Por Bernardo Guimarães (1883)
O mais breve que lhe foi possivel, Frederico dirigio-se á casa de Carlos, onde o encontrou em um estado de prostração e desaiento, que fazia dó. Soube então pela bocca do proprio Carlos, que ha mais de oito dias a janellinha, onde costumava ver a formosa escrava, se conservava fechada Nos dois ou tres primeiros dias ainda havia supportado com alguma resignação e sem desesperar o desappare cimento de sua amante. Talvez estivesse doente, ou quem sabe, si tinhão sido percebidos os seus colloquios de janella, e por isso era agora severamente vigiada por seus senhores ? e tambem, que horror ! . . . quem sabe si teria sido vendida ! ?. . . Esta ultima hypothese era como um estylete envenenado a pungir continuamente o coração do pobre rapáz. Para livrar-se de tantas e tão crueis incertezas deliberou indagar pela vezinhança o que teria sido feito da menina. Os vizinhos porém, que sabião tanto como elle do que se passava em casa do senhor Bazilio, não pudérão dar—lhe informação alguma.
Depois de dois ou trez dias de baldadas indagações pela vizinhança, resolveo-se a ir elle proprio á casa de Bazilio, e si bem que já tivesse conhecimento dos habitos de incommunicabilidade do velho, jurou de si para si que tanto havia de bater á porta, tanto gritar c rogar, tal algazarra e taes disparates havia de fazer, que não terião remedio sinão abrir a porta e fallar-lhe. Firme neste proposito tratou de pól-o em execução, e cheio de arrojo e resolução foi pela manhã bater á porta do mysterioso e invisivel vizinho Bazilio. Mas, . . ai delle ! . . . a porta da rua estava fechada e sem chave, as rotulas e janellas trancadas de modo, que nem a luz nem o ar alli podião penetrar. Por mais que Carlos, depois de muito bater, applicasse o ouvido, não distinguio nem o mais leve rumor, que denunciasse a presença de ente vivo, nem mesmo de um cão ou de um gato.
Carios retirou-se dalli pallido, exsangue, e a cambelear, como um homem que acabasse de ser gravemente ferido. Nesse estado ia-se dirigindo para a casa, quando uma velha da vizinhança, cuja vida era tão mysteriosa como a do senhor Bazilio, pondo o nariz fóra da rotula, perguntou-lhe :
— Quem estava procurando alli, meu moço ? . . Ora é boa pergunta, — respondeo Carlos de máo humor, — procurava o dono da casa.
— Ché! que esperança ! ha que tempo elle já sahio p' ra tóra vender seus escravos, Que está dizendo, senhora !.. oh minha senhora não saberá me dizer si levou tambem uma menina... ainda muito nova...
Eu sei lá disso, meu moço?.., elle quando sahe, é ás chuchas caladas e fóra de horas. .. de certo essa tambem havia de ir.
Nada mais era preciso para esmagar completamente o coração do pobre rapaz. Recolheo-se á casa e trancou-se em seu quarto.
—— Oh ! minha adorada e infeliz Rozaura!... tu vendida tu, a mais bella e a mais adoravel das creaturas, que sahio das mãos do Eterno, tangida a pé por essas estradas no meio de um comboi de escravos, como uma rez no meio da manada para ser exposta no mercado ! ...Vendida, Deus do céo ! vendidas a innocencia e a belleza pelo mais abjecto c ignobil dos homens ! . . . Vendida e a quem, Deus de misericordia ! quem sabe, em que mãos irás parar, minha infeliz. . . ah ! talvez nas mãos de algum senhor brutal e devasso, que empregará todos os meios para profanar-te a pureza, violar-te a pudicicia ! Oh ! sim, porque teus encantos fascinão, cer— cão-te de mil perigos, e vão expôr-te ás mais terriveis vicissitudes. Ah ! maldita sociedade ! maldita lei ! povo e governo mil vezes maldito, que tolera e fomenta tão vergonhoso e exe— crando trafico ! Oh ! si eu fôra rico, iria por essas estradas, acompanhado de uma escolta de bons capangas, no encalce do ladrão, havia de descobrir-lhe a pista, e por vontade ou por força o infame havia de largar mão da preza. Ah ! pobreza ! pobreza ! tu resumes em ti todos os infortunios... Pobre menina ! lyrio candido e sem mancha atirado no infecto e lodacento abysmo da escravidão ! . . .
Exhalando estas e outras dolorosas e interminaveis exclamações, o mancebo passou dias e dias encerrado em seu quarto, entregue á mais pungente augustia e desesperação, desatando torrentes de lagrimas, que em nada mitigavão a dor que lhe torturava a alma ; seus soffrimentos não erão daquelles que achão desabafo no pranto copioso ; as lagrimas ardentes que lhe crestavão as palpebras, exprimidas do coração entre torturas, só deixavão nellea aridêz do desespero.
Foi assim que Frederico o veio encontrar encerrado em seu quarto em tal estado de prostração o desalento, que causava dó e inquietação, não só pela sua saude como pela sua razão. Não reproduziremos as violentas explosões de furor, as amargas lamentações e terriveis imprecações, em que prorompeo ainda o misero mancebo em presença do amigo. Este as escutou todas com a maior paciencia sem interrompel-o, nem contrarial-o, e profundamente abalado pelo deploravel estado em que via o amigo; conservou-se mudo por largo tempo sem achar uma phrase de conforto e animação para tão acerbo soffrimento.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.