sido, e esse cotejo, no primeiro instante, não foi importuno; foi antes lição e filosofia. Mentalmente sorriu. Era ele o mesmo homem? Outrora caminhara resoluto às soluções trágicas; agora, com igual sinceridade, entregava o coração a outra mulher. Na fronte desta mal ousara roçar um ósculo medroso e casto, ele, que novamente arrebatava dos lábios da outra as primícias do pudor. O homem não era o mesmo. Jorge advertiu que um abismo separava as duas estações de sua vida, e concluiu que não era volúvel o coração dele, mas que uma lei regia os sentimentos, como os caracteres, estatuto universal e comum. Embora a isenção presente, Jorge experimentou um pouco da nostalgia do passado; sorria sem amargura, mas com um travo de melancolia.
— Aquele orgulho é ainda maior do que eu pensava, dizia ele. No dia seguinte, Procópio Dias veio acordá-lo em casa.
— Quando chegou? perguntou Jorge.
— Ontem de tarde, e a primeira visita que faço é esta. Demorei-me mais do que queria; mas enfim cá estou, — cá estou, e mais magro. O senhor é que me parece mais gordo.
Procópio Dias falou compridamente da política argentina e da magistratura de Buenos Aires; falou também um pouco das mulheres platinas. De quando em quando, abria um claro, como para deixar que o outro intercalasse alguma cousa menos estrangeira; Jorge, porém, falava pouco e sem apetite; seu constrangimento foi visível quando Procópio Dias o interrogou, acerca da família de Luís Garcia; respondeu-lhe sem interesse. Procópio Dias fitou-o durante alguns segundos; as rugas da testa engrossaram-se-lhe extraordinariamente.
— E Iaiá? disse ele; parece-lhe então que nenhuma esperança...
Fez uma pausa; Jorge preencheu-a com um sorriso descorado, mas assaz explicativo. Procópio Dias começou a farejar a realidade, mas nenhuma das linhas do rosto denunciou a impressão que esta lhe causara. Após um silêncio largo, entrou a rir de bom humor.
— Quer que lhe diga uma cousa? perguntou ele. Saiba que volto curado. Quando penso na moléstia tenho vergonha; é verdade, tenho vergonha da figura que fiz. Já sou muito maduro para cavalarias altas. A doença ainda me durou algum tempo; sarei com a mudança de clima; o amor, ao menos na minha idade, é uma espécie de beribéri... Há de ter-se rido de mim; é justo, porque eu não faço hoje outra cousa.
Jorge contestou com um simples gesto; mas Procópio Dias falava com tanta naturalidade, ria com tamanha franqueza, que a explicação deu à conversa a vida que ela tendia a perder. Jorge foi mais expansivo, mais alegre; não lhe confiou a nova situação, mas o segredo parecia debruçar-se-lhe das pálpebras e dos cantos da boca. Essa alegria era um respiro da consciência, que se sentia um pouco vexada em presença daquele homem, cuja confiança fora a origem de seu recente amor; era também a satisfação de não ter conseguido ligá-lo à filha de Luís Garcia; consórcio repugnante, híbrido, cujo resultado seria dar à moça, — uma longa amargura sem certeza de resgate.
Quando Procópio Dias saiu dali ia suspeitoso da realidade.
— Mas a outra? dizia ele consigo. Sacudiu os ombros, e não ficou mais tranqüilo. Levava já no peito um pouco de impaciência e irritação; tinha a fronte obscurecida por uma nuvem. Mais tarde alumiou-a um clarão súbito, ainda que frouxo, era um reflexo de esperança. Talvez houvesse julgado com precipitação: era possível atribuir a reserva de Jorge, não à competência pessoal, mas a uma maneira de entender as máximas do decoro. Quem sabe? Ele podia ter-se arrependido de haver prometido tanto. Essa reflexão arejou um pouco o espírito, sem lhe tirar de lá o miasma corruptor. Era força conhecer a verdade. Nesse mesmo dia, foi ele a Santa Teresa.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.