Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Diana

Por Machado de Assis (1866)

Luís a Alberto. — Esta carta há de chegar às tuas mãos poucos dias antes de mim. Estou em Porto Alegre em preparativos de viagem. 

Podia guardar-me para contar-te de viva voz tudo o que me acontecesse depois da última que te escrevi (há um século?), mas prefiro dar-te já a grande notícia. Naturalmente supões que vou chegar à corte casado com a bela Diana? Engano positivo; vou solteiro, como vim. E vou explicar-te a razão. 

Tive ocasião de ver à luz do sol a mulher que eu só vira ao clarão da lua ou das velas da sala. Que abismo entre ambas! Passei do anjo ao dragão! A mulher era feia como um demônio; a noite e a tinta eram a solução daquela charada viva. Dei graças a Deus quando fiz a descoberta. 

À vista te contarei mais detalhadamente o episódio desta descoberta, que só difere de Colombo em não ser de um novo mundo, mas de um velho mundo.

Desenganado dos meus amores, decidi partir para Pelotas. 

Este episódio não é menos interessante. Ouve-me. 

Cheguei a Pelotas e foi examinar a casa que há cinco anos não recebia um bocado de ar. Foram precisos alguns dias para que pudesse deixar entrar lá alguém. Quando ficou em estado de receber-me, lá fui com o meu criado, e preparei tudo para proceder ao exame necessário. 

Tive o cuidado de consultar as paredes para ver se eram ocas e podiam, portanto, encerrar alguma coisa que constituísse o segredo de que falava meu padrinho. Nada. 

Marquei um dia e começamos os nossos trabalhos. 

Virei e revirei a casa. Comecei por escavar o chão, mas depois de pesados trabalhos consegui a certeza de que no chão não havia segredo de qualidade alguma. Passei às paredes, porque, apesar do exame a que procedera de começo, podia haver algum ponto em que estivesse o tal segredo; mas qual! 

Supus até que o segredo se achasse na parte da parede onde se achava pendurado um retrato a óleo de meu padrinho. Nada havia. 

Fui ao teto; fiz arrancar tábua por tábua, e depois de longos dias de exame nada encontrei. 

Em resumo, nem as paredes, nem o chão, nem o teto, nem o quintal, em parte alguma encontrei o segredo de meu padrinho. 

Então uma idéia dolorosa assaltou-me o espírito. Meu padrinho era excêntrico; ora, quem sabe se a maior excentricidade dele não seria a de me fazer procurar em vão um segredo imaginário, até convencer-me de que não valia a pena procurá-lo para receber um bocado de dinheiro? 

Isto era muito provável e eu senti-me abalado com esta idéia. 

Mas, passado o primeiro abalo, voltei de novo às minhas pesquisas. Esmerilhei, foi tudo vão. 

Confesso que tive um acesso de matar-me. 

Entretanto, era verdade; nada tinha encontrado; o segredo do meu padrinho fora uma brincadeira. Como ele se havia de rir naquele momento na eternidade! Determinei voltar logo e logo para Porto Alegre, disposto a não receber nada e a voltar para a corte, a fim de começar de novo a vida de advogado. 

Na ocasião em que arranjávamos as malas, vi que entre os objetos que o meu criado enrolava existia o retrato de meu padrinho. 

— Para que trouxeste isso? perguntei eu. 

— Eu mesmo não sei, disse o criado. 

Tive então uma idéia, súbita. 

Tomei o quadro das mãos do criado, e, com o auxilio de uma faca, destas de que usam os guascas, abri o quadro. 

Caiu de dentro um papel dobrado. 

Apanhei o papel com a mão trêmula. 

Seria aquele o segredo? 

Abri o papel e pude ler a custo as letras apagadas pelo tempo. 

Queres saber o que dizia o papel? 

Lê: 

Conselho a meu afilhado. — Nunca te fies em aparências. 

Se eu tivesse o segredo antes de ver Diana!... 

Enfim estou hoje de posse de uma fortuna e de uma lição que me custaram alguma coisa. Até breve! 


12345
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →