Por Machado de Assis (1876)
Estácio deixou-se cair numa cadeira. Melchior comunicou o conteúdo da carta a D. Úrsula, cujo pasmo foi ainda mais profundo que o do sobrinho, porque ela não soltou uma palavra, não fez um gesto; ficou a olhar estupidamente para o papel. Houve então entre aqueles três personagens dez minutos de mortal silêncio. D. Úrsula não pensava; olhava para a carta, logo depois para o sobrinho e o padre, como a esperar uma conclusão que seu próprio espírito não podia deduzir dos acontecimentos. Estácio ficara desorientado; em vão procurava um fio de dedução entre as idéias; a revelação nova era uma complicação mais. Se a carta era sincera, como explicar a declaração testamentária de seu pai? Se o não era, como explicar a audácia de semelhante invenção? Ele não podia discernir o que era favorável a Helena, nem ousava afirmar o que lhe era adverso.
No meio daquela família, arriscada a dispersar-se, Melchior considerava a superioridade da morte sobre alguns lances terríveis da vida. Se o óbito de Helena tomara o lugar da carta, a dor seria violenta, mas o irremediável desfecho e o consolo da Religião teriam contribuído para sarar a alma dos que ficassem e converter o desespero de alguns dias na saudade da vida inteira. Em vez disto, estava ele, talvez, diante de um destino aniquilado; via um abismo possível entre corações que a vontade de um morto vinculara. Qualquer que fosse a veracidade da carta, o resultado era talvez esse.
Melchior foi dali ter com Helena, para alcançar mais detida explicação do que acabava de ler. Ela ergueu-se quando o viu, e pareceu reviver ao contemplar o gesto benévolo com que ele lhe falou. Um longo suspiro de alívio rompeu-lhe o coração: os braços caíram sobre os ombros do padre, em cujo seio escondeu o rosto e repousou enfim, — um minuto — das dores que a afligiam.
Perdoaram-me? disse ela.
Hão de perdoar; conte-me tudo.
Oh! não posso, não sei; sei que é meu pai.
O capelão não insistiu; voltou aos outros dois, a quem achou na posição em que os deixara. Interrogaram-no com os olhos.
Nada, disse ele. O coração dela não possui nesta ocasião a necessária força para responder a quanto se lhe devia perguntar; demais não saberá tudo. Temos a primeira confissão da verdade...
Da verdade? interrompeu melancolicamente Estácio. Quem sabe se é verdade o que lemos nesse papel?
É, deve ser. Faltam-nos, é certo, os fundamentos da asseveração; mas eu incumbo- me de ir buscá-los.
Iremos ambos.
D. Úrsula quis dissuadir o sobrinho de ir à casa do homem, causa dos desastres da família, não tanto porque lhe parecia que entre Estácio e ele nenhuma relação convinha estabelecer, mas sobretudo porque ela precisava de alguém que a acompanhasse em tão graves circunstâncias. Melchior inclinou-se ao alvitre de D. Úrsula.
Irei eu só, disse ele; depois conduzi-lo-ei até cá, se for preciso.
Não posso esperar, insistiu Estácio; preciso falar a esse homem, ouvi-lo, ler-lhe a verdade ou o embuste nas linhas do rosto. Talvez o decoro da família exigisse outra coisa; mas, padre-mestre, meu coração goteja sangue...
Era impossível dissuadi-lo: Melchior tratou somente de o moderar. De resto, a crise era violenta; cumpria resolvê-la sem demora nem hesitação. O padre animou D. Úrsula, e saiu acompanhado de Estácio, cujo coração, convalescido do primeiro abalo, deixava as regiões da dúvida para entrar na atmosfera da verdade, — pelo menos da esperança. Quaisquer que fossem as conseqüências da nova revelação, vinha esta como um bálsamo, após tão dolorosas comoções; era um rasgão azul no céu tempestuoso daqueles dias. Ia ele pensando assim, — ou antes sentindo, — porque o pensamento não ousava regê-lo, desde que a vida inteira do moço se lhe concentrara no coração.
Chegando à frente da casa, Estácio desviou os olhos; custava-lhe encará-la, mas venceu-se. Houve demora em abrir a porta; abriu-se esta enfim, e a figura do dono da casa apareceu aos dois. Vendo-os, empalideceu um pouco, mas um sorriso procurou disfarçar a impressão. Estácio foi direito ao fim.
Suponho que se lembra de mim? disse ele.
Perfeitamente.
Sabe que motivo nos traz à sua casa?
Não, senhor.
Confessa a autoria desta carta?
Salvador estremeceu; depois respondeu com um gesto afirmativo.
Pretende que Helena é sua filha, disse o moço depois de um instante. Confirma verbalmente o que escreveu?
Helena é minha filha. Melchior interveio:
Há um ano, falecendo, o meu velho amigo Conselheiro Vale reconheceu Helena, por uma cláusula testamentária; recomendava à família que a tratasse com afeto e carinho e designava o colégio em que ela estava sendo educada. O fato do reconhecimento e as circunstâncias que apontou, dão toda a veracidade à palavra do morto. Que prova apresenta o senhor em contrário a ela?
Nenhuma, disse Salvador; não tenho prova de nenhuma natureza.
Na falta de provas, prosseguiu o capelão, poderia dizer-nos como supor da parte do conselheiro uma falsificação, tratando-se de disposição tão grave como essa de introduzir uma pessoa estranha na família?
Salvador sorriu amargamente.
Suponha, disse ele, que eu havia iludido a confiança do conselheiro, e que ele acreditava ser pai de Helena. Era isso?
Não era. Na posição em que nos achamos, já não há lugar para meias palavras.
Força é referir tudo. Dez minutos apenas.
Os três sentaram-se. Melchior olhava para o dono da casa com a persistência e a curiosidade naturais da ocasião. Salvador esteve alguns instantes calado; enfim, voltou-se para o capelão.
Estimo, disse ele, que o Sr. padre viesse; sua caridade temperará a legítima indignação deste moço; e eu farei as declarações indispensáveis na presença das duas pessoas a quem mais amo, abaixo de Helena.
Queira falar, disse secamente Estácio.
CAPÍTULO XXV
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.