Por Machado de Assis (1861)
CLARA
Pagar o quê?
LUIS
Pagar essas horas de felicidade calma que a sua graciosa urbanidade me dá e que constituem os meus fios de ouro no tecido da vida.
PEDRO ALVES
Reclamo a minha parte nessa ventura.
CLARA
Meu Deus, declaram-se em justa? Não vejo senão quebrarem lanças em meu favor. Cavalheiros, ânimo, a liça está aberta, e a castelã espera o reclamo do vencedor.
LUÍS
Oh! a castelã pode quebrar o encanto do vencedor desamparando a galeria e deixando-o só com as feridas abertas no combate.
CLARA
Tão pouca fé o anima?
LUÍS
Não é a fé das pessoas que me falta, mas a fé da fortuna. Fui sempre tão mal-aventurado que nem tento acreditar por um momento na boa sorte.
CLARA
Isso não é natural num cavalheiro cristão.
LUÍS
O cavalheiro cristão está prestes a mourar.
CLARA
Oh!
LUÍS
O sol do Oriente aquece os corações, ao passo que o de Petrópolis esfria-os.
CLARA
Estude antes o fenômeno e não vá sacrificar a sua consciência. Mas, na realidade, tem sempre encontrado a derrota nas suas pelejas?
LUÍS
A derrota foi sempre a sorte das minhas armas. Será que elas sejam mal temperadas? Será que eu não as maneje bem? Não sei.
PEDRO ALVES
É talvez uma e outra coisa.
LUÍS
Também pode ser.
CLARA
Duvido.
PEDRO ALVES
Duvida?
CLARA
E sabe quais são as vantagens de seus vencedores?
LUÍS
Demais até.
CLARA
Procure alcançá-las.
LUÍS
Menos isso. Quando dois adversários se medem, as mais das vezes o vencedor é sempre aquele, que à elevada qualidade de tolo reúne uma sofrível dose de presunção. A esse, as palmas da vitória, a esse a boa fortuna da guerra: quer que o imite?
CLARA
Disse - as mais das vezes - confessa, pois, que há exceções.
LUÍS
Fora absurdo negá-las, mas declaro que nunca as encontrei.
CLARA
Não deve desesperar, porque a fortuna aparece quando menos se conta com ela.
LUÍS
Mas aparece às vezes tarde. Chega quando a porta está cerrada e tudo que nos cerca é silencioso e triste. Então a peregrina demorada entra como uma amiga consoladora, mas sem os entusiasmos do coração.
CLARA
Sabe o que o perde? É a fantasia.
LUÍS
A fantasia?
CLARA
Não lhe disse há pouco que o senhor via as coisas através de um vidro de cor? É o óculo da fantasia, óculo brilhante, mas mentiroso, que transtorna o aspecto do panorama social, e que faz vê-lo pior do que é, para dar-lhe um remédio melhor do que pode ser.
PEDRO ALVES
Bravo! Deixe-me, V. Exa., beijar-lhe a mão.
CLARA
Por quê?
PEDRO ALVES
Pela lição que acaba de dar ao Sr. Luís de Melo.
CLARA
Ah! por que o acusei de visionário? O nosso vizinho carece de quem lhe fale assim. Perder-se-á se continuar a viver no mundo abstrato das suas teorias platônicas.
PEDRO ALVES
Ou por outra, e mais positivamente, V. Exa. mostrou-lhe que acabou o reinado das baladas e da pasmaceira para dar lugar ao império dos homens de juízo e dos espíritos sólidos.
LUÍS
V. Exa. toma então o partido que me é adverso?
CLARA
Eu não tomo partido nenhum.
LUÍS
Entretanto, abriu brecha aos assaltos do Sr. Pedro Alves, que se compraz em mostrar-se espírito sólido e homem de juízo.
PEDRO ALVES
E de muito juízo. Pensa que eu adoto o seu sistema de fantasia, e por assim dizer, de choradeira? Nada, o meu sistema é absolutamente oposto; emprego os meios bruscos por serem os que estão de acordo com o verdadeiro sentimento. Os da minha têmpera são assim.
LUÍS
E o caso é que são felizes.
PEDRO ALVES
Muito felizes. Temos boas armas e manejamo-las bem. Chame a isso toleima e presunção, pouco nos importa; é preciso que os vencidos tenham um desafogo.
CLARA
(a Luís de Melo)
O que diz a isto?
LUÍS
Digo que estou muito fora do meu século. O que fazer contra adversários que se contam em grande número, número infinito, a admitir a versão dos livros santos?
CLARA
Mas, realmente, não vejo que pudesse responder com vantagem.
LUÍS
E V. Exa. sanciona a teoria contrária?
CLARA
A castelã não sanciona, anima os lidadores.
LUÍS
Animação negativa para mim. V. Exa. dá-me licença?
CLARA
Onde vai?
LUÍS
Tenho uma pessoa que me espera em casa. V. Exa. janta às seis, o meu relógio marca
cinco. Dá-me este primeiro quarto de hora?
CLARA
Com pesar, mas não quero tolhê-lo. Não falte.
LUÍS
(continua...)
ASSIS, Machado de. Desencantos: fantasia dramática. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1861.