Por Machado de Assis (1868)
Quando uma criatura ama, como Hortênsia amava, todos os meios de poupar-lhe as comoções são nulos.
O golpe foi profundo.
Azevedo ficou desesperado; se encontrasse Marques nessa ocasião, matava-o. Aquela família, que até então era feliz, e que estava às portas de uma grande felicidade, viu-se repentinamente atirada em profunda agonia, graças ao estouvamento de um homem.
Meneses não foi à casa de Azevedo apenas chegou Hortênsia, por dois motivos: o primeiro era deixar a infeliz moça chorar em liberdade a ingratidão do noivo; depois, era não reavivar a chama do seu próprio amor com o espetáculo daquela dor que exprimia para ele o mais eloqüente dos desenganos. Ver a mulher amada chorar por outro não é a maior dor deste mundo?
VII
Quinze dias depois da volta de Hortênsia, o jovem advogado encontrou Azevedo, e perguntou-lhe notícias da família.
— Todos estão bons. Hortênsia, compreende, está triste, com a notícia daquele fato. Pobre menina! mas há de consolar-se. Apareça, doutor. Está mal conosco?
— Mal por quê?
— Então não nos abandone; apareça. Vai lá hoje?
— Talvez.
— Vá; lá o esperamos.
Meneses não queria ir; mas a retirada absoluta era impossível. Mais tarde ou mais cedo era obrigado àquela visita; foi.
Hortênsia estava divinamente pálida.
Meneses, contemplando aquela figura de martírio, sentiu que mais do que nunca a amava. Aquela dor causava-lhe ciúmes. Doía-lhe que aqueles olhos vertessem lágrimas por outro, e por outro que as não merecia.
— Há ali, pensava ele consigo, há ali um grande coração, que torna um homem feliz só em palpitar por ele.
Meneses retirou-se às onze horas da noite para casa. Sentia que o mesmo fogo de outrora ainda lhe ardia dentro do peito. Estava um pouco coberto, mas não extinto; a presença da moça reavivou a chama.
— Mas que posso esperar? dizia Meneses entrando em casa. Ela sofre, é que o ama; aqueles amores não se esquecem facilmente. Sejamos fortes.
O protesto era sincero; mas a execução era difícil.
Meneses continuou a freqüentar a casa de Azevedo.
Pouco a pouco, Hortênsia adquiria as antigas cores, e posto que não tivesse a mesma alegria de outro tempo, o olhar apresentava uma serenidade de bom agouro. O pai tornava-se contente de ver aquela transformação.
Entretanto, Meneses escrevera a Marques uma carta de exprobração; dizia-lhe que o seu
procedimento não era somente cruel, mas até feio, e procurava chamá-lo à corte. A resposta de Marques foi a seguinte:
“Meu Meneses,
Eu não sou herói de romance, nem tenho vontade disso.
Sou um homem de resoluções súbitas.
Cuidei que não amava a ninguém mais senão a essa bela Hortênsia; mas enganei-me; encontrei Sofia, a quem me entreguei em corpo e alma.
Isto não quer dizer que eu não abandone Sofia; estou mesmo a ver que me prendo nos laços de alguma destas argentinas, que são as andaluzas da América. Variar é viver. São dois verbos que começam por profunda lição que nos dá a natureza e a gramática.
Penso, logo existo, dizia creio que o Descartes.
E vario, logo existo, digo eu.
Não te importes, portanto, comigo.
O pior é que Sofia já me tem comido umas boas centenas de pesos. Que estômago, meu caro!
Até um dia.”
Esta carta era eloqüente.
Meneses não respondeu; guardou-a simplesmente, e lastimou que a pobre moça tivesse posto em tão indignas mãos o seu coração de vinte anos.
VIII
É inútil dizer que Meneses fizera em Hortênsia, depois da volta desta à casa, a mesma impressão que antes.
A moça compreendeu que era amada por ele, em silêncio, respeitosa, resignada, desesperançadamente...
Compreendeu mais.
Meneses ia poucas vezes à casa de Azevedo; não era como antes, que lá ia todas as noites.
A moça compreendeu a delicadeza de Meneses; viu que era amada, mas que, diante da sua dor, o rapaz procurava esconder o mais que pudesse a sua pessoa. Hortênsia, que era capaz de delicadeza igual, apreciou aquela no seu justo valor. Que havia de mais natural que uma aproximação de duas almas tão nobres, tão capazes de sacrifícios, tão feitas para se compreenderem?
Uma noite Hortênsia disse a Meneses que as suas visitas eram raras, que ele não ia lá como antes, o que entristecia a família.
Meneses desculpou-se; disse que os seus trabalhos eram muitos.
Mas as visitas tornaram-se menos raras.
O advogado chegou a conceber a esperança de que ainda podia ser feliz, e procurou abraçar o fantasma da sua imaginação.
— Contudo, pensou ele, é cedo demais para que ela o esqueça.
Tê-lo-á esquecido?
Nem de propósito sucedeu que nessa mesma noite em que Meneses fazia esta reflexão, uma das pessoas que freqüentavam a casa de Azevedo soltou imprudentemente o nome de Marques.
Hortênsia empalideceu; Meneses olhou para ela; viu-lhe os olhos úmidos.
— Ainda o ama, disse ele.
Nessa noite Meneses não dormiu. Vira desfeita, num instante, a esperança que chegara a manter no seu espírito. Era inútil a luta.
Não escapou à moça a impressão que causara em Meneses a sua tristeza ao ouvir falar em Marques; e vendo que ele outra vez rareava as suas visitas, compreendeu que o moço estava disposto a sacrificar-se.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Não é mel para a boca do asno. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.