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#Contos#Literatura Brasileira

Fernando e Fernanda

Por Machado de Assis (1866)

Madalena procurava conciliar tudo, aproveitando a indiferença de Fernando para estabelecer uma intimidade sem perigo entre as duas almas que um terceiro divorciara. Quanto a Soares, esse, tão frio como os outros, dividia a sua atenção entre os interlocutores e a própria pessoa. A um espírito atilado bastavam dez minutos para conhecer a fundo o caráter de Soares. Fernando no fim de dez minutos sabia com que homem lidava. 

A visita durou pouco menos do que costumava. Madalena tinha por costume conduzir sua filha à casa todas as vezes que esta a visitava. Desta vez, quando Soares a convidou a tomar lugar no carro, Madalena pretextou um ligeiro incômodo e pediu desculpa. Fernando compreendeu que Madalena não queria expô-lo a ir também levar Fernanda até à casa; interrompeu a desculpa de Madalena e disse: 

— Por que não vai, minha mãe? É perto a casa, creio eu... 

E dizendo isto interrogou Soares com o olhar. 

— É perto, é, disse este. 

— Pois então! continuou Fernando; vamos todos, e depois voltamos nós. Não quer? Madalena olhou para Fernando, estendeu-lhe a mão e com um olhar de agradecimento respondeu: 

— Pois sim! 

— Devo acrescentar que eu não posso ir já. Tenho de ir buscar uma resposta daqui a meia hora; mas apenas estiver livre lá vou ter. 

— Muito bem, disse Soares. 

Fernando informou-se da situação da casa, e despediu-se dos três, que entraram para o carro e apartaram-se. 

A mão de Fernanda tremia quando esta a estendeu ao moço. A dele não; parece que a maior indiferença reinava naquele coração. Fernanda ao sair não pôde deixar de soltar um suspiro. 

Fernando não tinha resposta alguma a ir buscar. Não queria utilizar-se de objeto algum que pertencesse a Soares e Fernanda; desejava trazer sua mãe, mas em carro que não fosse daquele casal. 

Com efeito, depois de deixar correr o tempo, para verossimilhança do pretexto, vestiu-se e saiu. Chamou o primeiro carro que encontrou e tomou a direção da casa de Soares. Aí o esperavam para tomar chá. 

Fernando mordeu os beiços quando lhe declararam isto; mas, cobrando o sangue-frio, disse que não podia aceitar, visto ter já tomado chá com a pessoa de quem fora buscar a resposta. 

Não escapou a Madalena o motivo das duas recusas, a do carro e a do chá. Às dez horas e meia Madalena e Fernando estavam de volta para casa. Passaram-se vinte dias depois destas cenas, e sempre que elas se repetiam Fernando era o mesmo, respeitoso, frio e indiferente. 

Madalena, tranqüila até certo ponto, sentia profundamente que Fernando não voltasse à franca alegria dos tempos passados. E para fazer-lhe entrar alguma nova luz no espírito, a boa mãe instava com ele para que entremeasse os estudos e os trabalhos de sua profissão com alguns divertimentos próprios da mocidade. 

— Por que não passeias? Por que não vais aos bailes? Por que não freqüentas as reuniões a que és convidado? Por que foges do teatro, de tudo o que a mocidade procura e precisa? 

— Não tenho gênio para essa vida agitada. A solidão é tão boa! ... 

Enfim, um dia Madalena conseguiu que Fernando fosse ao teatro lirico com ela. Cantava se a Favorita. Fernando ouviu pensativo e absorto aquela música que em tantos lugares fala à alma e ao coração. O ato final sobretudo deixou-o comovido. Estas distrações repetiram-se algumas vezes. 

De concessão em concessão, Fernando achou-se repentinamente freqüentando com assiduidade os bailes, os teatros e as reuniões. O tempo e as distrações iam apagando no espírito de Fernando os últimos vestígios de um destes ressentimentos que, em certo grau, é amor disfarçado. 

Já se aproximava de Fernanda sem comoção nem acanhamento: sua indiferença era mais espontânea e natural. 

Afinal de contas, pensava ele, aquele coração, tão volúvel e estouvado, não devia ser meu; a traição mais tarde seria mais funesta. 

Esta reflexão filosófica era sincera e denotava bem como a razão dominava já, no espírito de Fernando, as memórias saudosas do passado. 

Mas Fernanda? Oh! o estado dessa era outro. Aturdida a princípio com a vista de Fernando; um pouco arrependida depois, quando lhe pareceu que Fernando morria de dor e pesar; mais tarde, despeitada, vendo e conhecendo a indiferença que respiravam as maneiras e as palavras dele; finalmente combatida por mil sentimentos diversos, o despeito, o remorso, a vingança; desejando fugir-lhe e sentindo-se arrastada para o homem que desprezara; vitima de um conflito entre o arrependimento e a vaidade, a esposa de Soares sentiu que se operava uma revolução no seu espírito e na sua vida. Em mais de uma ocasião Fernanda fizera sentir, em palavras, em olhares, em suspiros, em reticências, o estado do seu coração. Mas Fernando, a quem já não causava comoção a presença de Fernanda, não dava fé das revelações, às vezes demasiado eloqüentes, da esposa do pintalegrete. 

(continua...)

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