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#Contos#Literatura Brasileira

D. Mônica

Por Machado de Assis (1876)

— Alguma coisa há de haver por força, dizia ela mordendo o lábio com despeito. E a idéia de um namoro foi a primeira que lhe acudiu ao espírito como a mais natural de todas as explicações. 

— É isso, algum namorico, sabe Deus com que lambisgóia! Sacrifica-se por ela, sem saber o que lhe resultará de semelhante passo. Pois que se avenham... A reticência que aí fica não é minha, foi uma reticência nervosa que acometeu a pobre senhora, em forma de tosse, interrompendo o monólogo, a que deu fim a mucama trazendo-lhe a bandejinha de chá. D. Mônica tomou dois ou três goles dele e deitou-se daí a alguns minutos. O sono não veio prontamente, mas veio, enfim, cheio de sonhos cor-de rosa em que D. Mônica viu realizados todos os seus desejos. 

No dia.seguinte os bons dias que recebeu foi uma carta de Gaspar. Dizia-lhe ele, respeitosamente, que era obrigado a renunciar à honra imposta por seu tio e à herança que lhe advinha dela, visto ter uma afeição anterior ao testamento do capitão Matias, afeição séria e decisiva. Consultaria, entretanto, um advogado para liquidar o ponto e saber se a tia podia ser defraudada de alguma parte da herança, coisa que ele evitaria por todos os meios possíveis. A carta era singela, nobre e desinteressada; por isso mesmo o desespero de D. Mônica foi aos últimos limites. 

Gaspar não remeteu aquela carta sem consultar o seu amigo Veloso, que a ouviu ler e aprovou com restrições. A carta seguiu seu destino, e Gaspar interrogou o bacharel sobre o que achava ele que dizer ao desengano contido na epístola. 

— Acho que o desengano é franco demais. Não é bem isto que eu quero dizer. Acho que não deixas nenhum caminho para voltar atrás. 

— Voltar atrás? perguntou Gaspar admirado. 

— Sim. 

— Mas por quê? 

— Porque não se despedem tão levianamente trezentos contos. Amanhã podes pensar de modo inteiramente diverso do que pensas hoje... 

— Nunca! 

— Nada de afirmações temerárias. 

Gaspar levantou os ombros e fez um gesto de tédio, a que Veloso respondeu sorrindo. Gaspar lembrou-lhe que, logo que fora aberto o testamento e conhecidas as disposições de seu tio, Veloso lhe aprovara a resolução de não aceitar o casamento imposto. — É verdade, retorquiu este; mas, se é bonito o ato, não impede que absolutamente o devas praticar, nem que seja prova de juízo seguro. 

— Nesse caso, parece-te... 

— Que não cedes a considerações de dinheiro, o que é prova de honestidade; mas que não há remédio se não ceder alguma vez a elas, o que é prova de reflexão. A mocidade passa e as apólices ficam. 

Gaspar engoliu um discurso que lhe veio à ponta da língua, discurso de indignação, todo inspirado por seus brios ofendidos; limitou-se a dizer que no dia seguinte ia pedir a mão de Lucinda e que se casaria no mais breve prazo. Veloso deu-lhe os parabéns, e Gaspar foi dali redigir a carta de pedido ao comendador. 

A carta de Gaspar não chegou à notícia do narrador do caso; mas há motivos para crer que era obra acabada como simplicidade de expressão e nobreza de pensamento. A carta foi enviada no dia seguinte; Gaspar aguardou a resposta com a ansiedade que o leitor pode imaginar. 

A resposta não veio imediatamente como ele cuidava que seria. Esta demora fê-lo curtir dores cruéis. Escreveu um bilhete à namorada que lhe respondeu com três ou quatro monossílabos tétricos e misteriosos. Gaspar assustado correu à casa do comendador, e achou-a triste, abatida e reservada. Quis indagar o que havia, mas não teve ocasião. A razão da tristeza de Lucinda foi a repreensão que o comendador lhe passou, ao ler o pedido do rapaz. 

— Autorizaste semelhante carta? perguntou o comendador fuzilando-lhe os olhos de

cólera. 

— Papai... 

— Responde! 

— Eu... 

— Eu quê? 

— Não sei... 

— Sei eu, troou o comendador Lima indignado; sei que não tiveste força bastante para desanimar o pretendente. Casar! Não é demais senão casar! Com que havia ele de sustentar casa? Provavelmente com o que esperava receber de mim? De maneira que eu ajuntei para que um peralvilho, que não tem onde cair morto, venha desfrutar o que me custou a haver? 

Lucinda sentiu duas lágrimas borbulharem-lhe nos olhos e fez menção de retirar-se. O pai reteve-a para lhe dizer em termos menos desabridos que ele não desaprovava nenhuma afeição que ela tivesse, mas que a vida não se compunha só de afeições, senão de interesses também e necessidades de toda a espécie. 

— Esse tal Gaspar não é mau rapaz, concluiu o comendador, mas não tem posição digna de ti, nem futuro. Por ora tudo são flores; as flores passam depressa; e quando tu quiseres um vestido novo ou uma jóia, não hás de mandar à modista ou ao joalheiro um pedaço do coração de teu marido. São verdades que deves ter gravadas no espírito, em vez de te guiares somente por fantasias e sonhos. Ouviste? 

Lucinda não respondeu. 

— Ouviste? repetiu o comendador. 

— Ouvi. 

(continua...)

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