Por Machado de Assis (1878)
— Quero...
— Diga.
— Quero primeiro sondar mamãe.
— Sua mãe não se oporá à nossa felicidade.
— Creio que não; mas não desejo dar palavra sem estar certa de a poder cumprir. — Logo não me ama.
— Que exageração!
Anacleto mordeu a ponta do lenço.
— Não me ama, gemeu ele.
— Amo, sim.
— Não! Se me amasse, outra seria sua resposta. Adeus, Carlota! Adeus para sempre! E deu alguns passos...
Carlota não lhe respondeu nada. Deixou-se ficar à janela até que ele voltasse, o que não demorou muito. Anacleto voltou.
— Jura que me ama? disse ele.
— Juro.
— Vou mais tranqüilo. Só desejo saber quando poderei obter sua resposta. — Dentro de uma semana; talvez antes.
— Adeus!
Desta vez o vulto que o espreitara em uma das noites anteriores, estava no mesmo lugar, e quando o viu afastar-se caminhou para ele. Caminhou e parou; olharam-se: foi um lance teatral.
O vulto era Adriano.
Vai o leitor vendo que o conto não se parece com outros de água morna. Neste há inclinação trágica. Um leitor atilado vê já ali uma espécie de fratricídio moral, um produto do destino antigo. Não é bem isto; mas podia ser. Adriano não sacou um punhal do bolso, nem Anacleto recorreu à espada, que aliás nem trazia nem possuía. Digo mais: Anacleto nem suspeitou nada.
— Tu por aqui!
— Ando a tomar fresco.
— Tens razão; faz um calor!
Os dois seguiram; falaram de várias coisas estranhas até chegarem à porta da casa de Adriano. Cinco minutos depois, Anacleto despedia-se.
— Onde vais?
— Para casa; são nove horas.
— Podes dispensar alguns minutos? disse Adriano em tom sério.
— Pois não.
— Entra.
Entraram.
Anacleto ia meio intrigado, como dizem os franceses; o tom do primo, seus modos, tudo tinha um ar misterioso e aguçava a curiosidade.
Adriano não o fez demorar muito, nem deu lugar a conjecturas. Logo que entraram, acendeu uma vela, convidou-o a sentar-se e falou por este modo:
— Você gosta daquela moça?
Anacleto estremeceu.
— Que moça? perguntou ele depois de curto silêncio.
— A Carlota.
— A da Praia da Gamboa?
— Sim.
— Quem lhe disse isso?
— Responda: gosta?
— Creio que sim.
— Mas... deveras?
— Essa agora!
— A pergunta é natural, disse Adriano com tranqüilidade. Você é conhecido por gostar de namorar umas e outras. Não há motivo de censura, porque assim fazem muitos rapazes. Por isso desejo saber se gosta deveras, ou se é um simples passatempo. Anacleto refletiu alguns instantes.
— Desejava saber qual será sua conclusão em qualquer dos casos. — Simplíssima. No caso de ser passatempo, pedir-lhe-ei que não ande a iludir uma pobre moça que lhe não fez mal nenhum.
Anacleto já estava sério.
— E no caso de gostar deveras? disse ele.
— Neste caso, dir-lhe-ei que também gosto dela deveras e que, sendo ambos competidores, poderemos resolver este conflito por algum modo.
Anacleto Monteiro bateu com a bengala no chão e ergueu-se fazendo um arremesso, enquanto Adriano, pacificamente sentado, aguardava a resposta do primo. Este passeou de um lado para outro sem saber que lhe respondesse e desejoso de o deitar pela janela fora. O silêncio foi longo. Anacleto rompeu-o, detendo-se de súbito:
— Mas não me dirá qual será o modo de resolver o conflito? disse ele. — Vários.
— Vejamos, disse Anacleto, sentando-se de novo.
— Primeiro: você desiste de a pretender; é o mais fácil e simples.
Anacleto contentou-se com sorrir.
— O segundo?
— O segundo é retirar-me eu.
— É o melhor.
— É o impossível, nunca o farei.
— Ah! então sou eu que devo retirar-me e deixá-lo... Na verdade!
— Terceiro modo, continuou pacificamente Adriano: ela escolher entre ambos. — Isso é ridículo.
— Justamente: é ridículo... E é por ser destes três modos, um ridículo e outro impossível, que eu lhe proponho o mais praticável dos três: sua retirada. Você tem namorado muitas sem casar; será mais uma. E eu, que não uso namorar, gostei desta e espero chegar ao casamento.
Só então lembrou a Anacleto fazer-lhe a mais natural pergunta do mundo: — Mas tem você certeza de ser amado por ela?
— Não.
Anacleto não se pôde conter: levantou-se, soltou dois impropérios e dirigiu-se para a porta. O primo foi ter com ele.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Dívida extinta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1878.