Por Machado de Assis (1862)
Um dia adoeceu Vicente, e Clara apenas o soube, obteve licença da modista e foi tratar do enfermo com a dedicação e zelo de uma irmã. A doença de Vicente durou dez ou doze dias; durante esse tempo não se desmentiu a solicitude da moça.
— Obrigado, disse Vicente à rapariga, quando se levantou da cama.
— Por quê? Sou eu quem lhe deve.
— Já pagou de sobra.
— Oh! nunca! disse Clara. O senhor livrou-me a vida, é verdade; mas não fez só isto, livrou-me de entrar numa carreira fatal... e mais...
— E mais nada, disse Vicente.
A moça voltou o rosto e enxugou uma lágrima.
— Por que chora? perguntou Vicente.
Clara não respondeu, mas levantou os olhos para ele rasos d’alma quando não vinha doutra parte.
— Meu caro genro, disse o capitão sentenciosamente, guardado está o bocado para quem o há de comer. Vim à corte para que Delfina casasse com Vicente, e vou para a roça com o genro que não esperava nem conhecia. Digo isto porque eu volto para a roça e não posso separar-me de Delfina.
— Acompanhá-lo-ei, respondeu Correia.
O capitão achou conveniente participar a Vicente o casamento da filha, mas desde logo viu o que havia de delicado naquilo, não porque cuidasse ferir-lhe o coração, já livre de uma momentânea impressão, mas porque sempre lhe seria ferir o amor-próprio. Havia três dias que Vicente não aparecia.
— Ia escrever-te, disse o capitão.
— Por quê?
— Dar-te uma notícia de que te vais admirar.
— Qual?
— Delfina casa-se.
— A prima?
— Sim.
Houve um pequeno silêncio; a notícia abalou o rapaz, que ainda gostava da moça, apesar dos ciúmes por Clara.
O velho esperou alguma observação por parte de Vicente, e vendo que ela não aparecia, continuou:
— É verdade, casa-se daqui a dois meses.
— Com quem? perguntou Vicente.
— Com o Correia.
Quando Vicente perguntou pelo noivo de Delfina, já o desconfiara, por se lembrar de que uma noite reparara em certos olhares trocados entre os dois.
Mas a declaração do tio não deixou de o abalar profundamente; um pouco de amor e um pouco de despeito causaram essa impressão.
A conversa ficou neste ponto; Vicente saiu.
Compreende-se a situação do rapaz.
Quando saiu da casa do tio, mil idéias lhe tumultuavam na cabeça. Queria ir brigar com o rival, reclamar de Delfina a promessa tácita que lhe fizera, mil projetos, todos mais extravagantes uns que outros.
Na posição em que se achava, o silêncio era a melhor solução. Tudo mais era ridículo. Mas o despeito é um mau conselheiro.
Agitado por esses sentimentos, entrou Vicente em casa, onde não encontrava ao menos o amor de Clara.
A moça com efeito estava cada vez mais fria e indiferente ao amor de Vicente. Não se alegrava com as suas alegrias, nem se entristecia com as suas tristezas. Vicente passou uma noite de desespero.
Preparava-se, entretanto, o casamento.
Vicente achou que não devia voltar à casa do tio, nem procurar o feliz rival. Mas oito dias depois de saber oficialmente do casamento de Delfina, recebeu ele de Correia a seguinte carta:
Meu Vicente,
Tenho hesitado em participar-te uma notícia de que aliás já estás inteirado; caso-me com tua prima. Eu nunca teria pensado em semelhante coisa, se não visse que tu, depois de um ligeiro namoro, ficaste indiferente ao destino da moça.
É claro que já te não importas com ela.
O fato de não a amares abriu a porta ao meu coração, que desde muito se sentia impressionado.
Amamo-nos ambos, e o casamento será daqui a cinqüenta dias.
Espero que o aproves.
Já era teu amigo; agora fico sendo teu parente.
Não precisava isto para apertar os laços de amizade que nos unem.
— Teu Correia. Vicente leu pasmado esta carta em que a audácia da hipocrisia não podia ir mais longe. Não respondeu.
— Deste modo, pensou Vicente, ele compreenderá que o desprezo e virá talvez pedir-me uma explicação.
Nisto enganou-se o rapaz.
Correia não pedira explicações, nem esperava resposta à carta. A carta era mais um ato de insolência que de hipocrisia. O rapaz queria machucar completamente o amigo. Vicente esperou debalde uma visita de Correia.
A indiferença exasperou-o ainda mais.
Acrescente-se a isto a situação dele em relação a Clara, que era cada vez pior. Dos arrufos tinham passado às grandes rixas, e a última fora revestida de graves circunstâncias.
Chegou finalmente o dia do casamento de Delfina.
Júlia escolheu também esse dia para casar-se.
Os dois casamentos se fizeram na mesma igreja.
Estas circunstâncias, além de outras, aproximaram Correia de Castrioto. Os dois noivos trataram juntos dos preparativos da festa dupla em que eles eram heróis. Na véspera do casamento, Castrioto foi dormir em casa de Correia.
— Conversemos das nossas noivas, disse Correia ao romancista.
— Apoiado, respondeu este.
Com efeito, lá se apresentou às dez horas, depois de sair da casa de Alvarenga, onde se despedira da namorada pela última vez, para cumprimentá-la no dia seguinte como noiva.
— Com que então amanhã, disse Correia, estamos casados.
— É verdade, respondeu Castrioto.
— Ainda me parece um sonho.
— E a mim! Pois há seis meses que namoro esta moça sem esperança de conseguir nada. O senhor é que andou depressa. Tão feliz não fui eu, apesar dos meus esforços.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Nem uma nem outra. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1873.