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#Contos#Literatura Brasileira

Longe dos olhos

Por Machado de Assis (1876)

— Isso é verdade! exclamou a moça e deixou-se ficar pensativa enquanto o bacharel lhe contemplava a admirável cabeça e a graciosa maneira com que ela trazia os cabelos penteados. 

A leitora há de desconfiar muita coisa às teorias dos dois confidentes relativamente à felicidade. Pela minha parte, posso afiançar que João Aguiar não pensava uma só palavra que disse; não o pensava antes, quero eu dizer; ela porém tinha o secreto poder de lhe influir as suas idéias e sentimentos. Não poucas vezes dizia ele que se ela fosse fada podia dispensar a vara de condão; bastava falar. 


IV 


Um dia, Serafina recebeu uma carta de Tavares dizendo-lhe que não voltaria mais à casa de seu pai, por este lhe haver mostrado má cara nas últimas vezes que ele lá estivera. Má cara é exageração de Tavares, cuja desconfiança era extrema e às vezes pueril; é certo que o desembargador não gostava dele, depois que soube das intenções com que ali ia, e é possível, é até certo que o seu modo afetuoso para com ele sofreu alguma diminuição. A fantasia de Tavares é que fez daquilo má cara. 

Eu aposto que o leitor, em caso igual, redobrava de atenções com o pai, a ver se lhe reconquistava as boas graças, e entretanto ia gozando a fortuna de ver e contemplar a dona dos seus pensamentos. Tavares não fez assim; tratou logo de romper as suas relações. 

Serafina sentiu sinceramente esta resolução do namorado. Escreveu-lhe dizendo que refletisse bem e voltasse atrás. Mas o namorado era homem teimoso; meteu os pés à parede, e não voltou. 

Jurar-lhe amor isso fez ele, e não deixava de lhe escrever todos os dias, cartas muito longas, muito repassadas de sentimento e de esperanças. 

João Aguiar soube do que se passara e procurou por sua vez dissuadi-lo da funesta resolução. 

Tudo foi baldado. 

— A desconfiança é o único defeito dele, dizia Serafina ao filho do comendador; mas é grande. 

— É um defeito bom e mau, observou João Aguiar. 

— Não é sempre mau. 

— Mas como não há criatura perfeita, é justo relevar-lhe esse único defeito. 

— Oh! de certo; contudo... 

— Contudo? 

— Preferia que o defeito fosse outro. 

— Outro qual? 

— Outro qualquer. A desconfiança é uma triste companheira; arreda toda a felicidade.

— Eu a esse respeito, não tenho motivo de queixa... Cecília tem a virtude oposta num grau que me parece excessivo. Há nela um quê de simplória... 

— Oh! 

Aquele oh de Serafina foi como que um protesto e repreensão, mas acompanhado de um sorriso, não digo aprovador, mas benévolo. Defendia a moça ausente, mas talvez achasse que João Aguiar tinha razão. 

Dois dias depois adoeceu levemente o bacharel. A família do desembargador foi visitá-lo. Serafina escrevia-lhe todos os dias. Cecília, é inútil dizê-lo, escrevia-lhe também. Mas havia uma diferença: Serafina escrevia melhor; havia mais sensibilidade na sua linguagem. Pelo menos, as cartas dela foram relidas mais vezes que as de Cecília. Quando ele se levantou da cama, estava bom fisicamente, mas recebeu um golpe na alma. Cecília ia para a roça durante dois meses; eram manias do pai. O comendador estimou este incidente, supondo que de uma vez para sempre o filho a esqueceria. O bacharel, entretanto, sentiu muito a separação. 

A separação efetuou-se dai a cinco dias. Cecília e João Aguiar escreveram um ao outro grandes protestos de amor. 

— Dois meses! dizia o bacharel da última vez que lhe falara. Dois meses é a eternidade... 

— Sim, mas havendo constância... 

— Oh! essa! 

— Essa havemos de tê-la ambos. Não te esqueças de mim, sim? 

— Juro. 

— Falarás de mim muitas vezes com Serafina? 

— Todos os dias. 

Cecília partiu. 

— Está muito triste? disse a filha do desembargador logo que nessa mesma tarde falou ao bacharel. 

— Naturalmente. 

— São apenas dois meses. 

— Fáceis de suportar. 

— Fáceis? 

— Sim, conversando com a senhora, que sabe tudo, e fala destas coisas de coração como senhora de espírito que é. 

— Sou um eco das suas palavras. 

— Quem dera que assim fosse! Eu poderia então ter vaidade de mim. João Aguiar disse estas palavras sem tirar os olhos da mão de Serafina, que mui graciosamente brincava com os cabelos. 

A mão de Serafina era realmente uma bela mão; nunca, porém, lhe pareceu mais bela do que naquele dia, nem ela a movera nunca com tamanha graça. 

Nessa noite João Aguiar sonhou com a mão da filha de desembargador. Que lhe havia de pintar a fantasia? Imaginou estar no alto das nuvens, a olhar pasmado o céu azul, de onde viu repentinamente sair uma mão alva e delicada, a mão de Serafina, que se estendia para ele, que lhe acenava, que o chamava para o céu. 

Riu-se João Aguiar deste singular sonho e foi contá-lo no dia seguinte à proprietária da mão. Também ela riu do sonho; mas tanto ele como ela pareciam estar convencidos lá no seu interior que a mão era efetivamente angélica e era natural vê-la em sonhos. Quando ele se despediu: 

— Não vá sonhar outra vez com ela, disse a moça estendendo a mão ao bacharel. 

(continua...)

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