Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

Não consultes médico

Por Machado de Assis (1876)

5 Espécie de gavião do norte da América do Sul. O mesmo que carcará.

D. ADELAIDE — Não falemos nisso.

MAGALHÃES — Sabes o que foi?

D. ADELAIDE — Não; mas titia disse-me que a cura se fará em dez anos. (Espanto de Magalhães.) Sim, dez anos; talvez dois, mas a cura certa é em dez anos. MAGALHÃES, atordoado — Dez anos!

D. ADELAIDE — Ou dois.

MAGALHÃES — Ou dois?

D. ADELAIDE — Ou dez.

MAGALHÃES — Dez anos! Mas é impossível! Quis brincar contigo. Ninguém leva dez anos a sarar; ou sara antes ou morre.

D. ADELAIDE — Talvez ela pense que a melhor cura é a morte.

MAGALHÃES — Talvez. Dez anos?

D. ADELAIDE — Ou dois; não esqueças.

MAGALHÃES — Sim, ou dois; dois anos é muito, mas, há casos... Vou ter cm ele.

D. ADELAIDE — Se titia quis enganar a gente, não é bom que os estranhos saibam. Vamos falar com ela, talvez que, pedindo muito, ela diga a verdade. Não leves essa cara assustada; é preciso falar-lhe naturalmente, com indiferença.

MAGALHÃES — Pois vamos.

D. ADELAIDE — Pensando bem, é melhor que eu vá só; entre mulheres...

MAGALHÃES — Não; ela continuará a zombar de ti; vamos juntos, estou sobre brasas.

D. ADELAIDE — Vamos.

MAGALHÃES — Dez anos!

D. ADELAIDE — Ou dois. (Saem pelo fundo.)

Cena XI

D. Carlota, entrando pela direita

D. CARLOTA — Ninguém! Afinal foram-se! Esta casa anda hoje cheia de mistérios. Há um quarto de hora quis vir aqui, e prima Adelaide disse-me que não, que se tratavam aqui negócios graves. Pouco depois levantou-se e saiu; mas antes disso contou-me que mamãe é que quer que eu vá para a Grécia. A verdade é que todos me falam de Atenas, de ruínas, de danças gregas, da Acrópole... Creio que é Acrópole que se diz. (Pega no livro que Magalhães estivera lendo, senta-se, abre e lê.) “Entre os provérbios gregos, há um muito fino: Não consultes médico; consulta alguém que tenha estado doente.” Consultar alguém que tenha estado doente! Não sei quem possa ser. (Continua a ler em voz baixa.)

Cena XII

D. Carlota, Cavalcante

CAVALCANTE, ao fundo — D. Leocádia! (Entra e fala ao longe a Carlota, que está de costas.) Quando eu ia sair, lembrei-me...

D. CARLOTA — Quem é? (Levanta-se.) Ah! doutor!

CAVALCANTE — Desculpe-me, vinha falar à senhora sua mãe para lhe pedir um favor.

D. CARLOTA — Vou chamá-la.

CAVALCANTE — Não se incomode; falar-lhe-ei logo. Saberá por acaso se a senhora sua mãe conhece algum cardeal em Roma?

D. CARLOTA — Não sei, não senhor.

CAVALCANTE — Queria pedir-lhe uma carta de apresentação; voltarei mais tarde. (Corteja, sai e pára.) Ah! aproveito a ocasião para lhe perguntar ainda uma vez em que é que a ofendi?

D. CARLOTA — O senhor nunca me ofendeu...

CAVALCANTE — Certamente que não; mas ainda há pouco, falando-lhe de um tio meu, que morreu no Paraguai, tio João Pedro, capitão de engenharia...

D. CARLOTA, atalhando — Por que é que o senhor quer ser apresentado a um cardeal?

CAVALCANTE — Bem respondido! Confesso que fui indiscreto com a minha pergunta. Já há de saber que eu tenho distrações repentinas, e quando não caio no ridículo, como hoje de manhã, caio na indiscrição. São segredos mais graves que os seus. É feliz, é bonita, pode contar com o futuro, enquanto que eu... Mas eu não quero aborrecê-la. O meu caso há de andar em romances. (Indicando o livro que ela tem na mão.) Talvez nesse.

D. CARLOTA — Não é romance. (Dá-lhe o livro.)

CAVALCANTE — Não? (Lê o título) Como? Está estudando a Grécia?

D. CARLOTA — Estou.

CAVALCANTE — Vai para lá?

D. CARLOTA — Vou, com prima Adelaide.

CAVALCANTE — Viagem de recreio, ou vai tratar-se?

D. CARLOTA — Deixe-me ir chamar mamãe.

CAVALCANTE — Perdoe-me ainda uma vez; fui indiscreto, retiro-me. (Dá alguns passos para sair.)

D. CARLOTA — Doutor! (Cavalcante pára.) Não se zangue comigo, sou um pouco tonta, o senhor é bom...

CAVALCANTE, descendo — Não diga que sou bom; os infelizes são apenas infelizes. A bondade é toda sua. Há poucos dias que nos conhecemos, e já nos zangamos, por minha causa. Não proteste; a causa é a minha moléstia.

D. CARLOTA — O senhor está doente?

CAVALCANTE — Mortalmente.

D. CARLOTA — Não diga isso!

CAVALCANTE — Ou gravemente, se prefere.

D. CARLOTA — Ainda é muito. E que moléstia é?

CAVALCANTE — Quanto ao nome, não há acordo: loucura, espírito romanesco e muitos outros. Alguns dizem que é amor. Olhe, está outra vez aborrecida comigo!

D. CARLOTA — Oh! não, não, não. (Procurando rir.) É o contrário; estou até muito alegre. Diz-me então que está doente, louco...

CAVALCANTE — Louco de amor, é o que alguns dizem. Os autores divergem. Eu prefiro amor, por ser mais bonito, mas a moléstia, qualquer que seja a causa, é cruel e terrível. Não pode compreender este imbroglio6; peça a Deus que a conserve nessa boa e feliz ignorância. Porque é que está me olhando assim? Quer talvez saber...

D. CARLOTA — Não, não quero saber nada.

6 Confusão, em italiano.

CAVALCANTE — Não é crime ser curiosa.

D. CARLOTA — Seja ou não loucura, não quero ouvir histórias como a sua.

CAVALCANTE — Já sabe qual é?

D. CARLOTA — Não.

(continua...)

1234567
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →