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#Contos#Literatura Brasileira

Francisca

Por Machado de Assis (1867)

Daniel, quando soube que César estava fora, ficou inteiramente contrariado. Não desejava encontrar-se a sós com a mulher que fora causa involuntária dos seus males. Tinha medo do próprio coração, onde o culto do amor antigo era ainda um princípio de vida e uma esperança de conforto. 

Francisca, que durante os longos dias da moléstia de Daniel padecera de uma longa febre moral, não pôde dissimular a satisfação que lhe causava a presença do convalescente. Todavia, por mais vivos que fossem os sentimentos que os ligavam, as duas criaturas davam o exemplo daquela verdade tão ludibriada em certas páginas — de que as paixões não são onipotentes, mas que só tiram força das fraquezas do coração! Ora, no coração de ambos havia o sentimento do dever, e ambos coraram do enleio em que ficaram em face do outro. 

Ambos compreendiam que, por mais dolorosa que lhes parecesse a situação em que os colocara o cálculo e o erro, era-lhes dever de honra curvar a cabeça e procurar na resignação passiva a consolação da mágoa e do martírio. 

E nem era só isto; para Francisca, ao menos. Não devia só respeitar seu marido, devia amá-lo, amá-lo por eqüidade e por dever. Ao passo que lhe pagava o profundo afeto que ele lhe tinha, consagrava ao chefe da família aquele respeitoso afeto a que ele tinha direito. 

Era isto o que ambos compreendiam, Daniel com mais convicção ainda, o que era natural sentimento em uma alma generosa como a sua. Isto é que ele julgava dizer à sua amada, antes de separar-se dela para sempre. 

Nesta situação de ânimos encontraram-se os dois. Depois das primeiras interrogações próprias da ocasião e que ambos procuraram tornar o mais indiferentes que podiam, Daniel declarou a Francisca que voltava para Minas. 

— É preciso, acrescentou ele, somos estranhos um para o outro: não devo vê-la, não deve ver-me. 

— É verdade, murmurou a moça. 

— Peço que se compenetre bem da posição que assumiu perante a sociedade. É esposa, amanhã será mãe de família; nem uma nem outra tem que ver com as fantasias do tempo de donzela, por mais legitimas e poderosas que elas sejam. Ame seu marido... Francisca suspirou. 

— Ame-o, continuou Daniel; é dever seu e há de vir a ser mais tarde um ato espontâneo. A dedicação, o amor, o respeito com que procura conquistar o coração de sua esposa devem merecer-lhe da sua parte, não a indiferença, mas uma justa retribuição... — Bem sei, dizia Francisca. E cuida que não procuro fazê-lo? Ele é tão bom! procura tanto fazer-me feliz... 

— Quanto a mim, disse Daniel, vou-me, adeus. 

E levantou-se. 

— Já? perguntou Francisca. 

— É a última vez que nos falamos. 

— Adeus! 

— Adeus! 

Este adeus foi dito com uma ternura criminosa, mas era o último, e aquelas duas criaturas, cujo consórcio moral estava roto, sentiam bem que se podiam elevar e consolar pelo respeito recíproco e pelo afeto ao esposo e ao amigo cuja honra cada qual tomava por preceito respeitar. 

O que é certo é que daí a dois dias Daniel partia para Minas para nunca mais voltar. César foi acompanhá-lo até certa distância. O ato do amigo dissipara-lhe os últimos ressentimentos. Fosse o que fosse, Daniel era um homem que sabia cumprir o seu dever. Mas qual era a situação do casal? César pensou nisto e achou-se fraco para afrontar as dores e os dissabores que lhe traria esta situação. 

Os primeiros dias passaram-se sem notável incidente. César mais enleado, Francisca mais melancólica, viviam os dois em tal estranheza que faria desesperar finalmente a César, se lhe não ocorresse uma idéia. 

César entendeu que a sua frieza calculada não seria um meio de conciliação. Um dia resolveu depor a máscara e mostrar-se o que era, marido dedicado, amante extremoso, isto é, o que era no fundo, quando o coração de Francisca, enganado por algumas ilusões luminosas, cuidava ainda em pôr na volta do antigo amor uma esperança indiscreta e mal fundada. 

Francisca, ao principio, recebeu com a habitual indiferença as demonstrações de afeto de seu marido; mais tarde, ao passo que o desengano lhe cicatrizava a ferida do coração, o sorriso aparecia-lhe nos lábios, ainda como uma réstia de sol em céu de inverno, mas já núncio de melhores dias. 

César não descansava; buscava no amor o segredo de todos quantos carinhos podia empregar sem quebra da dignidade conjugal. Fugiu a todas as distrações e consagrou-se inteiro ao serviço da conversão daquela alma. Ela era boa, terna, sincera, capaz de amar e de o fazer feliz. A nuvem negra que ensombrara o céu conjugal desaparecera, mal restavam uns restos que o vento da prosperidade atiraria para longe... Tais, eram as reflexões de César, e ele concluía que, em vez de ameaçar e pungir, o melhor era dissipar e persuadir. 

(continua...)

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