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#Contos#Literatura Brasileira

Diana

Por Machado de Assis (1866)

Virei e revirei a casa. Comecei por escavar o chão, mas depois de pesados trabalhos consegui a certeza de que no chão não havia segredo de qualidade alguma. Passei às paredes, porque, apesar do exame a que procedera de começo, podia haver algum ponto em que estivesse o tal segredo; mas qual! 

Supus até que o segredo se achasse na parte da parede onde se achava pendurado um retrato a óleo de meu padrinho. Nada havia. 

Fui ao teto; fiz arrancar tábua por tábua, e depois de longos dias de exame nada encontrei. 

Em resumo, nem as paredes, nem o chão, nem o teto, nem o quintal, em parte alguma encontrei o segredo de meu padrinho. 

Então uma idéia dolorosa assaltou-me o espírito. Meu padrinho era excêntrico; ora, quem sabe se a maior excentricidade dele não seria a de me fazer procurar em vão um segredo imaginário, até convencer-me de que não valia a pena procurá-lo para receber um bocado de dinheiro? 

Isto era muito provável e eu senti-me abalado com esta idéia. 

Mas, passado o primeiro abalo, voltei de novo às minhas pesquisas. Esmerilhei, foi tudo vão. 

Confesso que tive um acesso de matar-me. 

Entretanto, era verdade; nada tinha encontrado; o segredo do meu padrinho fora uma brincadeira. Como ele se havia de rir naquele momento na eternidade! Determinei voltar logo e logo para Porto Alegre, disposto a não receber nada e a voltar para a corte, a fim de começar de novo a vida de advogado. 

Na ocasião em que arranjávamos as malas, vi que entre os objetos que o meu criado enrolava existia o retrato de meu padrinho. 

— Para que trouxeste isso? perguntei eu. 

— Eu mesmo não sei, disse o criado. 

Tive então uma idéia, súbita. 

Tomei o quadro das mãos do criado, e, com o auxilio de uma faca, destas de que usam os guascas, abri o quadro. 

Caiu de dentro um papel dobrado. 

Apanhei o papel com a mão trêmula. 

Seria aquele o segredo? 

Abri o papel e pude ler a custo as letras apagadas pelo tempo. 

Queres saber o que dizia o papel? 

Lê: 

Conselho a meu afilhado. — Nunca te fies em aparências. 

Se eu tivesse o segredo antes de ver Diana!... 

Enfim estou hoje de posse de uma fortuna e de uma lição que me custaram alguma coisa. Até breve! 


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