Por Machado de Assis (1867)
E bastaria reclamar? Oprimir não seria atear? A distância mataria aquele amor que resistira à distância? O tempo mataria aquele amor que resistira ao tempo? O espírito de César oscilava entre as duas correntes de idéias e de sentimentos; queria e não podia, podia e não queria; a honra, o amor, a amizade, o orgulho, tudo lutava naquele coração, sem que o infeliz esposo enxergasse ao longe um meio de tudo conciliar. Daniel não suspeitava o que ia no espírito do amigo. Fora-lhe mesmo difícil, à vista da alegria que este manifestava mal se encontravam, alegria igual à do passado e que mostrava a medida em que César possuía a triste hipocrisia da dor e do infortúnio. Daniel resolveu ir visitar César em casa. Era talvez a última ou penúltima visita. Desenganado da sorte não lhe restava mais do que ativar o espírito a fim de esquecer o coração. O meio era partir logo para Minas, onde a aplicação dos seus cuidados ao gênero de vida que abraçara por seis anos podia produzir nele algum resultado benéfico. Preparou-se e saiu em direção da casa de César. Daniel escolheu de propósito a hora em que era certo encontrá-lo.
Quis o destino que exatamente a essa hora César estivesse fora de casa.
Quem lhe deu esta notícia foi Francisca, que, pela primeira vez depois da moléstia, via Daniel.
Francisca não pôde conter uma pequena exclamação vendo as feições mudadas, a magreza e a palidez do moço.
Daniel, quando soube que César estava fora, ficou inteiramente contrariado. Não desejava encontrar-se a sós com a mulher que fora causa involuntária dos seus males. Tinha medo do próprio coração, onde o culto do amor antigo era ainda um princípio de vida e uma esperança de conforto.
Francisca, que durante os longos dias da moléstia de Daniel padecera de uma longa febre moral, não pôde dissimular a satisfação que lhe causava a presença do convalescente. Todavia, por mais vivos que fossem os sentimentos que os ligavam, as duas criaturas davam o exemplo daquela verdade tão ludibriada em certas páginas — de que as paixões não são onipotentes, mas que só tiram força das fraquezas do coração! Ora, no coração de ambos havia o sentimento do dever, e ambos coraram do enleio em que ficaram em face do outro.
Ambos compreendiam que, por mais dolorosa que lhes parecesse a situação em que os colocara o cálculo e o erro, era-lhes dever de honra curvar a cabeça e procurar na resignação passiva a consolação da mágoa e do martírio.
E nem era só isto; para Francisca, ao menos. Não devia só respeitar seu marido, devia amá-lo, amá-lo por eqüidade e por dever. Ao passo que lhe pagava o profundo afeto que ele lhe tinha, consagrava ao chefe da família aquele respeitoso afeto a que ele tinha direito.
Era isto o que ambos compreendiam, Daniel com mais convicção ainda, o que era natural sentimento em uma alma generosa como a sua. Isto é que ele julgava dizer à sua amada, antes de separar-se dela para sempre.
Nesta situação de ânimos encontraram-se os dois. Depois das primeiras interrogações próprias da ocasião e que ambos procuraram tornar o mais indiferentes que podiam, Daniel declarou a Francisca que voltava para Minas.
— É preciso, acrescentou ele, somos estranhos um para o outro: não devo vê-la, não deve ver-me.
— É verdade, murmurou a moça.
— Peço que se compenetre bem da posição que assumiu perante a sociedade. É esposa, amanhã será mãe de família; nem uma nem outra tem que ver com as fantasias do tempo de donzela, por mais legitimas e poderosas que elas sejam. Ame seu marido... Francisca suspirou.
— Ame-o, continuou Daniel; é dever seu e há de vir a ser mais tarde um ato espontâneo. A dedicação, o amor, o respeito com que procura conquistar o coração de sua esposa devem merecer-lhe da sua parte, não a indiferença, mas uma justa retribuição... — Bem sei, dizia Francisca. E cuida que não procuro fazê-lo? Ele é tão bom! procura tanto fazer-me feliz...
— Quanto a mim, disse Daniel, vou-me, adeus.
E levantou-se.
— Já? perguntou Francisca.
— É a última vez que nos falamos.
— Adeus!
— Adeus!
Este adeus foi dito com uma ternura criminosa, mas era o último, e aquelas duas criaturas, cujo consórcio moral estava roto, sentiam bem que se podiam elevar e consolar pelo respeito recíproco e pelo afeto ao esposo e ao amigo cuja honra cada qual tomava por preceito respeitar.
O que é certo é que daí a dois dias Daniel partia para Minas para nunca mais voltar. César foi acompanhá-lo até certa distância. O ato do amigo dissipara-lhe os últimos ressentimentos. Fosse o que fosse, Daniel era um homem que sabia cumprir o seu dever. Mas qual era a situação do casal? César pensou nisto e achou-se fraco para afrontar as dores e os dissabores que lhe traria esta situação.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Francisca. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.